É na Quarta-feira de Cinzas que o Carnaval na Região Metropolitana de Belém (RMB) dá espaço para muitos blocos de rua tradicionais. Concentrados no bairro do Guamá e nos distritos de Icoaraci e Mosqueiro, três blocos somam décadas de tradição e, neste ano, saem às ruas novamente para fazer a alegria dos brincantes.
A energia necessária para seguir pelas cinco ruas percorridas pelo bloco Chulé de Pato vem da sopa de carne e mocotó distribuída, gratuitamente, ainda na concentração da folia. Cria do bairro do Guamá, o bloco existe há 19 anos e, como princípio básico, mantém a tradição das marchinhas de carnaval. “A sopa que distribuímos para as primeiras 1.500 pessoas, gratuitamente, é para recuperar o folião para brincar mais um dia”, brinca o fundador e coordenador do bloco, o cantor e compositor Paulo Mururé.
Paulo conta que o Chulé de Pato foi criado para atender ao público que não podia pagar por fantasias ou abadás para curtir o Carnaval de Belém. De lá para cá, o objetivo se repete diante de uma organização custeada inteiramente por moradores do bairro do Guamá e amigos do bloco, através de coleta ao longo do ano. “Foi uma forma que criamos para que todo mundo possa brincar, de graça, do jeito que quiser”, destaca. “E também foi uma forma de trabalhar com o resgate dos antigos carnavais, com as marchinhas”.
O abre-alas do bloco é formado por um carro alegórico que representa um enorme pato. Um trio elétrico anima os brincantes. “Em cima do trio elétrico vem um grupo de amigos tocando marchinhas de Carnaval. A cada ano nós vemos mais crianças e pessoas idosas fantasiadas e isso é o mais gratificante para a gente”, aponta.
Considerando os registros oficiais apontados pelo Corpo de Bombeiros nas edições anteriores do Chulé de Pato, neste ano a coordenação do evento espera receber em torno de 4 mil brincantes. “O Chulé de Pato é paz, alegria e família reunida!”, destaca.
Quem também já está com tudo organizado para a folia é o bloco Pirarucu nas Cinzas, que tomará as ruas do distrito de Mosqueiro pela 34ª vez neste ano de 2020. Criado em 1986 por Carlos Maresia, o bloco surgiu para dar espaço aos garçons e cozinheiras que passavam todo o feriado de Carnaval trabalhando na ilha.
BRINCADEIRA
“Em uma Quarta-feira de Cinzas o seu Carlos resolveu sair às ruas e brincar com os seus funcionários que tinham trabalhado durante os quatro dias do Carnaval. Na época, eles não tinham banda e então saíram batendo panelas e cantando as músicas eles mesmos”, conta uma das integrantes da atual coordenação do bloco, Carla Ferreira.
“Com o passar dos anos, o bloco foi crescendo e os demais barraqueiros de Mosqueiro entraram no mesmo ritmo. Então o seu Carlos contratou a única bandinha de sopro que tinha em Mosqueiro na época, depois passou para um caminhão que levava uma aparelhagem em cima e todos os mosqueirenses já aguardavam aquele dia”.
Hoje, um trio elétrico acompanha os foliões. Carla conta que, em 2019, a estimativa apontada pelo Corpo de Bombeiros foi de 17 mil pessoas no Pirarucu nas Cinzas. “O bloco cresceu tanto que, por uma questão de segurança, já trabalhamos com abadá e cordão de isolamento”, diz Carla, que ficou responsável pela organização do bloco, ao lado do esposo Carlos Caseca e do filho Túlio Ferreira, depois que Carlos mudou-se de Mosqueiro.
Carla conta que o bloco continua a mesma tradição iniciada por Carlos Maresia, já falecido. “O tema continua o mesmo e se repete todo ano, que é o ‘Pirarucu nas Cinzas, o bloco dos que trabalharam e não brincaram”.
Tradição também é a palavra-chave para descrever o bloco Rabo do Peru, que sai pelas ruas do distrito de Icoaraci há 25 anos. Presidente do bloco, Marco Antônio Soares Moraes conta que o bloco surgiu como uma brincadeira. Na Quarta-feira de Cinzas de 1995, ele se preparava para fechar o depósito de bebidas que possuía à época e, ao fazer a lavagem dos instrumentos musicais, foi tomado pela vontade de curtir mais um dia de folia. “Eu e mais 15 amigos saímos batendo esses tambores, por volta de 15h”, lembra. “No outro ano já melhoramos, arrumamos uma carroça e foi quando demos o nome de Rabo do Peru”.
De lá para cá o bloco só cresceu. Marco Antônio aponta que, apenas no ano passado, cerca de 50 mil pessoas participaram do Rabo do Peru. “Com o crescimento constante fizemos o trajeto do bloco para dar mais segurança aos brincantes e saímos sempre com o nosso mascote, o Peru”, conta.
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