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REPORTAGEM ESPECIAL

Óleo de cozinha que poluía rio em Bragança é transformado em sabão ecológico; saiba como! 

quarta-feira, 19/02/2020, 11:47 - Atualizado em 02/03/2020, 13:10 - Autor: Andressa Ferreira, Enderson Oliveira e Gabriel Caldas


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| Gabriel Caldas

Depois de preparar as refeições, o que você faz com o óleo que sobrou na panela? A maioria joga no ralo da pia, no vaso sanitário ou até mesmo no lixo, se livrando de forma prática e rápida.

No entanto, você sabia que isso pode trazer danos irreparáveis ao meio ambiente? Cada litro de óleo despejado de forma irregular tem capacidade para poluir cerca de um milhão de litros de água, além de entupir as tubulações e causar um considerável atraso no processo de compostagem, quando chega ao aterro sanitário.

Segundo Luís Adriano Santos, Doutor em Físico-Química e professor na Universidade Federal do Pará, “estima-se que o Brasil não recicle mais que 1% de todo óleo de cozinha usado e que cada 1 litro de óleo (volume médio consumido por cada família brasileira em um mês) possa contaminar de 20 a 25 mil litros de água”.

Ainda de acordo com Santos, durante o descarte, “há grande risco de contaminação ambiental, seja na água, seja no solo. Por exemplo, ao ser despejado na pia, o óleo usado passa pelos canos da rede de esgoto e pode ficar retido em forma de gordura, atraindo pragas causadoras de diversas doenças, além de dificultar a passagem de águas pluviais e entupir a rede de esgoto, levando ao mau funcionamento das estações de tratamento. O esgoto contaminado com o descarte do óleo de cozinha usado chega às Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs), que irão separá-lo da água e tratá-lo de forma que a água possa despejada nos mananciais. Mas, uma vez que as ETEs não possuem capacidade de tratar o esgoto total, uma certa quantidade de óleo chega aos mananciais aquáticos".

O professor Luís Adriano Santos, Doutor em Físico-Química e professor na Universidade Federal do Pará, explicou os riscos que o descarte irregular de óleo de cozinha pode provocar.
O professor Luís Adriano Santos, Doutor em Físico-Química e professor na Universidade Federal do Pará, explicou os riscos que o descarte irregular de óleo de cozinha pode provocar. Arquivo Pessoal
 

Ainda de acordo com ele, "como o óleo é menos denso que a água, ele fica na superfície dos rios e lagos, impedindo a entrada de luz e oxigênio, causando a morte de várias espécies aquáticas”, explica o professor, que também é vice-coordenador do Laboratório de Óleos da Amazônia, da Faculdade de Biotecnologia-ICB/UFPA.

Para começar a mudar este panorama, a primeira medida a ser tomada é simples: armazenar as sobras da fritura em vez de jogar no ralo da pia ou no cesto de lixo. O armazenamento pode ser feito em uma garrafa pet com tampa, por exemplo. Depois, é só encaminhar para uma destinação adequada. Uma delas, caro leitor, é o reaproveitamento deste óleo, como é feito em Bragança.

Esta cadeia de produção e incentivo à reutilização do óleo, como a que é realizada na Pérola do Caeté, só é possível também pela ajuda de colaboradores. Um deles é o Adalberto Ribeiro, 49 anos. Administrador de empresas e dono de uma hamburgueria, ele ajuda a cooperativa com a doação de óleo de cozinha desde o ano passado.

“Sempre tivemos essa preocupação com o meio ambiente. Ano passado, as meninas (representantes do Inã) vieram aqui apresentar o projeto e vimos que não tinha muito o que pensar. Tínhamos uma série de resíduos que era descartado de maneira inadequada, tínhamos consciência disso, mas não tinha muito o que fazer. Por mais que façamos uma separação, não tinha uma destinação correta e o óleo acaba indo mesmo para o lixo”, revela ele.

Para Adalberto, a coleta de óleo de forma correta é apenas uma questão de hábito. “É só uma questão de começar. A dificuldade é só no início, mas a partir do momento que você estabelece uma rotina, fica tranquilo. Sabemos que enquanto empresa e membro de uma comunidade, você é socialmente responsável pelo que acontece nela”, conclui o empresário.

 

A opinião é compartilhada por Teila Rodrigues, de 36 anos, estudante de cosmetologia e estética, consumidora “fiel” do produto. “Eu me sinto feliz porque também estou tirando aquele óleo que iria para a rua, para o esgoto, entupiria um bueiro. Estou usando na minha casa para cuidar da minha família. Eu sou consumidora fiel, faço propaganda para a minha família, vizinhos e amigos”, diz com a confiança de que entende seu papel social e reconhece a qualidade do produto, vendido entre R$1,50 a R$2,50.

Teila ainda explica que possui motivos familiares para o consumo. “A produção me remete a essa lembrança da minha avó, que mora no interior. É um trabalho muito válido, bonito, de conscientização. A gente sabe a origem do produto, como foi feito. E eles (catadores) fazem essa produção com tanto carinho. Faz bem para a comunidade, a produção é algo que nos faz refletir, que ajuda pessoas e que ainda cuida do nosso planeta”, ressalta.

Reportagem: Andressa Ferreira

Direção e edição: Enderson Oliveira

Imagens e edição de vídeo: Gabriel Caldas

Coordenação sênior: Ronald Sales

Coordenação executiva: Mauro Neto

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