Ao cruzar a porta de saída do hospital em que esteve internado por 14 dias, a mão imediatamente levantada em direção ao céu é o principal símbolo do sentimento de gratidão vivenciado por quem conseguiu vencer a Covid-19. Sob os aplausos dos profissionais de saúde responsáveis por todo o cuidado recebido, o autônomo José Silva Duarte, 59 anos, não escondia a emoção por poder voltar para casa após estar recuperado da doença que tanto tem preocupado o mundo inteiro. “É um novo nascimento. É inexplicável”, tentou descrever, ainda muito emocionado.
O tão esperado dia da alta chegou a José Silva Duarte e a outros pacientes na última segunda-feira (18) no hospital de campanha montado no Hangar, em Belém. Em meio à manutenção do cuidado aos demais pacientes que continuam em recuperação contra o vírus, a explosão de alegria em forma de aplausos se repetia, uma após a outra, ecoando em forma de esperança para os familiares que aguardavam do lado de fora do Hangar pelo momento da videochamada que os aproximariam dos parentes internados.
Minutos antes da saída emocionada do autônomo José Silva, foi a aposentada Maria de Belém Vasconcelos de Miranda, 68 anos, quem experimentou a sensação de estar recuperada da Covid-19. Segurando uma plaquinha nas mãos, ela seguiu pelo corredor formado por enfermeiros e médicos ao encontro da filha que já não via há cinco dias, desde que foi levada ao hospital com uma intensa falta de ar. Conseguindo respirar novamente sem a ajuda do balão de oxigênio, ela resumiu em uma frase a emoção sentida. “Ninguém pode imaginar que felicidade estou sentido. Isso é vida novamente”, emocionou-se, ao contar no que mais pensava durante os dias em que ficou internada. “Rever a minha família, os meus netos. Agora o que eu mais quero é aproveitar a minha família”.
Sem conter as lágrimas de alegria por ver a mãe recuperada, a consultora de vendas Márcia Teixeira, 45 anos, conta que estava a caminho do Hangar, na manhã de segunda-feira, quando recebeu a ligação do hospital informando que, naquele dia, ela poderia voltar para casa já com a mãe do lado. Pouco tempo antes do encontro, ela aguardava pela chamada da alta e aproveitava para contar aos demais familiares a boa notícia. “Não tinha maneira melhor de começar essa semana”, sorria. “A sensação é de vitória não somente pela idade dela, mas por todo o trabalho que tem sido feito aqui. Eu vinha para cá todos os dias e vi muita gente sair daqui curada”.

Márcia lembra que, no início, a mãe Maria de Belém não queria ser levada ao hospital. Diante do agravamento do quadro de saúde da idosa e do surgimento da falta de ar, porém, a família não teve dúvidas do que deveriam fazer. Hoje, com a notícia da recuperação da mãe, Márcia agradece pela rápida decisão tomada pela família. “Desde que deixamos ela aqui, coloquei toda a minha expectativa positiva de que ela iria ficar boa. Ela foi atendida por dois médicos cubanos e foi muito bem tratada por eles e por todos os enfermeiros e técnicos. A gente via que ela estava progredindo”, conta. “Eu estou emocionada demais. É uma coisa muito forte saber que a minha mãe vai poder voltar para casa com vida”.
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A força da superação de uma doença ainda pouco conhecida e arriscada gerou efeitos para além da saúde física em Raimundo Nonato, 61 anos. Após passar 12 dias internado no Hangar, Raimundo recebeu alta no dia 02 de maio e continua se recuperando em casa. Para ele, a experiência vivenciada significou um verdadeiro renascimento. “A gente valoriza mais a fé porque não é nada fácil passar por tudo isso. Para mim, tudo isso serviu para eu valorizar mais a vida e cada instante que se tem”, conta. “Eu cheguei no Hangar muito debilitado, mas graças a Deus e aos profissionais que cuidaram de mim, eu passei 12 dias lá e consegui sair com vida, isso é o mais importante”.

Os efeitos da recuperação refletiram não apenas na vida de Raimundo, mas também na de sua filha, a cozinheira Tayane Santos, 30 anos. Durante os dias em que o pai esteve internado, a jovem se dirigia até a tenda montada na entrada do hospital de campanha para abrigar os familiares que aguardam por informações dos pacientes e foi ali mesmo que Tayane teve a ideia de ajudar aos que, assim como ela, passavam pela aflição de ter um ente querido doente. “A ideia surgiu aqui na tenda mesmo. Eu comecei a distribuir suco e sanduíche para quem estava aguardando para ter informações”.
Mesmo após a alta de Raimundo, Tayane continua se dirigindo até o Hangar diariamente para agradecer, à sua maneira, a bênção de ver o pai recuperado. “Quando o meu pai chegou aqui estava com 75% do pulmão comprometido. É um milagre ele ter sobrevivido e eu sou muito grata. Por isso permaneço aqui”, afirma. “Quando meu pai teve alta, às 20h de uma quinta-feira, ele me disse uma frase que nunca vou esquecer: ‘aqui acaba a vaidade do ser humano’. É como um renascimento mesmo, uma nova forma de olhar a vida”.
EXPECTATIVA

Para quem vivencia a expectativa de ver o próprio familiar recuperado, os relatos das vitórias já alcançadas no hospital são alimento. Por cerca de 20 dias, a cabeleireira Potira Malato, 48 anos, viveu a angústia de ver a mãe Maria Malato, de 73 anos, internada. Em meio à espera, a amizade formada com outros familiares que, assim como ela, aguardavam por boas notícias lhe deram força. “E a gente mesmo acaba formando uma amizade com as pessoas que estão aqui fora”, considerou, na ocasião. Toda a expectativa de Potira se concretizou na última terça-feira (19), quando a mãe recebeu alta do Hangar. Já em casa e mantendo o repouso recomendado pelos médicos, a idosa se recupera, agora, ao lado da família. “É muito bom saber que ela superou tudo isso, pela idade que ela está e pelo tempo que ela ficou internada”, considera a filha. “Agora ela continua fazendo a medicação e em repouso. Mas só de ela estar bem e em casa é maravilhoso”.
A recuperação de quem está habituado a cuidar
Para o enfermeiro Ivison Carvalho, 38, a relação com a alta médica estava quase sempre relacionada à recuperação de muitos dos pacientes que ele ajudava a tratar. No dia 19 de abril deste ano, porém, o jovem, tão habituado a cuidar, se viu na condição de paciente acometido pela Covid-19. Foram 15 dias de cuidado e carinho na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e na enfermaria do hospital onde ele trabalha, a Fundação Santa Casa de Misericórdia do Pará, até que ele recebesse alta e retornasse ao abraço da família.


Ivison lembra que o primeiro sintoma sentido por ele foi um pouco de coriza. Com o decorrer dos dias, porém, ele viu o organismo ficar mais debilitado e, após uma tomografia do tórax, foi identificada uma pequena lesão no pulmão muito característica da Covid-19. Afastado do trabalho, recebeu um esquema terapêutico para fazer em casa, mas, com o passar dos dias, percebeu que não estava conseguindo melhorar apenas com as medicações.
“Eu tinha febre todos os dias, o dia inteiro, e o mal-estar respiratório foi piorando. No domingo, dia 23, eu tive quadro de falta de ar muito grande e confusão mental”, lembra. “Foi quando a minha esposa me levou para o hospital e na segunda tomografia do tórax que eu fiz, já apareceram lesões extensas, afetando mais de 60% dos dois pulmões”.
O tratamento inicial de Ivison se deu na enfermaria, mas ele conta que logo foi identificada a necessidade de ser internado na UTI. Para ele, este foi o momento mais difícil de todo o tratamento. “Eu passei a receber a medicação na veia e tive uma pequena melhora, mas ainda tinha muita febre. Ao longo da semana eu não melhorei o suficiente e o quadro de falta de ar piorou significativamente. Eu fiz uma saturação de 85%, quando o normal é ficar entre 92% e 100%, então me internaram na UTI”, conta.
SENSAÇÃO
“A sensação é de desespero, desesperança, porque a gente vê muitas histórias difíceis. Você nunca acredita que isso possa acontecer com você, então você reluta a aceitar. A minha esposa ajudou muito nesse período, me conduziu ao hospital e me induziu a fazer o tratamento”.
Também enfermeira, a esposa de Ivison coordena a UTI na qual ele ficou internado e pôde acompanhar de perto a recuperação do esposo. Como ele mesmo já havia trabalhado naquela UTI, Ivison lembra que outras questões também passaram pela sua cabeça no momento da internação.
“Entrei em pânico de ir para a UTI, lá você pode ser sedado, entubado, as pessoas que você conhece vão entrar na sua intimidade, te dar banho no leito. Então a gente fica inseguro, mas quando a gente se joga no tratamento, percebe que o mais importante é cuidar de si e que aquilo tudo é secundário”, acredita. “Eu sou enfermeiro do hospital desde 2005, são 17 anos de trabalho na Santa Casa e eu nunca fora internado na minha vida. A gente sente a impotência de não poder fazer nada e tem que acreditar nas pessoas que estão ali. A cumplicidade com a equipe foi muito importante na minha internação”.
Devido ao quadro respiratório, Ivison conta que tinha a indicação de ser entubado, porém, os médicos avaliaram que seria possível investir na ventilação externa, não invasiva, procedimento parecido com a entubação, mas feito através de uma máscara facial. No total, o enfermeiro passou dois dos quatro dias de internação na UTI em ventilação externa e mais três dias de recuperação na enfermaria. A alta veio no dia 9 de maio, véspera do Dia das Mães, para que ele pudesse finalizar o tratamento em casa.
Cuidados que fazem toda a diferença
Vencida a difícil batalha contra o coronavírus, ele conta o que mudou na sua percepção do mundo. “O amor que eu senti vindo das pessoas, o amor e o afeto deles cuidando de mim foi o que me trouxe de volta para poder abraçar a minha mulher e os meus filhos”, aponta. “Tudo isso ganha um novo significado depois dessa experiência”.
Certo de que o cuidado dispensado pelos profissionais de saúde não apenas a ele, mas a todos os pacientes, fazem total diferença para o resultado positivo, Ivison conta que a possibilidade de enxergar a profissão por outro ângulo, desta vez como paciente, lhe trouxe muitas reflexões. “Na UTI, a cada 10 a 20 minutos tem alguém falando contigo, verificando alguma coisa em você e ajuda muito estar ali vendo aquela equipe do seu lado”, recorda. “Enquanto estava internado, ficava refletindo sobre o que seria do país sem a classe trabalhadora em saúde e o que o país tem feito por ela”.
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