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NO CADERNINHO

Fiado pra que te quero: A Base mostra como a periferia se vira

Quem vive na periferia sabe que grande parte dos moradores não tem cartão de crédito. A falta de documentação e a inadimplência, mais conhecida como “nome sujo no SPC ou no Serasa”, impedem as pessoas de participarem da chamada economia formal. São mais d

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Imagem ilustrativa da notícia Fiado pra que te quero: A Base mostra como a periferia se vira camera Quem nunca viu essas plaquinhas? Elas estão espalhadas, mas nem sempre funcionam | Reprodução

Quem vive na periferia sabe que grande parte dos moradores não tem cartão de crédito. A falta de documentação e a inadimplência, mais conhecida como “nome sujo no SPC ou no Serasa”, impedem as pessoas de participarem da chamada economia formal. São mais de 60 milhões de pessoas negativadas, e como é de se imaginar, a maioria vive nos subúrbios brasileiros. Nesse ambiente, um método milenar é o que continua salvando algumas famílias: o bom e velho fiado.

Em Icoaraci, assim como em muitos outros locais da periferia paraense, o “caderninho” é essencial para os negócios, mas, assim como no crédito formal, é preciso comprovar que se é bom pagador. Na “taberna” do casal Manuel e Aldenir, cerca de 40% das vendas são no fiado. Eles até aderiram às populares “maquininhas” de crédito e débito, que na maior parte do dia fica encostada.

“Trabalho aqui há sete anos, sempre vendemos fiado né. A gente trabalha com um caderno. Já coloquei cartão de crédito pra tentar me livrar do fiado, mas não consigo, não funciona. Não vou te dizer que o fiado não é bom, tem a parte boa, a dos clientes bons que chegam no dia e pagam tudo certinho. Eu faço uma programação, no final do mês eu vou fazendo minhas compras contando com o dinheiro de clientes que selecionei e que nunca falharam. As vezes tem uns que demoram um pouquinho, mas acaba pagando (risos). Aqui não levo calote, mas por causa dessa seleção. Os bons estão no caderninho!”, diz a sorridente Aldenir.

O grande dilema dos comerciantes na periferia é: optar por vender fiado e correr o risco de levar calote e gerar confusões, ou não vender fiado e perder uma renda significativa. Num país em que, segundo a última PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua) do IBGE, pelo menos 38 milhões dos trabalhadores são informais – o que corresponde a 40%, quase metade da força de trabalho nacional - não se pode desprezar a força de consumo de quem não possui trabalho de carteira assinada.

Na outra ponta estão pessoas como Márcia Nascimento e Dona Ana – como gosta de ser chamada -, que costumam comprar fiado sempre que sobra "mês no final do salário", o que acontece quase sempre na periferia. Boas pagadoras, elas separam o dinheiro para pagar as contas assim que recebem no início de cada mês. Ficam sem dinheiro, mas não sem a continha na taberna.

“Quase todo mês preciso comprar fiado, a aposentadoria não dá pra nada né meu filho. Mas a primeira coisa que faço quando recebo é pagar as continhas, isso não falha”, diz dona Ana.

Quer saber mais sobre o fiado e a periferia? Veja aqui!

“FOI O DEMÔNIO QUE INVENTOU”

Mas há quem não venda fiado “nem a pau”. Aliás, é comum ver em alguns estabelecimentos, algum cartaz bem-humorado indicando: “Fiado só amanhã” ou “Fiado só quando este olho piscar”. Principalmente para comerciantes que já tiveram o trauma de levar um calote, só a palavra “fiado” já dá dor de cabeça.

“Ninguém sabe quem inventou o fiado, acho que foi o demônio, mas sempre teve uma proporção de desvantagem pra nós, porque a pessoa na sua necessidade vai buscar o fiado sem ter como pagar depois. Tem pessoas de bom caráter que realmente costumam pagar seus fiados, mas tem muitos de má índole, que se aproveitam dessa modalidade pra comprar sem pagar. Eu já levei muito calote, e isso gera problema, muita confusão e até morte. Fiado não é legal pra ninguém. Hoje trabalhamos com cartão de crédito e só, o fiado representa 0,5% hoje na minha empresa, e quero zerar esse número. Eu vendo fiado, mas pra grandes empresas, que sei que vai pagar. Hoje mesmo veio um caloteiro aqui, e eu vou ter que aceitar em fruta, porque ele não tem dinheiro pra pagar. Fiado é sinônimo de calote”, diz Carlos Barreto, mais conhecido como “Buchecha”, dono de um açougue no bairro da Maracacuera, em Icoaraci.

Na mistura da periferia, sempre vai existir a divergência sobre o fiado, mas o certo é que ela é uma espécie de “azeite” da economia destes lugares. Sem o fiado, como diz Aldenir, não dá. E não é porque o comerciante é bondoso, mas sim porque ter um cartão de crédito na periferia é coisa de gente privilegiada. São poucos e alguns ainda “emprestam” cartões para amigos, aquele “quebra galho”. Aqui, a palavra ainda é o que vale, mais do que no SPC ou no Serasa.

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