Com uma simples assinatura, o Presidente dos EUA, Donald Trump, conseguiu unir quase todo o planeta contra Washington. De Berlim a Jacarta, o decreto que suspende a entrada de cidadãos de sete países muçulmanos e interrompe o acolhimento de refugiados foi condenado por todos, criando uma mancha profunda na imagem dos EUA no mundo.
“Não se pode querer rasgar 70 anos de política externa sem se ter pensado bem sobre o que a pode vir a substituir”, diz ao New York Times o académico Joseph Nye, questionado sobre as mudanças radicais que o novo Presidente dos EUA tem promovido.
O decreto motivou as reacções mais críticas por parte dos líderes mundiais. A forma imediata como a proibição foi aplicada e o cenário de caos nos principais aeroportos do país foi recebida com choque, indignação e muitos avisos para os riscos que estas ações acarretam.
Uma das reações mais fortes veio do alto-comissário da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Raad al-Hussein, que lembrou que a “discriminação baseada exclusivamente na nacionalidade é proibida pelo direito internacional”. “A proibição dos EUA é também mal-intencionada, e desperdiça recursos necessários para um verdadeiro contra-terrorismo”, acrescentou.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, aproveitou o discurso que deu na cimeira da União Africana – a Líbia, Somália e Sudão são os países africanos afectados pelo decreto – para criticar discretamente a posição de Trump. “As fronteiras africanas mantêm-se abertas para aqueles que necessitam de proteção, quando tantas fronteiras estão a ser fechadas, mesmo em alguns dos países mais desenvolvidos do mundo”, disse Guterres.
Numa conversa telefónica com Trump, a chanceler alemã, Angela Merkel, teve que recordar o Presidente norte-americano das obrigações de acolhimento de refugiados tratados nas convenções internacionais. A luta contra o terrorismo “não justifica colocar pessoas de um perfil ou religião específica sob suspeita generalizada”, disse Merkel através do seu porta-voz.
Em França – um dos países europeus mais visados por ataques terroristas de inspiração islamista nos últimos anos – o ministro dos Negócios Estrangeiros, Jean-Marc Ayrault, sublinhou que “o terrorismo não tem nacionalidade” e que “a discriminação não é uma resposta”.
No Reino Unido, uma petição online já reuniu mais de um milhão de assinaturas para impedir a visita do Presidente norte-americano.
"Medidas recíprocas"
A ordem de Trump decreta a proibição de entrada nos EUA a cidadãos de sete países – Irão, Iraque, Síria, Líbia, Iémen, Sudão e Somália – durante 90 dias e suspende o acolhimento de refugiados por 120 dias – para sírios a duração da interrupção é indefinida.
Os critérios por trás da escolha destes países estão relacionados com uma escala de perigo que os aponta como perigosos aos interesses norte-americanos. Já antes da promulgação do decreto presidencial de Trump havia muitas restrições à emissão de vistos para cidadãos destes sete países.
Em Teerão, o Governo garantiu que vai adoptar “medidas recíprocas”, dando a entender que irá deixar de emitir vistos para cidadãos norte-americanos. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Javad Zarif, – ele próprio um ex-estudante de universidades dos EUA – descreveu o decreto como “uma grande prenda para os extremistas”. A proibição de entrada de iranianos nos EUA ameaça cortar décadas de intercâmbio cultural e académico entre os dois países, que sobreviveram mesmo às piores épocas nas relações entre Washington e Teerão. Pode ainda pôr em causa o clima de desagravamento das tensões entre os dois países conquistado com a assinatura do acordo sobre o programa nuclear iraniano – que Trump também quer rever – e fortalecer as facções mais conservadoras num ano de eleições presidenciais.
Em relação ao Iraque, a situação é ainda mais sensível. Depois de uma presença militar de quase nove anos, os EUA tornaram-se fundamentais para o frágil equilíbrio que rege a política iraquiana. Acresce ainda o facto de mais de cinco mil militares norte-americanos lutarem ao lado das forças iraquianas contra o Daesh, que ainda ocupa parte do país. O Governo de Bagdade lembrou a “relação especial” entre os dois países e pediu a Trump que reconsiderasse a inclusão de iraquianos na proibição.
O decreto abre caminho para que se instale um novo clima de ódio em relação aos EUA. O jornal Al-Adala, próximo dos sectores pró-iranianos, denunciou a proibição como uma “manifestação flagrante de políticas racistas”. O influente líder religioso xiita Moqtada al-Sadr exigiu a saída imediata dos norte-americanos do Iraque, como retaliação.
(Com informações de Público)
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