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RELATOS

A vida pelos rios do Pará

É exercendo alguma atividade pelos rios que muitas famílias se sustentam, por meio da pesca, transportando passageiros ou produtos, entre outras. E não faltam histórias dessa relação com as águas. Confira!

domingo, 17/01/2021, 07:53 - Atualizado em 17/01/2021, 07:53 - Autor: Denilson D’Almeida


Edmar Lima e família
Edmar Lima e família | Irene Almeida

O almoço da família do pescador Edmar Lima, 50 anos, foi diante do Mercado de Ferro do Ver-o-Peso, em Belém. O céu estava nublado, a maré baixa e o barco deles atracado na pedra do peixe. Do fogareiro na popa da embarcação exalava o cheiro de churrasco, cardápio preparado pela esposa de Edmar, Lucilene Silva, 53. Foi a última refeição deles antes de partirem para mais uma jornada pelos rios da Amazônia. No total, a tripulação é formada por oito adultos e uma criança, sendo o casal, cinco filhos, uma nora e um neto. Todos naturais de Manacapuru (AM). De lá até a capital paraense foram seis dias e seis noites de viagem, que resultaram na pesca de duas toneladas de peixe. No caminho ainda fizeram pequenas paradas em Cametá e Abaetetuba, nordeste paraense.

A vida simples no barco é um reflexo da que teriam se morassem na casa de Manacapuru. Andam somente com o que é essencial, no caso poucas roupas e utensílios para necessidades básicas. Atualmente, o celular é um aliado de Edmar, porém, o aparelho é usado mais para filmar a pescaria, pois nem sempre estão em áreas onde há sinal da rede de internet e telefone. “É com isso que as pessoas vão acreditar no que estamos dizendo”, explica.

Um dos vídeos que ele faz questão de mostrar é de uma boa pescaria com a rede. A quantidade de peixes era impressionante. A família tem muitas histórias para contar, mas é a relação com os rios que mais chama a atenção. Lucilene e Edmar têm mais de três décadas de casados e nove filhos - dos quais cinco trabalham com eles na embarcação que recebe o nome do caçula, Leomar. Por serem ribeirinhos, sempre dependeram do rio e da terra para sobreviver. “Hoje bem mais do rio, já que passamos a maior parte do tempo morando no barco”, disse o pescador.

Lucilene explica que prefere acompanhar a família no barco porque, assim, cuida de todos. “O Edmar é hipertenso, fico preocupada. Quando saíam para pescar e ficavam muitos dias fora, ele passava mal porque ficava preocupado comigo e eu com ele. Já me acostumei e hoje até sei pescar também”, relata.

A família não sabia do aniversário de Belém, no último dia 12, data em que partiu para uma nova jornada. Desta vez a pescaria deve levá-los de volta para casa. “Não sabia do aniversário, mas é uma cidade bonita pelo pouco que vemos daqui (da pedra do peixe)”, exalta.

Sobre a cidade, Edmar conhece bem pouco. Em compensação, sabe muito sobre as águas que banham a capital paraense. “Os rios daqui são muito mais ‘brabos’, têm muita influência de baías, são mais largos”, descreveu, sobre a região. “Sem contar que as ondas daqui são maiores. Acho que é por isso que dizem, por onde a gente passa, que Belém tem rios que fazem ondas”, prossegue.

 

Gilmar Moraes e Waldete Moraes
Gilmar Moraes e Waldete Moraes | Irene Almeida
 

O estudante Gilmar Moraes, 19, ajuda o pai, Waldete Moraes, 50, na rotina pelas águas da região. Eles moram na comunidade de Itacuã, no município de Moju, nordeste paraense, e viajam quase diariamente para Belém trazendo açaí e passageiros. Trabalham como atravessadores. “São de duas a três horas de viagem, mas depende também da chuva. Se tiver chovendo forte a gente atrasa por causa do vento”, comenta Gilmar.

Questionado sobre a paisagem que vê no trajeto ele resume dizendo que “é muito bonita”. “A gente vê peixe grande, vê boto”, descreve. O jovem barqueiro cursa o 3º ano do ensino médio e também vai para a escola em pequenas embarcações. “Lá a gente aprende a nadar cedo. Com dois anos de idade as crianças, novinhas, já estão tomando banho de rio, mergulhando e nadando”, prossegue, sobre como é a vida ribeirinha.

Waldete ressalta que Gilmar é o caçula de 5 filhos e todos têm uma relação estreita com os rios da região. “São nossos caminhos diários. Todos já sabem pilotar o barco e se precisar trazer o açaí, já sabem como fazer tudinho. Aprendem cedo”, comenta.

 

 João Martins
João Martins | Octavio Cardoso
 

O pescador João Martins, 45, também aprendeu a função cedo. Tinha apenas 12 anos de idade quando começou a navegar com o pai, também pescador. “Desde lá trabalho pelos rios. Já conheci todo o Marajó e também o Oiapoque (AP)”, comenta, em tom de orgulho por conhecer tantas cidades e culturas.

Durante o mês, João passa somente 6 dias em casa. O endereço fixo dele fica em Macapá (AP), mas é praticamente no ambiente das águas paraenses que ele vive. “São 20 dias navegando e pescando. Quatro dias é o tempo que a gente fica parado nos lugares para vender os peixes e comprar suprimentos”.

O pescador não tem relógio no pulso, se guia pelo sol e pela lua. “A minha única preocupação é com a chuva por causa da navegação. Quem mora em Belém teme a chuva por causa dos alagamentos, nós pescadores temos medo por causa da navegabilidade. Os ventos fortes não nos deixam em segurança”, ressalta João. Para ele, a baía do Marajó é a que tem as ondas mais fortes, o que sempre deixa ele e seus colegas em alerta. “Joga muito”.

 

Raimundo Santos
Raimundo Santos | Irene Almeida
 


Os rios que banham Belém também são caminhos que levam ao arquipélago do Marajó. O pescador Manoel Raimundo Santos, 67, conhece os acessos que têm entre furos, igarapés e baías. Ele trabalha como atravessador de cargas, principalmente do açaí produzido no município de Chaves. “São 12 horas de viagem, faço este percurso de 3 a 4 vezes por semana”, disse.

Apesar de gostar da cidade e ter na relação comercial com Belém a renda para sustentar a família, o barqueiro não sente vontade de morar na capital. “Eu prefiro a minha casa, na Vila de São Pedro, lá em Chaves. A vida lá é mais calma, as coisas são mais baratas e tudo o que eu preciso a terra e o rio me dão”, destaca Manoel, ao falar dos alimentos que os ribeirinhos obtêm na natureza que os cerca.

 

Antônio Neves
Antônio Neves | Octavio Cardoso
 

O pescador Antônio Neves, 41, diz gostar mais da natureza do que de cidade. Natural de Barcarena, se encontrou na pescaria há seis anos. “Mas também atravessamos cargas, se preciso. Às vezes fazemos fretes para os produtores de açaí, para atravessar as rasas (espécies de paneiros) para vender em Belém”, fala, sobre os tipos de trabalho que desenvolve na embarcação, que estava atracada na pedra do Ver-o-Peso.

Antônio diz que quanto mais longe das cidades, mas limpa as águas dos rios ficam. “É uma paisagem linda, sem sujeira. Acho que as pessoas precisam conhecer o rio sem poluição para cuidar melhor dele. Tem até mais peixes”, enfatiza.

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