Em “Ínfimas Infâmias”, o jovem escritor Felipe Figueiredo De Campos Ribeiro vai deixando ao leitor, como um caminho de migalhas de pão, uma trilha de epígrafes ao início de cada conto que, como ele mesmo diz, entregam algumas de suas influências “de mão beijada”. Ao construir sua espécie de mosaico da infâmia, em vez de passear pelas ruas e causos de Belém, como fez seu bisavô, o poeta, cronista, ensaísta e jornalista José Sampaio De Campos Ribeiro, em sua “Gostosa Belém de Outrora”(1966), Felipe escreve sobre Borges, Poe, Sófocles, Santo Agostinho... menos sobre o regional.
“Um dia desses, voltei a ler os causos registrados por meu bisavô em ‘Gostosa Belém de Outrora’ e percebi que esse meu primeiro trabalho nas letras se aproxima muito dos dele, ao mesmo tempo em que se distancia também. Se aproxima no aspecto da brevidade da escrita, na certa (aparente) leveza das histórias ou estórias, como ele diria, enfim, na forma. Mas, o mais profícuo de ser observado é a dimensão em que se distanciam, porque ela é sintomática de uma diferença geracional - que, no fundo, é uma diferença que existe certamente em razão do que foi o próprio destino do Pará e do Brasil no últimos, digamos, 40 ou 50 anos.
José Sampaio escreve sobre Belém: sobre como esse lugar, em vias de entrar em decadência já àquela época que era a sua, era gostoso de se viver”, contou ele. “Esta diferença, não creio que seja vã e casual. Tem a ver com o sentido que tomou a nossa história, tem a ver, talvez, com a relação de distanciamento que os homens e mulheres de letras brasileiros, paraenses e belemenses foram passando a tomar em relação ao Brasil, ao Pará e a Belém”, analisa o escritor, também neto do poeta, músico e compositor José Guilherme De Campos Ribeiro.
O livro que vem sendo tecido desde o início de 2018 foi um dos dez contemplados na categoria de prosa pelo edital “Prêmio Literário Dalcídio Jurandir 2019”, da Imprensa Oficial do Estado do Pará (Ioepa), que teve resultado divulgado em 25 de junho, e cujo prêmio é a publicação da obra, prevista para dezembro próximo. Mas não foi sua única premiação.
“Esse processo de escrita de contos, para minha surpresa, me rendeu já dois prêmios no ano passado, o ‘Cuentame un Cuento’, organizado pela Universidade de Salamanca (Espanha), editado e publicado pelas Ediciones Ambulantes; e o Prêmio da Academia Barretense de Letra (RS). Eram concursos de contos individuais, que geravam coletâneas. E agora, no Pará, tive um livro inteiro premiado e isso é especialmente importante”, diz Felipe.
Com apenas 33 anos, o autor se divide entre a vida literária e a carreira acadêmica. Professor adjunto da Faculdade de Psicologia da UFPA, recém egresso da França (atuou como professor convidado, em Estágio Pós-Doutoral, na Université Paris 8 Saint Denis), sua trajetória como escritor sempre foi dupla.
“Quem entrar na famigerada ‘plataforma lattes’, verá que escrevo, há alguns anos, artigos e livros que transitam entre psicologia, filosofia e ciências sociais. E é a partir dessa formação e dessa trajetória que aprendi a pensar, à semelhança de um Benedido Nunes, que as relações entre pensamento e poesia podem transacionais, que com a poesia ou com a literatura é possível pensar, no sentido forte da palavra. Por vezes, pensar tanto melhor do que com a linguagem conceitual das ciências”, diz.
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