Quando o primeiro caso de Covid-19 foi confirmado no Estado, no dia 18 de março de 2020, toda a equipe de jornalismo do DIÁRIO DO PARÁ já sabia que a presença do novo coronavírus implicaria em mudanças de comportamento e na dinâmica de trabalho na redação. A pandemia, que naquele momento já era notícia no mundo inteiro, passava a ser uma realidade também nossa. Tudo o que já tínhamos lido sobre - e que também ainda era muito novo - precisaria ser melhor estudado, aprofundado, para que se tornasse produto de informações confiáveis para os nossos leitores.
Quando recebeu o aviso de pauta da entrevista coletiva que o Governo do Estado iria conceder para divulgar o primeiro caso da doença provocada pelo coronavírus, a coordenadora de produção de pautas do DIÁRIO, Carla Azevedo, não conseguiu esconder o choque que a notícia provocou. Ficou preocupada por ela, pelos familiares e pelos colegas de trabalho que poderiam fazer parte do grupo considerado de risco. “Nunca imaginei trabalhar em uma cobertura dessas – de uma pandemia”, comentou sobre esse período.
O diretor da redação, Clayton Matos, também estava diante de uma situação nunca vivida. Tinha bem pouco tempo para traçar um planejamento para que os trabalhos continuassem de forma segura para toda a equipe do jornal. Repórteres fotográficos também diariamente estão nas ruas. Mas também faz parte da equipe da redação produtores, diagramadores, editores e também motoristas. “Foi tudo muito novo, repentino, não havia como traçar um parâmetro com algo similar a esse que tenha ocorrido em algum momento”, pontua Matos. “Os veículos de comunicação, os jornais em especial, se desdobraram para garantir a segurança das equipes e manter a qualidade do material que
oferecem aos leitores”.
Começou um período de trabalho remoto (ou home office) para a maioria da equipe. Praticamente todo mundo teve, em algum momento, que trabalhar de casa. A redação praticamente precisou ser esvaziada para evitar aglomerações e respeitar o distanciamento social. Os colegas de trabalho que faziam parte do grupo de risco ou que tem mais de 60 anos de idade foram afastados das atividades. Todas as mudanças foram acompanhadas pela direção geral, Departamento de Recursos Humanos e equipe de Segurança do Trabalho.
Ver a redação com poucas pessoas e em determinados momentos sem ninguém foi um impacto para o repórter Wesley Costa. “Foi estranho chegar num local e não poder tocar as mãos ou abraçar as pessoas. Foi uma coisa que nunca pensei em ver numa redação de jornal. A gente tem a redação como o coração do jornal e por conta das medidas a gente tinha que se manter distante”, lembrou. “A pior coisa foi esse não contato com as pessoas”, descreveu.
As máscaras e o álcool em gel passaram a fazer parte da vida de cada um e itens obrigatórios tanto no trabalho, quanto dentro de casa. Entre a alternância do home office e pautas externas, a repórter Alexandra Cavalcanti percebeu que, nas ruas, a pandemia alterou não somente o comportamento das pessoas como o estado emocional. “Uma das experiências que mais me causou um misto de medo e espanto, em mais de 20 anos de profissão, foi quando a minha equipe precisou fazer a cobertura da movimentação no comércio de Belém, durante o mês de abril”, contou ao lembrar do período mais tenso da pandemia, quando a Covid-19 promoveu
o colapso na Saúde.
“Havia uma determinação municipal para que todas as lojas permanecessem fechadas e fomos recebidos com muita hostilidade pelos comerciantes que insistiam em manter as lojas em funcionamento, apesar da proibição”, disse Alexandra. “Havia uma ameaça velada no ar de que não podíamos estar ali, que não erámos bem-vindos. Foi a primeira vez que me senti estranha em um local tão familiar, rico de personagens e responsável por pautas tão interessantes. Pela primeira vez senti uma dificuldade imensa em fazer uma coisa que até então parecia tão simples, como ouvir as pessoas. Definitivamente passamos a ser vistos como inimigos”, descreveu sobre o período mais tenso da cobertura da pandemia.
VAZIO
O repórter fotográfico Wagner Almeida costuma dizer que a experiência dele no caderno Polícia, durante anos, o ajudou a trabalhar com as pautas durante a pandemia. Lembra de uma situação em que precisou fotografar um grupo de pessoas que estava jogando vôlei no canteiro da avenida Rômulo Maiorana (antiga 25 de Setembro), no bairro do Marco em Belém, durante o lockdown. As atividades esportivas de grupo, que geram aglomerações estavam proibidas. “Foi estranho ver que pessoas praticando esporte – uma atividade de lazer – pareciam estar cometendo um crime, naquele momento. Sabia que não ia ser fácil porque ninguém ali ia aceitar ser fotografado”, ponderou.
“A cobertura policial me ajudou na hora de fazer abordagens e aproximações em momentos e locais de crise. Teve situações em que tive de observar e me distanciar”, disse Wagner Almeida. Para os editores do jornal a rotina também mudou. Luiz Octávio Lucas, que edita o caderno Bola, diz que a editoria foi uma das que mais foram afetadas. Primeiro porque os eventos esportivos foram suspensos, segundo porque a equipe toda teve de trabalhar de casa, fazendo entrevistas por telefone, vídeochamadas e transmissões ao vivo nas redes sociais. “A equipe foi mantida, com o desafio de produzirmos notícias locais, mesmo sem campeonatos”, enfatizou. “Precisei me adaptar, trabalhar em casa é um desafio. Estamos longe dos colegas, da rotina da redação, da troca de ideias olho no olho. De qualquer forma temos conseguido trabalhar com sucesso”, resumiu sobre a experiência.
Ronaldo Torres, que há 19 anos faz parte da equipe do DIÁRIO, lembrou que no início da pandemia eles também tentaram fazer home office, mas dinâmica de trabalho deles é diferenciada. Os programas que utilizam no computador são pesados para instalar no computador de casa, por exemplo. “O fato de não ficar de home office deixou a gente em alerta. Tivemos de ter mais cuidado para não se contaminar pelo vírus, mas a ausência dos colegas na redação foi o mais difícil de lidar. Tinha momentos que a gente não tinha com quem conversar ou ter um momento de descontração. Somos uma equipe unida, mas tivemos que vir em horários diferentes”, relatou.
De maneira geral, a nova rotina trouxe alguns comportamentos que passarão a fazer parte do cotidiano da equipe. “Tivemos uma ótima adaptação, com ajustes que duraram algumas semanas, e conseguimos entregar um produto diferenciado que nos manteve como referência na procura pela informação concreta”, completa Clayton Matos.
CADA VEZ MAIS PRÓXIMO DE SEUS LEITORES

Maria Lúcia começa o dia lendo o DIÁRIO, ainda mais na pandemia, para se informar melhor. (Foto: Fernando Araújo)
Há vinte anos trabalhando como boieira na feira da Bandeira Branca, entre os bairros do Marco e Curió-Utinga, em Belém, dona Maria Lúcia Silva, 63 anos, só começa o expediente depois de ler o jornal. Desde março, quando a pandemia de Covid-19 chegou à cidade, isso se tornou ainda mais indispensável durante a sua rotina. “É preciso estar por dentro de tudo, porque pelo WhatsApp recebemos muita Fake News e preciso ficar sabendo dos assuntos até para conversar com os clientes e trocar informações corretas com eles”, frisou.
No período mais crítico da propagação do coronavírus, dona Lúcia ficou sem trabalhar por 75 dias – período em que os estabelecimentos de alimentação fora do lar estavam sem poder funcionar como medida de segurança. “Mesmo assim eu não deixei de ler o jornal. Tenho família e a gente precisava saber o que estava acontecendo e o que está por vir e o jornal me situava no que estava acontecendo”, disse segurando um exemplar do DIÁRIO DO PARÁ nas mãos.
Assim como faz parte do dia a dia da dona Lúcia, o jornal também está presente na rotina de outros milhares de paraenses que encontram, nas reportagens e páginas do periódico, um conteúdo responsável e comprometido com a informação correta, premissa básica do bom jornalismo.
A única coisa que não mudou e ficou em evidência foi o compromisso dos produtores, repórteres, editores e fotojornalistas em trabalhar com fontes confiáveis, que pudessem passar o máximo possível de informações corretas sobre o coronavírus. Vale lembrar que as primeiras reportagens publicadas pelo DIÁRIO sobre esse tema começaram antes mesmo do primeiro caso ter sido confirmado e divulgado no Pará, em março deste ano. Quando o vírus acometeu a China, primeiro epicentro da pandemia, o jornal já abordava o assunto.
“Quando a crise do novo coronavírus virou um tema obrigatório na cobertura mundial, coube cada veículo regionalizar o assunto e observar o impacto da pandemia no plano local. E foi muito importante entender como a população estava reagindo”, observou o diretor de redação, Clayton Matos, sobre o início do planejamento de pautas da cobertura da pandemia.
Faz parte da linha editorial e do projeto gráfico do DIÁRIO DO PARÁ trabalhar as reportagens com um toque de humanização, focando a história e a experiência de personagens de todos os assuntos possíveis. Na pandemia isso não foi diferente. “As experiências pessoais que até hoje são relatadas nas páginas do jornal acabaram ajudando outras pessoas nas mais diversas situações”, diz Matos. “Essas histórias fazem a diferença e de alguma forma os entrevistados, incluindo aí os especialistas da área médica, acabam ajudando muita gente que não sabe como lidar em determinadas situações”, explicou.
“O meu filho estava muito preocupado comigo e com os filhos deles. Tudo era novo no início e até hoje ainda há muitas incertezas sobre o coronavírus. Dia de domingo é quase obrigatório toda a família ler o jornal para gente saber um pouco mais, aprender um pouco mais. Durante a semana eu exercito isso com os meus clientes aqui”,
disse a boieira.
Ela lembra do caderno especial sobre o coronavírus que o DIÁRIO publicou no dia 22 de março de 2020, quatro dias depois da divulgação do primeiro caso de Covid-19 no Pará. “Aquele caderno, naquele momento, foi fundamental para entender um pouco sobre o que estávamos enfrentando. Foram semanas difíceis”, ressaltou a boieira.
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