O domingo especial dedicado às mães também é uma oportunidade de mostrar que elas, cada vez mais, se afastam daquele rótulo antigo da mulher dedicada apenas aos afazeres domésticos. A necessidade de prover o sustento de casa e dos filhos leva muitas a trabalharem nas mais diversas profissões consideradas essenciais na pandemia, seja na saúde, segurança, saneamento, transporte público ou na feira. Mulheres que enfrentam desafios que vão do medo da contaminação pela Covid-19 até não deixar que falte nada para a família, ainda que a jornada seja árdua.
A enfermeira Kelly Guterres trabalha na linha de frente do combate ao novo coronavírus nos hospitais Barros Barreto e Ophir Loyola, tanto em Unidade de Terapia Intensiva quanto em enfermaria. Mãe da Gabrielly Luana, de 10 anos, a profissional é divorciada e mora com a filha e a avó da menina. “Eu preciso trabalhar, não tenho opção. Quando a pandemia começou fiquei muito assustada, não entendia a dimensão”, lembra ela, que foi contaminada no fim de abril do ano passado pelo novo coronavírus.
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“Foi na primeira onda, de forma moderada. Tive de tomar antibióticos, mas tratei em casa”, relata. Hoje vacinada, Kelly lamenta não poder chegar do trabalho e receber logo o carinho da filha, em virtude do risco de contaminação pelo vírus. “Antes disso, quando eu chegava, ela corria para me abraçar e esse hábito ela perdeu e eu sinto muito”, lamenta. “A primeira vez, o meu plantão tinha sido tumultuado. Perdi três pacientes com Covid-19 no mesmo dia. Nesse dia, ela veio e eu estendi minha mão e disse para ela não chegar perto de mim, que eu estava só o vírus. O semblante dela fechou, eu passei pro banheiro. Depois do banho, voltei e disse que ela já podia me abraçar”, continua. “Hoje ela sabe que não pode me abraçar logo que chego. Ela entende a gravidade da doença”.
Quando possível, o abraço de Gabrielly ajuda a amenizar o luto da perda do pai de Kelly pelo coronavírus, além de amigos e colegas de trabalho. “O Dia das Mães será um pouco triste, mas por outro lado me sinto feliz por estar viva, por ter saúde e poder criá-la, estar com a minha mãe. Me sinto feliz e privilegiada. Agradeço a Deus por essa possibilidade”, celebra.
SEGURANÇA
Na área da segurança pública, a soldado da Polícia Militar, Carol Silva, tem uma filha de 2 anos, Maitê Sales. A gravidez veio quando a mamãe já estava no curso de formação para entrar na corporação. A partir daí, o sonho de ter estabilidade com o concurso teve somado mais um anseio, o de prover uma vida melhor para a herdeira. “Tudo o que faço é pela minha filha. Entrei pensando em estabilidade, mas agora eu penso no futuro dela. Não é mais a minha estabilidade, ela vem em primeiro lugar”.

Carol é separada do pai de Maitê desde que ela tinha um ano e meio de vida. A mamãe policial notou que a filha mudou de comportamento após isso, mas ainda investiga se a situação está relacionada ao fato. “Ela está em um tratamento com fonoaudiólogo e psicólogo”, explica. A preocupação, aliada ao agravamento da pandemia, faz com que a policial deseje um presente especial de Dia das Mães, ainda que ele não venha neste domingo. “Queria a minha filha vacinada contra a Covid de presente. Eu já estou imunizada, mas eu queria ela também. Tenho medo que ela se contamine, não sei os sintomas que podem dar e as consequências. O melhor presente é a saúde da minha filha”, considera.
Sobre a preocupação com o trabalho que exige ir para as ruas garantir a segurança da população em meio aos riscos da violência urbana, a soldado se mostra forte. “Eu trabalho no administrativo, mas tiro serviço extra na rua, fora a proximidade com outros policiais que entram em contato com várias pessoas”, pontua. “Nosso trabalho é essencial. Medo, quem é mãe sente, de deixar o filho desamparado, mas enfrento”, avisa.
Limpeza urbana
O uniforme de agente de serviços urbanos é vestido com orgulho por Bianca Nunes Gonçalves há cerca de dez anos. O trabalho de gari nos espaços públicos ajuda a garantir o sustento das duas filhas, Andreza Beatriz e Adrielly da Silva, de 14 e 10 anos, respectivamente.

“Desde que eu comecei a trabalhar, as ensinei a serem independentes, tomarem banho sozinhas”, conta Bianca. “A mãe do meu esposo mora em frente e ajuda, a minha já faleceu. Ele trabalha na construção civil. Hoje em dia a gente tem que preparar os filhos da gente para o mundo, que está cheio de maldade”, avalia. “Fico ligando, procuro saber como elas estão. Elas estudam, a mais velha quer ser médica. Acho que a gente tem que incentivar com dignidade, esforço. Quero o melhor para elas”, afirma.
“Tenho um sonho delas passarem no vestibular para nos dar esse orgulho. A Andreza fez um trabalho na escola sobre limpeza, como eu trabalho nessa área, ajudei. Ela se saiu tão bem que tirou nota maior do que valia”, conta orgulhosa. “Não tenho vergonha do que faço, nem elas. Todo trabalho é digno”.
Bianca aproveita a vivência para deixar sua mensagem neste dia especial. “Muitos filhos não valorizam a mãe que têm. Que eles possam valorizar mais. Tem muito filho que é ingrato. Eu não tenho mais a minha mãe, mas fiz tudo por ela. A gente faz esforço para criar os filhos e muitos nem ligam”, critica. “As minhas filhas são carinhosas”, agradece.
Transporte
O trabalho como motorista por aplicativo foi a solução encontrada pela mãe Elisangela Dias para superar o luto pelo marido e manter a criação dos filhos Davi e Augusto Palmeira, de 14 e 12 anos, respectivamente. “É o meu primeiro trabalho. Me formei como técnica de enfermagem, casei com 17 anos e depois de dez anos decidi com meu marido ter filhos”, explica. “Ele faleceu vão fazer dez anos. Teve várias complicações de saúde e eu era muito dependente dele”.

Sem a renda do pai dos meninos, que tinha uma firma e atuava na área portuária, Elisangela viu o patrimônio se esvair e precisou assumir toda a responsabilidade da família. “Recebo pensão, mas não supre minhas necessidades. Esse é o primeiro ano que eles vão estudar em escola pública”, relata. “Quando apareceu a Uber, comecei a trabalhar até como válvula de escape, inclusive fim de semana, feriado”.
O trabalho no transporte de passageiros, na pandemia, é um risco, já que apesar de higienizar o veículo, por vezes quando um cliente sai o outro já embarca, fora a relutância de alguns em permanecer com o vidro baixo, entre outros problemas. “Como não fiz o teste, acredito que peguei Covid-19 na primeira onda, depois meus filhos adoeceram também, mas com sintomas leves. Agora em fevereiro tive de novo, com certeza. Não sei se foi de passageiro, mas eu tive falta de ar, dor de cabeça”, informa, antes de citar os perrengues do volante. “Já fui assediada, tive uma amiga do trabalho agredida. Sei de muitos assaltos”.
O sacrifício em prol dos filhos, contudo, é recompensado. “Eles não dão trabalho. Eu não bato, mas castigo, deixo sem jogos, que é o que eles gostam, se não forem bem na escola”, afirma. “Eles não são de ir para a rua. O mais velho quer ser médico e morar nos Estados Unidos, com uma tia. Disse que um dia vem me buscar. Não vou tirar esse sonho dele. Minha mãe é contra, não quer. Também me dói, mas é para o bem dele”, planeja.
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