O cinema do fim de semana teve de ser substituído por cada um na sua casa vendo o mesmo filme, ou mesmo episódio da série favorita dos dois. O carinho, as mãos dadas estão suspensas por ora, e para driblar a saudade que cresce a cada dia, o jeito é apelar para as incontáveis mensagens e videochamadas. A necessidade do distanciamento social imposto pela pandemia do novo coronavírus acabou afastando fisicamente muitos casais, que tiveram de criar novos hábitos e mesmo uma nova forma de se relacionar. Dentre dificuldades e, de novo, muita saudade, há quem tenha sabido identificar o lado bom de um cenário tão complicado a ponto de ver acontecer um fortalecimento da relação - daquelas coisas que dão força para esperar por e confiar em dias melhores.
Da feita que os primeiros casos foram confirmados no Pará, nada de dormir mais na casa um do outro ou de participar das aulas de dança semanais que faziam parte da rotina do casal. Entre a doutoranda em Genética e Biologia Molecular Mayara Santana, 29, e o bacharel em Direito Nilo Ferraz, 27, não houve nem discussão sobre a necessidade do afastamento imediato, já que a mãe dele é do grupo de risco. E assim, lá se vão mais de dois meses sem se encontrar.
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Há um ano e meio juntos, eles admitem que não é nada fácil cumprir as medidas de segurança. “Claro que essa distância foi muito dolorida. Sinto muita falta da companhia do meu namorado, de vermos séries e filmes agarradinhos ou irmos para pubs aos finais de semana. Acho que agora, sem dúvidas, irei valorizar mais nossos momentos juntos”, admite Mayara, que tenta recriar esses hábitos com Nilo por meio de aplicativos de streaming, como a Netflix. Além dos papos que nunca têm fim, seja por mensagem ou vídeo, os dois gostam se enviar mimos de vez em quando. “Ele adora me enviar doces e para ele eu compro salgadinhos”, diverte-se a jovem.
Como eles nunca passaram datas comemorativas juntos, ficou decidido que o Dia dos Namorados está adiado até segunda ordem e será comemorado propriamente quando eles puderem se ver pessoalmente. “Acho que o isolamento social só veio me mostrar que estou mais apaixonada”, derrete-se ela. O Nilo já tem em mente o programa que farão juntos assim que for possível. “Fazer uma comida gostosa, beber cervejas e passar a noite conversando”, anseia o namorado.
Psicóloga alerta casais para evitar excessos e desgastes
A pandemia é uma situação inusitada para todos exatamente por provocar desafios na convivência de maneira geral. Então passar por isso sozinho, ou como casal, é certamente uma prova de fogo. É sempre bom lembrar que a humanidade já enfrentou momentos assim quando nem se imaginava contar com ferramentas como a internet para auxiliar a comunicação.
A psicóloga clínica Rosário Portella reforça que relacionamentos afetivos são desafiadores com ou sem pandemia, e que solidão não se restringe à ausência física. “A pior solidão, inclusive, é a vivenciada a dois. Não existe receita pronta, os casais sempre precisarão criar códigos próprios. Aquilo que é combinado nunca é caro, já dizia minha avó, então acredito em contratos baseados no respeito e no afeto com possibilidades de repactuação de acordo com as mudanças inerentes à vida”, sugere.
E o que isso tem a ver com o uso da internet para namorar a distância? Bem, absolutamente tudo. Afinal, encontrar maneiras de driblar a falta neste momento exige criatividade e novas possibilidades de reinventar a relação.
“Quem hoje força contato via chamada em vídeo, excesso de mensagens ou ligações certamente já tinha o funcionamento de não respeitar os limites do outro”, alerta a psicóloga. A restrição de fontes de contato e o consequente aumento da demanda por atenção pode acabar pesando para o parceiro.
“É fundamental investir na relação consigo mesmo, buscando o autoconhecimento para viver experiências satisfatórias de vida. O excesso de contato pode criar situações que antes não apareciam, fazendo com que haja um cansaço na relação”, orienta Rosário. “O mais saudável nesse aspecto é a busca de um equilíbrio entre relacionamento e autossuficiência, entre independência e união, onde o outro importe tanto quanto a própria pessoa”, recomenda a especialista.
Relacionamento a distância não é tão novidade assim
Quem já levou um relacionamento a distância, do tipo raiz mesmo, com cada um em uma cidade ou mesmo país diferente, entrou com alguma vantagem para encarar a necessidade do afastamento. É o caso da jornalista Camila Barbalho, 31, e do advogado e professor Adrian Silva, 28, que estão juntos há cerca de três anos, entre idas e vindas, e de um período de seis meses com ele fora do Brasil por causa do doutorado. “Isolamento é fichinha perto do que superamos quando morei fora, foi um período muito complicado. A situação de agora está mostrando que estamos mais juntos do que nunca, sem brigas frequentes ou discussões. Temos é pensado em sonhos e objetivos futuros para fazer depois da pandemia”, confirma ele.
A dupla também caminha para os três meses sem qualquer contato presencial, e nessas tantas semanas longe eles usaram e muito a tecnologia a favor da saudade, e já até elegeram o programinha virtual favorito: jantar a dois, com direito a vinho, por videochamada. Adrian inclusive já mandou duas garrafas de presente para a amada por delivery nesse período. Hoje, ele provavelmente vai ler essa matéria enquanto se esbalda na cesta de café da manhã enviada por Camila. “Mas é dolorido, a gente ficou bem triste de precisar radicalizar, ficamos negando por um tempo. Só que a consciência bateu, eu moro em vila, com minha mãe e padrasto, o Adrian com a mãe. Se tornou muito perigoso o contato, a gente precisou ter esse discernimento”, explica a jornalista.

Nessa transposição de rotinas para o ambiente virtual também já rolaram os naturais desentendimentos de casal, e tudo foi devidamente resolvido on-line. “A gente sente falta de carinho, de contato, coisas que podem ser dribladas quando se tem planos, quando se tem concretude na relação. Se a gente planeja uma vida, um futuro juntos, essa é uma etapa que vamos superar”, confirma a namorada.
Eles estão avaliando com muito cuidado a possibilidade de Camila, que está totalmente isolada e sem sair desde março, passar uma semana na casa de Adrian, também isolado, por conta do aniversário dele, agora em junho. “A presença física é o que faz falta, de fazer o que fazíamos antes: pub, festa, restaurante, interior, praia, cinema, dormir na casa um do outro, assistir filme, lanchar, tanta coisa que a gente ama fazer junto”, admite o advogado e professor.
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