A milhares de quilômetros de distância, uma guerra pode parecer um evento distante quase abstrato. Mas, na prática, seus efeitos atravessam oceanos, redes de comércio e chegam silenciosamente ao bolso do consumidor. Um mês após a escalada do conflito no Oriente Médio envolvendo Estados Unidos, Irã e Israel, os primeiros sinais desse impacto já começam a aparecer no Brasil.
Neste sábado (28), a marca de 30 dias de tensão geopolítica não é lembrada apenas pelos danos humanos e materiais na região, mas também pelos reflexos na economia global. Por aqui, o impacto inicial veio rápido: o preço do diesel subiu cerca de 20%, pressionando o transporte de cargas e afetando diretamente o agronegócio.
Combustível mais caro já afeta logística e contratos
O aumento no diesel elevou os custos de frete e já provocou consequências concretas. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), por exemplo, cancelou contratos para o transporte de 23,7 mil toneladas de milho firmados entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026, diante da inviabilidade econômica das operações.
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Esse movimento acende um alerta para um possível efeito em cadeia. Com o transporte mais caro, toda a logística de distribuição é impactada do campo até os centros urbanos.
Efeito pode chegar à mesa do consumidor
Especialistas apontam que o encarecimento dos combustíveis e dos insumos agrícolas tende a pressionar os preços dos alimentos. Ainda que o impacto não seja imediato, a tendência é de alta, principalmente se o conflito se prolongar.
O pesquisador Felippe Serigati, do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV Agro), destaca que a maior preocupação vai além dos preços.
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“O principal ponto de atenção é o mercado de combustíveis. O risco maior não é só o aumento, mas um possível desabastecimento”, avalia.
Segundo ele, um cenário extremo (como o fechamento do Estreito de Ormuz, rota estratégica para o petróleo mundial) nunca foi registrado na história econômica recente, o que aumenta a incerteza global.
Dependência do transporte rodoviário agrava cenário
No Brasil, onde o escoamento da produção depende majoritariamente de rodovias, o impacto pode ser ainda mais sensível. Com o diesel mais caro, caminhoneiros podem reduzir viagens. Em um cenário mais crítico, a falta de combustível poderia interromper completamente a circulação de mercadorias.
“Se o preço sobe, o transportador ainda pode decidir operar. Mas, sem combustível, não há alternativa. Isso afeta toda a sociedade”, explica o especialista.
Fertilizantes e produção: impacto mais lento
Já no campo, o aumento dos fertilizantes (muitos importados) também preocupa, mas seus efeitos tendem a ser mais graduais. Isso porque o repasse ao consumidor depende de fatores como produtividade e condições da safra.
Experiências recentes, como a guerra na Ucrânia, mostram que nem sempre o aumento dos insumos resulta automaticamente em alimentos mais caros, embora pressione os custos de produção.
Commodities e exportações sob pressão
Produtos com preços atrelados ao mercado internacional devem sentir mais rapidamente os reflexos. Entre os mais vulneráveis, estão:
- Milho: risco de atrasos nos embarques devido ao frete mais caro
- Açúcar: forte dependência de exportações para o Oriente Médio
- Carne de frango: aumento nos custos de transporte e seguros
- Suco de laranja: impacto logístico e instabilidade na demanda externa
A consultoria Datagro aponta que mudanças no mercado global (especialmente no Hemisfério Norte) podem elevar ainda mais os preços dessas commodities, com reflexos diretos no Brasil.
Proteína animal também preocupa
A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) destaca que o setor já enfrenta aumento de até 20% nos fretes rodoviários e de até 30% nos custos de embalagens plásticas, muitas delas dependentes de matéria-prima importada da região do conflito.
Diante desse cenário, a entidade não descarta reajustes nos preços de ovos, carne de frango e carne suína nas próximas semanas.
Um impacto silencioso, mas crescente
Embora ainda não totalmente perceptível no dia a dia, os efeitos da guerra começam a se infiltrar na economia brasileira. Entre combustíveis mais caros, custos logísticos elevados e pressões internacionais, o conflito mostra que, em um mundo interligado, nenhuma crise é realmente distante.
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