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Mesmo com chuva mais fraca, transtornos continuam em Belém

A população de Belém nem terminou de contabilizar prejuízos com temporal de quarta-feira e já enfrentou novamente os alagamentos e os congestionamentos atormentaram quem precisava voltar para casa

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Imagem ilustrativa da notícia Mesmo com chuva mais fraca, transtornos continuam em Belém camera Lixo se acumula nos canais da cidade, piorando ainda mais os alagamentos | Wagner Santana/Diário do Pará

A população de Belém ainda nem tinha contabilizado os prejuízos provocados pela forte chuva da última quarta-feira (4), quando voltou a chover forte na cidade, ontem (5). Basta poucos minutos de precipitação para que vários pontos fiquem alagados e os moradores apreensivos com o risco de terem a casa inundada pelo aguaceiro que se forma nas ruas.

No bairro da Terra Firme, Ruy Miguel, 40 anos, ainda estava retirando o carpete e forros do banco do carro dele para pegar sol quando voltou a chover, no início da tarde de ontem (5). Ele mora no final da passagem Nossa Senhora das Neves com a rua Celso Malcher, perímetro em que o alagamento é constante e quando chove a situação piora. “Foi tudo muito rápido. Quando olhei o nível da água já tinha subido e metade do carro estava submerso. Em casa foi terrível, baratas e ratos vieram pelo ralo. Enfrentei esgoto e estes animais em casa”, lembrou.

Ontem (5), ele empurrou o carro para uma distância de aproximadamente 50 metros da garagem para tentar evitar que ele voltasse para o fundo do aguaceiro. O problema ali ocorre, segundo Ruy, porque há anos a prefeitura não limpa e nem faz dragagem do canal que corta a Celso Malcher. “O lixo tomou conta de tudo por lá. O canal sofreu assoreamento. Tudo por aqui vai para o fundo sempre que chove. A prefeitura nunca veio aqui e, como já está em final de mandato, certamente não virá e a gente que vai sofrer como sempre”, desabafou.

O lixo e o mato tomam conta do canal e a quantidade de entulhos despejado por ali ocupa metade de uma ponte, inclusive, obstruindo até a passagem de pedestres e carros. Sem ter para onde escoar, a água se acumula na rua, invade as casas e a garagem de uma empresa de ônibus

No canal da Vileta o lixo tomava conta de parte da galera e três crianças mergulhavam na água suja e contaminada. Quando viram a reportagem, saíram do canal, mas voltaram a mergulhar assim que o repórter fotográfico deixou o local. A travessa Mauriti, ontem ainda tinha pontos alagados. No bairro da Pedreira, o canal da rua Antônio Baena ficou bem próximo de transbordar e as ruas envolta ficaram inundadas. Os motoristas trafegavam em baixa velocidade para evitar acidentes.

Na avenida Pedro Miranda, as pistas logo foram cobertas pela água. O autônomo Kleber Santos, 39, ficou preocupado porque no perímetro onde mora sempre alaga e ele estava fora de casa. “Se encher a rua, não vou conseguir salvar nada em casa. Ontem (quarta-feira) a água ficou na altura da cintura”, disse, enquanto esperava a chuva diminuir e a água na pista escoar um pouco mais para poder atravessar. Uma mulher que não podia esperar enfrentou o aguaceiro. “É o jeito!”, gritou quando estava caminhando com a água na altura da canela.

Morador olha, incrédulo, a situação da sua rua. Em outros locais, carros “surfavam” no meio da água
📷 Morador olha, incrédulo, a situação da sua rua. Em outros locais, carros “surfavam” no meio da água ||Wagner Santana/Diário do Pará

RESPOSTA SESAN

Procurada pela reportagem, a Secretaria Municipal de Saneamento (Sesan) admitiu que a cidade voltou a ficar alagada em vários pontos de alagamentos, ontem (5), e informou que realiza ações de limpeza manual e mecanizada em todos os canais da cidade para combater alagamentos e reduzir os impactos causados pelas fortes chuvas. Em relação ao lixo, a Sesan destacou que eles são descartados de maneira irregular, o que contribui para os alagamentos.

E o trânsito também parou novamente

E pelo segundo dia consecutivo, o retorno para casa foi ainda mais sofrido. Foram cerca de 3h, desde às 16h, de chuva no centro de Belém, tempo suficiente para causar transtornos, principalmente no trânsito devido ao intenso fluxo de veículos no horário de ‘pico’. O que agravou o problema foi a ausência de agentes de trânsito para organizar o tráfego, o que gerou reclamações.

“Nem todo mundo respeita. O sinal está para fechar, mas o motorista insiste em atravessar. Aí tranca tudo. Os cruzamentos ficam horríveis. Pior que quando a gente mais precisa, não tem ninguém para fiscalizar, orientar, nada”, desabafou Lorena Braga, 33 anos, comerciária. Nas redes sociais a indignação era semelhante.

Engarrafamentos entraram pela noite nas principais vias, como a avenida Almirante Barroso
📷 Engarrafamentos entraram pela noite nas principais vias, como a avenida Almirante Barroso ||Antônio Melo/Diário do Pará

Um vídeo foi compartilhado mostrando uma pessoa, mesmo debaixo de chuva, tentava organizar o trânsito acenando para os motoristas pararem e deixassem o fluxo na via transversal seguisse, assim, evitando ainda mais transtornos. Algumas das principais avenidas, como Almirante Barroso, Nazaré, Magalhães Barata, Mundurucus e Gentil Bittencourt, foram afetadas com o congestionamento. A velocidade média entre um semáforo e outro não passava de 10 km/h. O trânsito lento também refletia no sentido contrário, rumo ao centro da cidade, onde o fluxo de veículos era pesado na avenida Conselheiro Furtado.

Nas paradas de ônibus, muitas pessoas padeciam à espera do coletivo, sofrimento que agravou, em alguns pontos, devido à falta de abrigo adequado. “Estou aqui há uma hora esperando o meu ônibus [Santa Bárbara]. Vim do comércio ‘pra’ cá [São Brás] esperar por ele. Toda vez que chove é assim: fico o dobro de tempo esperando por causa desse trânsito. E se eu não tivesse sombrinha, ‘tava’ toda molhada”, disse Socorro Silva, 44, doméstica.

A Superintendência Executiva de Mobilidade Urbana de Belém (SeMOB) informou, em nota, que em períodos de chuvas fortes e contínuas distribui o contingente de agentes entre os principais corredores de tráfego do município, e onde mais houver necessidade, para organizar o trânsito e dar vazão ao tráfego em pontos de alagamento, mas que a combinação da grande quantidade de veículos nas vias e as condições adversas de tempo acabam gerando inevitáveis congestionamentos.

Mês de novembro deve continuar chuvoso

Segundo o diretor do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) no Pará, José Raimundo Abreu, existem quatro fenômenos meteorológicos que mais favorecem esse período mais chuvoso, que conhecemos como Inverno Amazônico. “Os principais causadores desta fase mais intensa de chuvas são a zona de convergência intertropical, que iniciam a partir de janeiro; o vórtice ciclônico de altos níveis, que causam instabilidade; a posição da Alta da Bolívia, trazendo umidade para o restante do país; e as linhas de instabilidade. Há outros fenômenos também associados e que favorecem as chuvas de 24 ou 48h consecutivas. Mas estes quatro são os principais”, explicou.

Ainda de acordo com o diretor, novembro não é caracterizado como um mês intenso de chuvas no município. Isto porque, a zona de convergência de umidade e do Atlântico Sul causam as primeiras chuvas somente no mês de outubro ou novembro no sul do Pará e, em Belém, apenas a partir de dezembro, quando realmente aumentam.

“Porém, as chuvas deste ano estão diferentes. Os meses menos chuvosos aconteceram em julho e agosto e o mês de setembro foi marcado por muito calor e temperaturas que chegaram a 37 graus. A expectativa era a de que outubro ficasse mais seco. Contudo, em setembro houve mudanças e as chuvas de outubro dobraram a média, já que o índice pluviométrico que era de 128 milímetros foi para cerca de 250 mm. Foi um mês em que regiões do estado do Pará, como Altamira e Tucuruí, enfrentaram chuvas de granizo e formação de nuvens carregadas que culminaram com chuvas pesadas e maior frequência de raios também”, ressaltou José Raimundo.

Para o mês de novembro a média pluviométrica é de 125,6 mm. Contudo, somente em dois dias de chuva em Belém, esse volume atingiu 92,8 mm. “Ou seja, a chuva de quarta-feira (04) registrou 43,8 mm e no dia anterior alcançou 49 mm. É possível então que o mês de novembro ultrapasse a média de volume de chuvas em mais de 50%. Além disso, apesar de não ser ainda o começo do Inverno Amazônico, as chuvas da tarde vão continuar”, ressaltou José.

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