O Ministério da Saúde divulgou, recentemente, um guia contendo orientações para o manejo de corpos no contexto da Covid-19. O protocolo traz várias recomendações de como deve ser feito o manuseio de cadáveres, em hospitais, empresas funerárias e cemitérios. A cerimônia de sepultamento deve ser sempre realizada em lugares abertos, com o caixão fechado. Além disso, estão suspensos os velórios. No Pará, houve um aumento da demanda dos cemitérios públicos, além da repetição de cenas tristes envolvendo familiares e amigos dos mortos. Além disso, coveiros dizem estar trabalhando com equipamentos inadequados.
No cemitério Santa Izabel, localizado no bairro do Guamá, em Belém, funcionários contaram que houve um aumento na demanda de sepultamentos nos últimos dias. E que a grande maioria, foram de pessoas que morreram vítimas ou suspeita de ter contraído o novo vírus. Trabalhando há pelo menos 20 anos como coveiro, Eduardo, como se apresentou unicamente, disse que jamais viu algo parecido. Segundo ele, só na manhã desse último sábado (25), foram feitos dez enterros pela equipe que estava de plantão.
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Neste mesmo local, uma cena forte chamava atenção. Sem espaços entre as sepulturas existentes para que um caixão pudesse ser levado tranquilamente até a cova destinada, familiares de um morto tiveram que, por conta própria, carregar o caixão com o corpo do parente. Subindo, descendo e escorando-se em jazigos próximos. Foi preciso aproximadamente 40 minutos para concluir o enterro.
Perguntados sobre os Equipamentos de Proteção Individuais (EPIs), que também estão listados como essenciais, os coveiros disseram que têm recebido os materiais, mas que os mesmos, além de ser de pouca qualidade, atrapalham durante a execução das tarefas. “Às vezes, precisamos entrar em algumas urnas, e lá dentro o calor é quase insuportável! Não tem condições de trabalhar com essa vestimenta feita”, disseram.
MARAMBAIA
Já no cemitério de São Jorge, na Marambaia, os trabalhadores relatavam que tinham receio na hora de manusear os corpos, pois estavam em falta alguns itens importantes de EPIs para que pudessem trabalhar de forma segura. “Eles mandam apenas umas máscaras que ficam encharcadas de suor muito rápido, e acaba dificultando nossa respiração. Sem contar que precisamos ficar lavando para poder reutilizar”, disse um dos funcionários.
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No momento em que a equipe de reportagem permaneceu no lugar, foi possível acompanhar dois sepultamentos. Nesses casos, os familiares das pessoas enterradas relataram que eles teriam apresentado todos os sintomas da Covid-19, e morreram após ficarem internados por sete dias em hospitais. “O momento já é de muita tristeza pra gente que perdeu uma pessoa muito amada por todos e que lutou muito pela vida. Nós fizemos de tudo, mas infelizmente não foi possível salvá-lo”, disse o neto de um senhor de 70 anos, que tinha acabado de ser enterrado, mas que não pôde receber completamente as devidas homenagens.
Passava um pouco mais das 17h quando a reportagem do DIÁRIO chegou ao cemitério do Tapanã. O local estava tranquilo, e sem nenhuma cerimônia de sepultamento sendo realizada, totalmente diferente na manhã daquele mesmo dia, informaram alguns funcionários que conversaram rapidamente com nossa equipe. Segundo eles, foi preciso organizar uma fila para aguardar a vez de cada enterro, mas que cada cova estava sendo aberta de acordo com a demanda que chegava. Indagados sobre a proteção durante o trabalho, os mesmo disseram que estavam tomando todos os cuidados e usando os equipamentos de segurança disponibilizados.


De todos os flagrantes de sepultamentos registrados naquela tarde, apenas um seguiu o protocolo de segurança do ministério da saúde. Nos demais cerimoniais, as pessoas corriam risco ao tocar nas superfícies do caixão ou tiveram o limite máximo de pessoas presentes estipuladas pelo ministério extrapolado. De acordo com o órgão, a quantidade de pessoas permitidas nos locais é de, no máximo, dez pessoas, respeitando a distância social mínima de, pelo menos, dois metros entre elas.
Enterros podem chegar a 15 por dia
A Secretaria Municipal de Urbanismo (Seurb), que administra dois dos cemitérios citados na matéria também enviou dados sobre os sepultamentos ocorridos nesse mês. Segundo a nota, no cemitério Santa Izabel, entre os dias 01 e 21 de abril, foram feitos 31 sepultamentos, dentre casos confirmados e suspeitos de Covid-19. Já no São Jorge, no mesmo período, foram 8 sepultamentos de casos confirmados de coronavírus. E que a média de sepultamentos diários passou de 3 a 4, no São Jorge, e de oito, no Santa Izabel, para a faixa de 12 a 15 por dia, em cada cemitério.
No cemitério do Tapanã que é administrado pela Agência Distrital de Icoaraci, a média era de 7 a 9 sepultamentos, diariamente. Mas que já houve o registro de 16, em um único dia. A prefeitura de Belém lembra ainda que para fazer novos sepultamentos nos cemitérios de Santa Izabel e São Jorge, é necessário que a família já tenha sepulturas nesses locais. Se não tiver, o sepultamento é direcionado ao cemitério do Tapanã, e que existem ainda, os cemitérios dos distritos de Outeiro, Mosqueiro e na ilha de Cotijuba, aptos para sepultamentos dos casos de Covid-19.
Resposta - Prefeitura
A Prefeitura de Belém informou que montou um comitê, composto de várias secretarias, para elaborar um plano visando atender todas as recomendações dos órgãos competentes, em relação a sepultamentos de vítimas de Covid-19. Em relação à presença da família nos sepultamentos, a Seurb disse que está sendo orientado que permaneça até 10 pessoas, com o devido distanciamento entre elas. E que todas devem usar máscaras. “Dentre as medidas, o uso de EPI especial pelos coveiros quando é sepultamento de vítima do vírus”, informou.
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