As universidades federais têm sido alvo de ações do governo Bolsonaro com claro objetivo de corroer suas estruturas funcionais. Não bastassem as frequentes reduções no orçamento para custeio das atividades básicas, restrições ao financiamento da pesquisa e pós-graduação no país, proibição a contratações de professores e técnicos, além de alucinadas acusações sobre práticas no interior das universidades, lança-se também o governo federal a tentativas recorrentes de interferir nos processos de escolha de reitores, de modo a nomear dirigentes mais afinados com suas crenças e propósitos políticos.
Infelizmente, esta é hoje a realidade observada na Universidade Federal do Pará, que, pela primeira vez na sua história, vê encerrada uma gestão sem saber a quem dar posse para o próximo mandato. Sem dúvida, uma situação inaceitável.
Seguindo tradição instituída há muitos anos na UFPA, foi realizado processo de escolha para o cargo de reitor. Ouvida a comunidade, o professor Emmanuel Tourinho venceu por larga maioria a disputa. Deveria ser o nomeado. Ponto.
Entretanto, dispositivo legal obriga o conselho máximo das universidades a encaminhar uma lista com três nomes para a escolha de um deles pelo presidente da República. Cumprida essa exigência pela UFPA, há mais de dois meses, até agora não se efetivou a nomeação esperada.
Sob a suposta justificativa de incongruências processuais nas regras da eleição realizada, o governo, em uma indisfarçável manobra, joga com a possibilidade de nomear alguém fora da lista tríplice encaminhada. Como consequência dessa indefinição, está agora em mãos de juízes o que deveria ser prerrogativa exclusiva da comunidade universitária.
A UFPA não merece esse destino.
A despeito de tanta dificuldade, ela é responsável na Amazônia pela maior parcela da produção de conhecimento e da formação de recursos humanos em mais alto nível. Com contribuição valiosa ao desenvolvimento regional, sua história é motivo de muito orgulho. Respeito, portanto, a esse legado institucional é o mínimo que se espera.
Cabe ao governo nomear o professor Emmanuel Tourinho. É o desejo da grande maioria dos membros da universidade. Se convicções políticas menores o impedem, deve então nomear um dos dois outros nomes. Nada, porém, além dessas alternativas.
Que faça isso, logo, e deixe a UFPA em paz!
Carlos Maneschy, professor e ex-reitor da UFPA, secretário de Ciência, Tecnologia, Educação Superior, Profissional e Tecnológica.
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