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DESAFIOS

Como casais lidam com o isolamento em tempos de pandemia

As mudanças provocadas pela pandemia estão tendo reflexos não apenas na saúde e na economia. Também chega nos casais. Se antes, por conta da rotina corrida, havia pouco tempo para se ver, conversar e estar junto, nas últimas semanas, isso passou a ser obr

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Imagem ilustrativa da notícia Como casais lidam com o isolamento em tempos de pandemia camera Os advogados Isabelle Mesquita e Brahim Bitar ainda podem ser chamados de recém-casados. Eles não chegaram nem às chamadas “bodas de algodão” quando se comemora dois anos de união. | Irene Almeida

As mudanças provocadas pela pandemia estão tendo reflexos não apenas na saúde e na economia. Também chega nos casais. Se antes, por conta da rotina corrida, havia pouco tempo para se ver, conversar e estar junto, nas últimas semanas, isso passou a ser obrigatório. E essa situação, em alguns casos, tem sido uma porta aberta para o conflito, mas também para o fortalecimento da união.

Juntos há 22 anos, o casal formado pela esteticista Danielle Rocha e pelo analista de TI Rogerio Silva está há quase dois meses em isolamento social, juntamente com o filho Renato, de 24 anos. Ela precisou fechar o espaço onde faz atendimentos, por conta da pandemia, e ele continua a trabalhar, mas remotamente.

Danielle Rocha e Rogerio Silva
📷 Danielle Rocha e Rogerio Silva |Arquivo Pessoal

A nova realidade exigiu do casal uma readaptação, já que como os dois trabalhavam bastante antes da pandemia, cada um em seu local, agora todas as tarefas têm se resumido a casa do casal e vêm sendo partilhadas. “Nessa quarentena estamos limpando a casa, fazendo atividade física, cuidando da alimentação, vendo filmes, séries e assistindo a lives e ele está em home office”, resume ela.

A rotina do casal agora também inclui os cuidados com as saídas necessárias. “Estamos evitando ao máximo sair, somente pra comprar medicação e alimentos. Quando isso ocorre, optamos por sair apenas uma pessoa, de máscara e tomando os cuidados com a higiene tanto pessoal quanto da casa”, explica.

Para ela, a convivência de mais de duas décadas juntos ajuda a lidar melhor com esse período. “Devido estarmos juntos há muitos anos, um já consegue entender e respeitar o momento de querer, às vezes, ficar sozinho e quieto no seu canto, já que isso é normal de todo ser humano. Procuramos sempre respeitar essa questão”.

Mesmo assim, de vez em quando o estresse bate. “Às vezes acontece sim. Não dá pra ser 100% tranquila numa situação como essa. Mas até que estamos passando sem tantos”, diz.

MUDANÇA

A auxiliar de logística Layse Aires e o coordenador de Recursos Humanos, Karson Lobato estão juntos há sete anos e têm um filho de quatro. Os três estão em isolamento social há quase dois meses e viram suas rotinas mudarem bastante nesse período.

“Antes da pandemia, o meu marido trabalhava praticamente o dia inteiro e eu também. Nos víamos mais no final da tarde ou início da noite, quando ambos chegavam em casa. Agora, por conta do coronavírus, estamos trabalhando a maior parte do tempo em casa e ficando muito mais tempo juntos”, conta Layse.

Para organizar a nova rotina do casal e do filho, algumas coisas precisaram ser readaptadas. “Como antes já não tínhamos uma pessoa para ajudar sempre nas tarefas domésticas, apenas uma diarista, de certo modo já havia uma divisão dessas tarefas. Eu fico mais com a parte da comida e da roupa, enquanto ele fica com a parte de varrer a casa, lavar a louça e fazer a arrumação, porque em casa com criança pequena tem sempre alguma coisa para arrumar. Fora isso, também oriento o nosso filho nas tarefas da escola”, diz a auxiliar de logística.

Layse Aires, Karson Lobato, junto com o filho
📷 Layse Aires, Karson Lobato, junto com o filho |Irene Almeida

Para se divertirem, segundo ela, o casal costuma jogar no vídeo game, assistir a lives e ficar no aplicativo tik tok. Mas como não poderia deixar de ser, uma vez ou outra surge um estresse e, para contornar, a solução encontrada pelo casal é o diálogo. “Às vezes, as ideias de um não batem com a do outro, o que é muito natural na vida de um casal. Nessas horas procuramos ficar um pouco em ambientes diferentes e depois sentar e conversar”, diz a esposa.

Ela afirma ainda que o início do isolamento foi um pouco difícil para o casal, mas quando os dias foram se passando, tudo foi melhorando. “Essa é uma situação bem desafiadora. Por isso, procuramos sempre conversar bastante e hoje já estamos sabendo lidar melhor com todas essas mudanças, e esse tempo está sendo importante para repensar a nossa rotina quando ela voltar ao normal e para rever algumas situações, especialmente quanto ao desperdício de tempo com coisas não importantes”, avalia.

Para Karson, alguns fatores anteriores ajudaram a manter a harmonia do casal no isolamento. “Sempre fomos bastante caseiros, especialmente depois que o nosso filho nasceu. Então isso de certa forma ajuda a manter esse isolamento”, diz.

Ele destaca ainda o fato dos dois conseguirem manter uma individualidade. “Temos aqueles momentos em que cada um fica no seu espaço, fazendo as suas coisas, as coisas que gosta de fazer sozinho, sem problema nenhuma”, conta.

“Agora passamos praticamente 24h juntos”

Antes da pandemia, cada um mantinha uma rotina de trabalho em escritórios diferentes. O café da manhã e a academia eram juntos. Mas, nem sempre era possível se encontrar para almoçar e o reencontro ficava para depois do expediente. Mas, há quase dois meses, isso mudou bastante. “Agora passamos praticamente 24h juntos. Estamos trabalhando em casa e durante esse tempo de isolamento só saímos no máximo umas três vezes para ir ao supermercado. De resto, temos ficado direto em casa”, conta Brahim.

Ele diz que no caso das tarefas domésticas não houve uma separação ou uma conversa prévia. “O que há é uma distribuição dessas tarefas entre nós que passou a ocorrer naturalmente depois que tivemos que dispensar a nossa diarista por conta da pandemia”, explica.

A esposa conta que antes de casar, os dois namoraram por dez anos, o que de certa forma ajudou bastante na interação. “E antes mesmo de namorarmos, nós fomos melhores amigos. Isso ajuda sim, mas o que estamos vivendo agora é bem diferente porque, mesmo que antes viajássemos bastante juntos, tivéssemos aquela convivência mais próxima em hotéis, hoje é diferente, nunca tínhamos tido uma convivência tão intensa quanto agora. Mas graças a Deus está dando tudo certo”, compara.

Os momentos de lazer agora ficam por conta dos filmes e séries que o casal assiste junto. “Temos gostos parecidos então essa parte fica mais fácil. Mas também temos os nossos momentos em que cada um fica para o seu lado fazendo o que mais gosta. Eu, por exemplo, gosto muito de ler. Ele já curte vídeos no youtube, livros voltados para a área em que trabalhamos. Então, temos o momento de ficar juntos, mas também temos momentos de cada um faz o que mais gosta sozinho”, diz a advogada.

Ela acredita que o fato dos dois não terem filhos nesse momento ajuda. “Acho que isso acabaria sendo um pouco mais complicado nesse período. Mas depois que isso passar, mais lá na frente, queremos sim ter nossos filhos”, destaca.

Vez por outra, ela conta que surge algum conflito, “mas são raros”. “Eu sou mais ansiosa, gosto de acordar e já sair fazendo tudo. Ele tem um outro tempo. Gosta de fazer as coisas com mais calma. Por isso, às vezes surge um conflito, mas que sempre resolvemos conversando e aprendendo a respeitar o tempo de cada um”.

Maturidade emocional, resiliência e disposição para se reinventar

A psicóloga clínica Flavia Vieira avalia que esse período de isolamento social requer de fato uma nova postura dos casais. “Esse período convida os casais a se olharem, a entrarem em contato um com o outro. E é importante ressaltar que, nesse momento, os conflitos anteriores tendem a se intensificar, pelo fato do casal estar passando um tempo maior junto, porque agora não dá mais para minimizá-los”.

A melhor forma de encarar esse período, segundo ela, é inserindo novos conceitos na relação. “Esse momento exige maturidade emocional, resiliência e disposição para se reinventar em meio a esse novo contexto em que estão inseridos, procurando levar criatividade e leveza a rotina, além do diálogo”.

Flavia Vieira , psicóloga clínica
📷 Flavia Vieira , psicóloga clínica |Arquivo Pessoal

Para ela, é importante ressignificar o relacionamento, dar um novo olhar para ele. “É uma situação estressante. Por isso, é fundamental que cada um tenha um tempo só para si e que essa privacidade seja respeitada pelo outro”.

Esse momento sozinho pode ser enriquecedor. “Cada pessoa precisa saber lidar primeiro consigo mesma para depois saber como ligar com o outro”, explica. Para saber lidar com os conflitos, segundo a profissional, o melhor caminho é a conversa franca. “Ajustar as questões domésticas para que ninguém fique sobrecarregado, o home office e alternar com atividades prazerosas para o casal, porque isso vai promover a sensação de bem-estar e vai trazer leveza para esse momento que é de tensão. Ver filme, ouvir música, resgatar aquelas questões que faziam sentido no início do relacionamento também são alternativas”.

DISCIPLINA

Mesmo com a tendência ao conflito, o isolamento social também pode ajudar a melhorar a relação. “É possível nesse momento haver um resgate dos laços afetivos pelo fato do casal acabar ficando mais junto, sem aquela rotina anterior de cumprimento excessivo de horários. Isso pode ajudar sim a resgatar esses laços afetivos e favorecer a união”.

Ela lembra que se pode atravessar esse momento e se manter mais unido. “A minha mensagem é sempre de esperança de que, com a colaboração mútua e diálogo, podemos desenvolver resiliência para passar por esse período com mais sabedoria e perceber o que realmente importa”.

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