O argentino Fernando Cerimedo, de 45 anos, conhecido por atuar como estrategista digital de políticos da direita latino-americana, foi preso na Bolívia sob suspeita de ser o mandante de uma tentativa de feminicídio contra a advogada Nadia Beller, de 33 anos. O caso ocorreu em Santa Cruz de la Sierra e colocou sob investigação a atuação política e empresarial do consultor, que já esteve ligado a campanhas de Jair Bolsonaro, Javier Milei e, mais recentemente, do presidente boliviano Rodrigo Paz.
O ataque aconteceu em 17 de agosto, no Swissotel, em Santa Cruz de la Sierra. Imagens de câmeras de segurança mostram dois homens usando capacetes e roupas semelhantes às de entregadores de aplicativos se aproximando de Nadia, que aparentemente aguardava alguém. Um deles sacou uma arma e efetuou três disparos. A advogada foi atingida no peito, no braço e no lado direito do corpo.
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Após os tiros, os suspeitos fugiram. Nadia foi levada para atendimento médico e precisou passar por uma cirurgia de emergência. Ela sobreviveu ao ataque.
No dia seguinte, a polícia boliviana prendeu Cerimedo no aeroporto de Santa Cruz. Ele estava prestes a embarcar para Buenos Aires. Segundo a acusação apresentada pelo Ministério Público, o argentino teria planejado e articulado o atentado contra a ex-companheira.
Quem é Fernando Cerimedo
Cerimedo construiu nos últimos anos uma carreira ligada à comunicação política digital e ganhou espaço entre setores da direita e da direita libertária na América Latina.
A própria narrativa apresentada por ele sobre sua trajetória, porém, foi questionada por uma investigação publicada em 2024 pelo Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP). Cerimedo costuma afirmar que deixou Mar del Plata, na Argentina, aos 19 anos para estudar em Harvard, tornar-se triatleta e, posteriormente, seguir uma trajetória internacional que teria incluído estudos de marketing em Porto Rico e treinamento com os Navy SEALs, unidade de elite da Marinha dos Estados Unidos.
A investigação jornalística apresentou uma trajetória diferente. Segundo o levantamento, Cerimedo trabalhou como taxista, funcionário de seguradora, empregado de uma empresa de tecnologia e de uma fábrica de plásticos. Mais tarde, atuou como professor do ensino médio em Buenos Aires.
Em 2016, ele foi condenado pela Justiça argentina a dois anos e meio de prisão, com pena suspensa, por fraude. De acordo com o processo, Cerimedo vendeu o mesmo apartamento para duas pessoas diferentes.
Sua entrada na política digital ocorreu em 2018, quando trabalhava na agência de publicidade McCann. Durante a pandemia de Covid-19, ganhou visibilidade ao divulgar teorias conspiratórias nas redes sociais e passou a se aproximar de grupos ligados à direita libertária argentina.
Ascensão no cenário político latino-americano
A atuação de Cerimedo em campanhas políticas ganhou força a partir de 2020, quando ele participou da disseminação de conteúdos falsos relacionados ao referendo constitucional no Chile.
O nome do argentino alcançou repercussão internacional após a eleição brasileira de 2022. Cinco dias depois da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, Cerimedo participou de uma transmissão intitulada "Brasil Foi Roubado", na qual apresentou um documento anônimo que fazia acusações falsas de fraude no sistema eleitoral brasileiro.
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No ano seguinte, passou a trabalhar na comunicação digital da campanha presidencial de Javier Milei, na Argentina. Cerimedo afirma ter sido responsável por sugerir o uso de uma motosserra como símbolo dos atos eleitorais do então candidato.
Embora não tenha ocupado formalmente um cargo no governo argentino, também teria participado da articulação da entrevista de Milei com Tucker Carlson, comentarista conservador dos Estados Unidos.
A proximidade com o universo político ligado a Donald Trump fez com que a revista The Economist o descrevesse, em dezembro de 2025, como "o homem MAGA da América Latina".
Suspeitas na Bolívia
Cerimedo se aproximou do governo de Rodrigo Paz depois da eleição do presidente boliviano, no fim de 2025, e passou a atuar como conselheiro pessoal.
A relação mudou após o ataque contra Nadia Beller. Em uma acusação de 24 páginas, os promotores Herlan Rodríguez Cuevas e Yolanda Aguilera classificaram Cerimedo como o "provável mentor e articulador público" da tentativa de feminicídio.
Segundo o Ministério Público, o argentino teria usado a relação afetiva com Nadia para convencê-la a comparecer ao hotel onde ocorreu o ataque. A promotoria também afirma que ele seria o pai do filho que a advogada esperava. A gravidez teria aproximadamente quatro semanas na época do atentado.
As investigações realizadas no fim de agosto também encontraram grandes quantidades de dinheiro em espécie em imóveis ligados a Cerimedo. Os valores estavam em bolivianos, dólares e euros e foram localizados em pelo menos cinco endereços. O Ministério Público ainda não apresentou uma soma total.
O argentino também passou a ser investigado por suspeita de lavagem de dinheiro. Em outra frente, um promotor do departamento de Beni, na região amazônica da Bolívia, apura possíveis vínculos entre Cerimedo e voos clandestinos relacionados ao narcotráfico. A investigação considera, entre outros elementos, declarações atribuídas a Nadia Beller.
Distanciamento político
A prisão também provocou um rápido afastamento de antigos aliados políticos.
Em 18 de agosto, o porta-voz de Rodrigo Paz, José Luis Gálvez, ainda descrevia Cerimedo como um colaborador próximo do presidente. Poucos dias depois, Paz afirmou que nunca havia mantido contrato formal nem relação de trabalho direta com o argentino.
Na Argentina, Milei também negou vínculos atuais com o estrategista. O presidente declarou que não tinha "qualquer ligação" com Cerimedo desde 2023 e passou a acusá-lo de integrar um suposto "esquema castrochavista".
Registros oficiais da Casa Rosada, porém, indicam que Cerimedo esteve na sede da Presidência argentina ao menos 13 vezes entre dezembro de 2023 e junho de 2024.
Uma rede que ultrapassa fronteiras
O caso também reacendeu discussões sobre a influência de estrategistas digitais que atuam de forma transnacional e, muitas vezes, sem ocupar cargos oficiais.
Na América Latina, Cerimedo já foi associado a diferentes disputas políticas. A presidente mexicana Claudia Sheinbaum relacionou os protestos antigovernamentais ocorridos em novembro de 2025 à atuação de redes internacionais da direita, embora não tenha citado Cerimedo diretamente.
Na Colômbia, o ex-presidente Gustavo Petro também acusou o argentino de interferir na eleição que levou Abelardo De la Espriella ao poder. Até o momento, porém, não foram apresentadas publicamente evidências que comprovem a acusação.
O jornalista investigativo argentino Hugo Alconada Mon já havia chamado atenção para a expansão desse modelo de atuação política. Segundo ele, enquanto partidos tradicionais continuam concentrados em estratégias nacionais, consultores, influenciadores e estrategistas digitais passaram a operar entre diferentes países, ampliando sua influência sem necessariamente assumir cargos públicos.
É justamente essa posição informal que ajudou a explicar a ascensão de Cerimedo no cenário político regional. A mesma característica, porém, também facilitou o afastamento de antigos aliados depois que ele passou a ser alvo das investigações na Bolívia.
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