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Lixo eletrônico é reutilizado em oficinas e até em aulas de robótica no Pará

A situação não é incomum. Diante da troca do aparelho de celular por um modelo mais recente ou da substituição de um teclado ou bateria nova, surge o questionamento sobre o que fazer, como descartar os eletrônicos que não têm mais serventia? O tamanho do

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Imagem ilustrativa da notícia Lixo eletrônico é reutilizado em oficinas e até em aulas de robótica no Pará camera Jovens atendidos pelo Emaús reaproveitam os equipamentos eletrônicos em oficinas que geram aprendizado e capacitação para o mercado de trabalho, até mesmo como autônomos. | MAURO ÂNGELO

A situação não é incomum. Diante da troca do aparelho de celular por um modelo mais recente ou da substituição de um teclado ou bateria nova, surge o questionamento sobre o que fazer, como descartar os eletrônicos que não têm mais serventia? O tamanho do problema do lixo eletrônico no Brasil é facilmente evidenciado pelos números.

O estudo The Global e-Waste Monitor 2017, o mais recente realizado pela Organização das Nações Unidas (ONU), aponta que o país é o maior gerador desse tipo de resíduo em toda a América Latina. São 1,5 toneladas de lixo eletrônico sendo produzidas todos os anos. Motivo de discussão global, o lixo eletrônico é o tema da primeira matéria da série Tecnologias Sustentáveis, mais um projeto do DIÁRIO.

SOLUÇÃO SIMPLES

Apesar da gravidade do problema, nas mãos corretas, o que seria caracterizado como lixo pode ser renovado para, além de reduzir a quantidade de resíduos descartados, ainda servir a práticas de inclusão digital, criação de novas áreas de atuação profissional e estímulo ao empreendedorismo. Há 48 anos essa vem sendo a visão do Movimento República de Emaús, que desde a década de 1970 promove a conhecida Coleta de Emaús, recolhendo equipamentos elétrico e eletrônicos que seriam descartados pela população. “A coleta ocorre o ano todo, mas em setembro tem a grande coleta”, lembra Cleice Maciel, coordenadora do Emaús. “Os jovens participam de todo o processo, desde a recepção, triagem, manutenção e recondicionamento, armazenamento e entrega dos equipamentos”.

Os jovens que participam das oficinas recebem também uma qualificação. Mesmo os que ainda não conseguem um emprego formal após a oficina, têm a possibilidade de atuar como autônomos.

CENTRO

Neste mesmo contexto, desde 2010 o Emaús abriga o único Centro de Recondicionamento de Computadores (CRC) da Região Norte, implantado a partir de uma parceria com o Governo Federal. Em um espaço físico voltado para o recondicionamento de equipamentos eletroeletrônicos, o centro tem como objetivo proporcionar a realização de oficinas e cursos visando à formação profissionalizante de jovens em situação de vulnerabilidade social. Depois de recuperados, os equipamentos são doados para a comunidade como forma de inclusão digital.

“O CRC é um grande multiplicador. Vem nessa perspectiva da inclusão por meio do acesso à tecnologia e ainda conscientiza a respeito do lixo eletrônico, já que o que não pode ser transformado e vira resíduo eletrônico, recebe a destinação correta”, explica Cleice, ao apontar que o último contrato do projeto com o Governo Federal encerrou em novembro de 2019 e que, agora, o Emaús aguarda a finalização do processo de seleção no qual já se inscreveu para buscar uma possível renovação.

Voluntário do Emaús no espaço destinado ao Centro de Recondicionamento de Computadores, o professor Reginaldo Nunes aponta que muitos dos equipamentos elétricos e eletrônicos que chegam ao Emaús através de doações são computadores e notebooks que ficaram sem uso em decorrência do avanço da tecnologia. “Muitos computadores estão bons, mas não serviam mais para aquela pessoa. Só que para que outras pessoas ele ainda é muito útil”.

Um dos jovens que já passaram pelas oficinas de manutenção de computadores no Emaús, Thyago Felipe dos Santos Maciel, 16 anos, conta que, com a formação, percebeu que na maioria das vezes os problemas apresentados pelas máquinas são mais simples do que se imagina. “Às vezes, é só uma questão de limpeza”, exemplifica.

Por um motivo tão simples como o apontado pelo jovem Thyago, tal equipamento poderia ir parar, irregularmente, no lixo.

ROBÓTICA

Um novo uso possível para elétricos e eletrônicos que iriam parar no lixo é o reaproveitamento para o ensino da robótica. Campeã brasileira de robótica, a professora de matemática Keila de Souza Cattete, 41 anos, aponta que o que seria considerado lixo por uma grande parcela da população, pode ser matéria-prima para a construção de um protótipo. “No desenvolvimento de protótipos temos peças que são importantes como a luz LED. Algo que pode ser encontrado em um controle remoto”, exemplifica. “Se o teclado estiver em boas condições, ainda é possível aproveitar a lâmina para fazer a base do robô”.

O reaproveitamento do lixo eletrônico como fonte para a criação de novos materiais possibilita não apenas o desenvolvimento e estudo da robótica de forma muito mais acessível, como também a diminuição dos resíduos e a conscientização sobre o uso. “Com a utilização do lixo eletrônico a gente economiza capital porque as peças são muito caras e com isso ainda se consegue conscientizar sobre a necessidade de preservação do meio ambiente”, aponta a professora, que mantém um projeto voluntário de robótica educacional na Escola Estadual Professora Dilma de Souza Cattete.

REGULAMENTAÇÃO

A responsabilização do setor produtivo sobre resíduo eletrônico foi foco de regulamentação por parte do Governo Federal. O decreto 10.240 de 2020 estabelece regras para implantação do sistema de logística reversa para produtos elétricos e eletrônicos.

Presidente da Comissão de Meio Ambiente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PA), o advogado Luis Antonio Monteiro de Brito esclarece que a questão da destinação dos eletrônicos e seus componentes, além de outros tipos de resíduos, foi definida inicialmente pela Política Nacional de Resíduos Sólidos. “O Decreto 10.240 regulamentou essa lei”, aponta. “O objetivo é garantir uma destinação ambientalmente adequada para esses resíduos eletrônicos dando prioridade para a reciclagem”.

A chamada logística reversa trata da responsabilidade do setor produtivo em fazer o processo inverso, o recolhimento e a garantia de destinação adequada aos resíduos eletrônicos.

Por enquanto, o projeto que definirá como essa logística será possível está em fase de planejamento, que segue até o final de 2020. A partir de 2021 deverá ter início a coleta em si, de forma gradual.

PARA ENTENDER NOVA SÉRIE

l Com foco no uso consciente dos recursos naturais, no reaproveitamento de materiais e no desenvolvimento de tecnologias menos poluentes, a série Tecnologias Sustentáveis leva aos leitores do DIÁRIO 12 matérias especiais que apontam como iniciativas simples podem promover benefícios no âmbito social, profissional e ambiental.

l As publicações ocorrem sempre aos domingos até o próximo dia 4 de outubro. A série Tecnologias Sustentáveis tem patrocínio da Guamá – Tratamento de Resíduos, Hydro e Imerys.

DOAÇÕES AO EMAÚS

l Doações de equipamentos eletroeletrônicos podem ser realizadas, no período de 8h às 17h (segunda a sexta-feira) e de 8h às 12h (sábado), diretamente na sede do Movimento República de Emaús (Rua Pe. Bruno Sechi – ex-Yamada, 17. Entre Passagem São Miguel e Rua Vinte e Nove de Abril – Bengui).

LIXO ELETRÔNICO

l Equipamentos de troca de temperatura (resfriamento e congelamento)

Geladeiras, freezers, condicionadores de ar, aquecedores.

l Telas e monitores

l Lâmpadas

l Equipamento de grande porte (máquinas de lavar, secadoras de roupas etc.)

l Equipamento de pequeno porte (aspiradores, micro-ondas, ventiladores etc.)

l Equipamentos de TI e telecomunicações (celulares, GPS, calculadoras, roteadores etc. )

Fonte: The Global e-Waste Monitor 2017 – Organização das Nações Unidas.

Cerca de 7,4 kg de lixo eletrônico são gerados por cada brasileiro no período de um ano, segundo estimativa do The Global e-Waste Monitor 2017. 3% é o percentual do total de lixo eletrônico produzido anualmente no Brasil que recebe um descarte adequado.

Seleção visa projetos de solução para resíduos

Em foco no que se refere à legislação voltada para a correta destinação do lixo eletrônico, práticas de logística reversa fazem parte de um dos segmentos abordados no programa de inovação SMARTie, que seleciona projetos que visam solucionar desafios na área de resíduos. O programa, conduzido pelo Grupo Solví em parceria com suas empresas, como a Guamá Tratamento de Resíduos, vai funcionar em formato de desafio. “É um programa de aceleração de startups e em um dos desafios lançados está ligado à questão do lixo eletrônico”, destaca o Head de Operações da SMARTie, Júlio Begali. As inscrições seguem até o dia 31 de julho no endereço www.smartie.global.

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