Após mais de dois meses em isolamento social, servidores do Estado, com exceção dos que estão no grupo de risco para a Covid-19, retomam suas atividades presenciais nos diversos órgãos nesta segunda-feira (1º). O retorno gradual, em acordo com as recomendações dos órgãos de saúde para evitar contaminação pelo novo coronavírus, é um momento especial de recomeço, após o pico da pandemia ser atingido no Pará, mas que pode causar apreensão e medo para muitos. E isso não se restringe apenas aos funcionários públicos, mas a qualquer trabalhador que tenha voltado ou esteja prestes a voltar às suas funções.
Quem faz parte de serviços essenciais, como a saúde, nem sequer parou ou só o fez pelo risco de contrair ou ter sido diagnosticado com a doença. Foi o que aconteceu com a assistente administrativa Luiza Pamplona. Funcionária de um hospital, ela conta que precisou ficar 29 dias afastada de suas atividades depois de apresentar os sintomas de Covid-19 e voltou há poucos dias ao hospital.
“Eu só não voltei com roupa de astronauta. Moro com meu pai, de 83 anos. Meu medo era de sair do isolamento e trazer a doença para ele, que é hipertenso. Em casa a gente não fica no mesmo ambiente”, conta. “Eu chego no trabalho com álcool em gel, vou passando em tudo, botei filme PVC no teclado do computador, levo minha comida para não ter que ir ao refeitório e quando volto para casa tomo todos os cuidados recomendados pelos órgãos de saúde”, afirma Luiza.
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A assistente administrativa se diz ciente da necessidade de voltar ao trabalho. “Também preciso pagar minhas contas”, observa, além de garantir que encontrou na religião um refúgio para ter saúde mental. “Assisto muito os canais católicos, rezo, tenho muita fé em Deus. Isso tem me ajudado muito”, conta ela que, apesar do medo e ansiedade, não chegou a precisar de auxílio psicológico.
Para quem está na mesma situação ou prestes a voltar, a psicóloga Joelma Martins pontua que sentir medo e ansiedade, diante de uma situação real, que é o perigo do novo coronavírus, é uma situação natural para o ser humano. “O imaginário se pergunta: ‘será que tem algum colega contaminado? A empresa está fazendo a higienização correta? Isso pode causar medo, insônia. É normal pela questão da integridade física, alguns lugares tiveram perdas de pessoas”, lembra.
Atenção
Contudo, Joelma garante que a situação exige atenção quando se torna uma fobia patológica. “Você pode adquirir o que a gente chama de ergofobia, que é o medo de trabalhar. Não é que eu não goste de trabalhar, mas o medo me paralisa. Medo e ansiedade fazem parte do ser humano, mas quando passa a ser frequente vira patológico”.

O problema deve ser enfrentado em conjunto com a empresa, sugere a especialista. “É preciso se cuidar, mantendo o protocolo das autoridades de saúde. Usar álcool em gel, máscara, evitar contato próximo com as pessoas. É uma questão de segurança para você conseguir trabalhar”, diz. “A empresa também precisa dar esse suporte, seguir os protocolos, fazer campanhas educativas, dar essa segurança ao funcionário”.
Além disso, um exercício simples e de graça também contribui para que o trabalhador, ou qualquer outra pessoa com medo e ansiedade relaxe. “Precisamos respirar. É o nosso relaxante natural. Quanto mais oxigenação, menos adrenalina”, sugere a psicóloga, que faz outra recomendação. “Reconheça seus medos. Quando você faz isso, procura ajuda, conversa com alguém de sua confiança, que você goste, isso vai trazer mais segurança”.
Joelma destaca a importância de manter hábitos saudáveis, como uma atividade física, boa alimentação e outra atividade lúdica. “Anote seus medos em um papel e depois decida o que vai fazer com ele, se vai queimar, jogar fora... Não guarde. Controle seus sentimentos. Ansiedade é excesso de futuro”, chama a atenção. “Precisamos viver um dia de cada vez, o medo paralisa”. Em todo caso, a especialista sugere que se faça um checkup emocional com um profissional da área, se for possível.
Entrevista
Para a consultora de Recursos Humanos, Nara d’Oliveira, nem sempre o receio de voltar ao trabalho se justifica. A especialista cita certos comportamentos que se presencia durante a fase de isolamento social e que servem de apoio para essa tese. Confira a entrevista!

Como retornar ao trabalho?
Nós vamos ter um novo normal. Um normal diferente. Nós não vamos retomar do ponto onde nós estávamos no final de janeiro pelos próximos 12 meses, 18 meses. As pessoas vão continuar tendo que cuidar da sua saúde, vão continuar tendo que usar máscara, vão ter que continuar sem contato físico, vão continuar tendo que cumprir as atividades essenciais da vida de um ser humano. Comprar suplementos para sua casa e trabalhar, essas são as atividades essenciais.
O que mais vai mudar?
Nós não podemos usar brincos, colares. Eu vou entrar na empresa com sapato diferente do que eu saí em casa. Eu vou voltar para casa e vou ter que lavar toda a minha roupa, tomar banho. Botar a bolsa no saco, esterilizar a bolsa. Não vou sair de casa para reunião de amigos, aniversários porque eu vou me expor.
E o temor de muitos em voltar ao trabalho?
Acontece que muitos brasileiros têm uma relação perversa com trabalho. Então ele não está trabalhando, mas ele está fazendo churrasco no final de semana, em casa. Ele está saindo para ir na casa do amigo, na casa da namorada. Ele está participando de eventos pequenos. Isso ele pode fazer, mas trabalhar é um risco? Essa é a cultura de trabalho. É uma coisa histórica. Foi forjada desde a chegada da família real ao Brasil. Os amigos do rei não trabalhavam. Era feio trabalhar. Trabalhava quem não tinha o que comer, quem precisava. Em pleno ‘lockdown’ muitas pessoas postavam que estavam em churrascos na sua casa, mas não saem para trabalhar. Então essas pessoas têm medo de trabalhar?
Seria desinformação?
Depois de dois meses e meio de pandemia, as pessoas saíram da obscuridade quanto às informações sobre o vírus. Elas já sabem o que precisam fazer para se proteger. Por que então que algumas pessoas têm medo? Então, na verdade, não é medo. Ou essas pessoas ainda têm dúvidas de como se proteger ou elas têm dúvida de que a empresa vai cuidar da segurança delas ou, na verdade, algumas estão aproveitando esse momento para simplesmente não ir ao trabalho, ficar em casa e fazer outras coisas.
Fale mais sobre isso...
Então o lance não é o medo do deslocamento para o trabalho. É a relação que se tem com trabalho, sobretudo em alguns estados do Brasil, incluindo muitos estados do Norte e a falta de comunicação ampliada das empresas. Em momentos de restrição, de crise, delicados, a comunicação tem que ser em quantidade e valer a pena. O que você tem que fazer para preservar a sua saúde, se preservar, como que você se protege no caminho do trabalho para casa, como você se protege dentro da empresa... Só com gestores próximos às suas equipes é que você consegue atenuar alguns impactos e tratar alguns problemas.
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