O assassinato de George Floyd por um policial branco nos Estados Unidos despertou uma onda de protestos contra o racismo não apenas no país norte-americano, como em outros países do mundo. No Brasil, a morte de jovens negros - como a de João Pedro Matos Pinto, de 14 anos, morto a tiros enquanto brincava dentro de casa, no Rio de Janeiro – deixa evidente que o risco de morte sofrido pela população negra também é maior aqui. Para quem vivencia os efeitos do racismo em todos os aspectos das relações sociais, o que reverbera no cenário atual é a urgência em se tratar o combate ao racismo com a prioridade que o tema exige.
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Educador social e fundador da Casa Preta – organização comunitária instalada no distrito de Outeiro e que atua no conceito de identidade cultural a partir da educação afro popular e da capacitação profissionalizante -, Anderson Ferreira, 40, aponta que o racismo sempre preocupou quem é afetado por ele. No cenário atual, porém, o que lhe preocupa em especial é a dificuldade de o Brasil colocar a pauta sobre o racismo no topo das discussões.

“O Brasil é formado por 54% da população que é negra. Não faz sentido a gente não discutir a pauta do racismo, se somos a maioria no país e a minoria em tudo, no poder público, nos órgãos de competência”, relaciona. “Infelizmente existe uma falha de não colocarem o racismo como pauta principal dos debates que a gente tem hoje no país”.
Anderson acredita que o cenário das manifestações antirracistas que vem se desenrolando nos Estados Unidos a partir da morte de George Floyd reverbera também no Brasil, porém, ele acredita que o debate anda precisa amadurecer nacionalmente.
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“O fato dos pretos e pretas americanos irem para as ruas e terem essa pauta do combate ao racismo como pauta principal reverbera aqui no Brasil, sim, só que aqui a gente ainda é muito imaturo, racialmente falando, então a gente pega essa pauta racial que o mundo inteiro está olhando e a gente diminui isso colocando em segundo plano e colocando o fascismo como a nossa principal guerrilha aqui”.
Também para a cantora, compositora e estudante de jornalismo Julliana Matemba, 21, o debate acerca do racismo ainda é muito secundarizado no Brasil. Para além de uma indignação momentânea, ela destaca que, para as pessoas negras que vivem essa realidade todos os dias, os efeitos do racismo estão sempre presentes. “Já faz 400 anos que o povo negro sofre essa opressão, então está mais do que na hora da sociedade saber o que é racismo”.

Ela acredita que a luta antirracista passa pela busca por conhecimento. “Esse é o papel da pessoa não negra no combate ao racismo. É estudando mais sobre o racismo estrutural e sobre opressões que elas conseguem ajudar a nossa luta. E também escutar, não silenciar. Quando a gente fala muitas vezes somos silenciados porque muitas pessoas brancas não aceitam os seus privilégios”.
ESPAÇO
Uma discussão mais efetiva acerca do racimo no Brasil passa, na opinião da artista visual e arte educadora Thays Chaves, 22, por mais espaço e atenção ao que a população negra tem a falar. “Temos discutido bastante sobre racismo, mesmo assim essa discussão não chega nem na metade do que é necessário, isso porque não temos espaços suficientes para nossas vozes serem ouvidas ou lidas, para essas discussões chegarem onde é preciso. E esses espaços não são disponibilizados justamente por causa da manutenção do racismo”, contextualiza. “Desmistificar a história do racismo no Brasil é urgente, e isso só vai acontecer a partir do momento que tivermos espaços para falar sobre isso”.
Thays aponta que tem sido angustiante e, ao mesmo tempo, revoltante acompanhar tudo o que vem ocorrendo no país, a exemplo da realização de uma manifestação com elementos alusivos à Ku Klux Klan organizada em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF), em Brasília, no último dia 30.
“É revoltante ver que uma passeata fascista e racista é organizada no mesmo tempo em que estamos de luto pela morte do João Pedro, que foi assassinado no Rio de Janeiro, e do George Floyd, nos Estados Unidos”, indigna-se. “O movimento antirracista precisa se tornar emergente no Brasil, assim como o movimento antifascista que estamos vendo acontecer nas redes sociais, por exemplo. Temos que encarar o racismo como uma prioridade, pois ele é basicamente a sujeira brasileira que estamos empurrando há séculos para debaixo do tapete”.
Números
75,5% - das vítimas de homicídios no Brasil são negras, segundo o Atlas da Violência de 2019.
“Eu não consigo respirar”
No momento em que o segurança George Floyd disse as últimas palavras abafadas pelo joelho que lhe comprimia o pescoço, durante uma abordagem policial em Minnesota, o que ecoava era não apenas o pedido de socorro pela situação em que se encontrava, mas também o sentimento compartilhado por homens negros e mulheres negras no mundo. Desde o episódio que resultou em mais uma morte de um homem negro por um policial branco, a frase “eu não consigo respirar” tem ecoado em manifestações antirracistas ao redor do mundo.
Professora da Universidade Federal do Pará (UFPA), doutora em antropologia e uma das fundadoras do Centro de Estudos e Defesa do Negro no Pará (Cedenpa), Zélia Amador não deixa esquecer que o racismo sempre esteve presente. Porém, o que ela vê de diferente agora é o sentimento de indignação coletiva. “O racismo sempre esteve presente. O que não esteve presente sempre é a indignação da população em relação ao racismo e, agora, o que a gente está vendo na rua é uma população que não aguenta mais sofrer no cotidiano as agruras do racismo, que não aguenta mais que seu corpo seja tratado como um corpo descartável”.
Zélia destaca que, assim como as palavras ditas por George Floyd, na lida cotidiana as pessoas negras no mundo querem respirar e não podem. “Quando não perdem a vida, as pessoas negras perdem os símbolos, perdem sua cultura, perdem a possibilidade de viver cidadania plena porque o racismo não deixa, impede”, destaca. “Estamos vendo vir à tona as revoltas que estavam engatadas na garganta, que estavam tão engatadas que as pessoas não conseguiam respirar”, diz.
“Não se pode esperar outra coisa a não ser as revoltas que estão acontecendo não são só no Brasil ou nos EUA, mas no mundo. O racismo é uma mazela que mata mundialmente, que acontece cotidianamente em todos os lugares”.
Zélia aponta que, por atravessar todas as relações sociais, o racismo impregna todas as mentalidades. Para que seja combatido, portanto, o caminho passa por uma responsabilização de toda a sociedade. “Eu vejo uma perspectiva: as manifestações, hoje, já não têm só pessoas negras. Tem jovens brancos participando da manifestação, esse é um caminho”, aponta.
“O racismo é uma mazela que afeta a sociedade, faz parte da estrutura da sociedade”, diz. “Então, o racismo não é para ser combatido apenas pelas pessoas negras, que são as vítimas, mas por todos. É uma tarefa de todos que se empenham em transformar a sociedade em uma sociedade justa, de todos que acham que a cidadania plena tem de ser vivida por todos e todas”.
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