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CONFLITO INTERNACIONAL

Paraenses relatam vida entre mísseis em Israel

Paraenses e pernambucanos que moram em Israel relatam os dias de tensão vividos no país durante o conflito mais recente com o povo palestino, mas garantem que não pensam em voltar ao Brasil

segunda-feira, 24/05/2021, 08:01 - Atualizado em 24/05/2021, 09:43 - Autor: Luiz Octávio Lucas


Célio e família no bunker de proteção, onde passam parte do tempo
Jacob Serruya considera ainda Israel tranquila para se viver
Mário Tito analisa o conflito entre Israel e Palestina
Célio e família no bunker de proteção, onde passam parte do tempo Jacob Serruya considera ainda Israel tranquila para se viver Mário Tito analisa o conflito entre Israel e Palestina | Divulgação

 A chamada de voz pelo WhatsApp da reportagem do DIÁRIO para Mariana Larrat, 23 anos, é atendida pela estudante paraense com voz de choro e de dentro de um hospital em Rehovot, Israel, distante 76 quilômetros da Faixa de Gaza, local centro dos conflitos dos últimos dias entre Israel e o Hamas, movimento islamita palestino. “Desculpa, não tenho como falar agora, estou muito nervosa”, justifica, enquanto ao fundo toca uma sirene audível em toda a cidade.

O nervosismo de Mariana tem origem nos barulhos de mísseis e som da sirene que avisa aos moradores que estão sob ataque e que é preciso se proteger em um bunker, local reforçado, construído para situações de perigo. A chamada só é retomada algumas horas depois, pela paraense que mora em Israel há 2 anos e meio e está em plena licença-maternidade do bebê de 2 meses.

“Moro a 1h20 da Faixa de Gaza, bem no centro do conflito. Naquela hora vim para o hospital porque estava com muita crise de estresse, desmaiando”, explica. “Estava fazendo uma ressonância no hospital quando na hora tocou a sirene e tive que correr para o bunker”, relata Mariana, que ouviu seis mísseis caírem em cidades vizinhas em um espaço de dez minutos. “Escuto o dia inteiro os aviões passando, as explosões dos mísseis. A casa treme. Sou uma pessoa ansiosa e isso aumentou bastante, uma crise de estresse”, lamentava antes do cessar-fogo de sexta-feira (21). “Estou com um bebê e não sei o que vai acontecer. Fiquei uma semana dormindo na sala porque é mais perto da porta da rua. Na cidade em que moro, há oito anos não tocava a sirene”, continua.

O marido de Mariana é sargento das Forças Armadas de Israel e está de licença paternidade. “Ele quer ir (para o combate), o uniforme está arrumado, mas eu não estou muito feliz com a ideia”, conta. Apesar de toda a apreensão, a estudante paraense nem pensa em voltar para o Brasil. “Aqui, mesmo com esses mísseis, se morreram dez pessoas foi muito. Sinto que estou protegida. É diferente do Brasil, onde morrem milhares por violência. Meus sogros moram na Faixa de Gaza e receberam pessoas que não conhecem e se sentem seguros”, exemplifica sobre a disparidade entre as nações. “Sou judia. A minha cidade não tem muitos árabes, mas a cidade ao lado, Lod, tem muitos conflitos, tem muitos árabes e chegaram a fechar a estação de trem”, cita, sobre a cidade onde está localizado o Aeroporto Internacional Ben Gurion, a principal porta de entrada para Israel.

“Temos que estar prontos, porque de repente se precisa correr”

Em Nahariya, ao Norte de Israel e na fronteira com o Líbano, o também paraense Jacob Elias Serruya, 57 anos, compartilha da aflição pelo clima hostil vivido nas últimas semanas no país. “Na região Norte foram seis misseis interceptados. Temos que estar prontos, dormindo de roupa, com mochila preparada com tudo, medicamento, alimentos, porque de repente se precisa correr”, explica.

Jacob se mudou com a esposa e o filho para Israel em 2019 e tenta seguir a rotina, apesar da tensão. “Continuamos trabalhando normalmente, filho na escola. O Iago mora do lado da Escola. Se tocar a sirene, ele está seguro lá”, acredita. “No prédio em que moro tem bunker, mas moro no quarto andar e torço para a sirene não tocar. Estamos sobressaltados, em alerta, mas não temos vontade de voltar ao Brasil. Aqui conseguimos ter uma boa qualidade de vida. Vou fazer 58 anos, minha idade não é valorizada no Brasil”.

Sobre o conflito, o paraense, que é judeu, faz suas considerações. “As pessoas estão com receio. Aqui se vivia na paz entre árabes e judeus. Creio que 90% dos meus amigos são árabes, eles não mudaram comigo, mas não tocamos nesse assunto. É bem complicado. Vejo na rua o clima. A gente percebe que tem uma desconfiança”.

 

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O pernambucano Mario Roberto Melo exerce as funções de engenheiro mecânico e colabora com uma rádio jornal do estado natal com notícias de Israel. Também morador de Nahariya, com formação em Direito no Brasil e a experiência de quem mora no país do Oriente Médio há 30 anos, o correspondente explica que a situação é mais tensa no Norte. “Tem conflitos entre judeus e árabes israelenses, muito vandalismo, muita destruição e muita gente ferida de ambos os lados”, analisa.

“Mas isso não é a mentalidade de todos os árabes e de todos os judeus. São aquelas pessoas com tendências criminosas, agressivas, que em toda sociedade existe”, opina. “Do lado dos judeus têm aqueles radicais de direita que são intransigentes na questão da terra. A maior briga começa nessa raiz que se chama terra. Pela propriedade de dizer Jerusalém é minha, é sua, e ninguém quer dar”, continua. “A grande pergunta é quem está certo em relação a Jerusalém? Acho que a parte oriental, os judeus não têm o que fazer ali. Existe na minha concepção um direito adquirido. Ali não mora um só judeu na região, mas as pessoas com experiência dizem que, no momento que tiverem ‘dando a mão, eles (palestinos) vão querer o braço. Querem toda Israel. Os judeus pensam assim”, diz.

“Acredito que para tentar um acordo de paz, Israel teria que ceder a parte oriental de Jerusalém e pedir a Deus que desse bom senso aos palestinos para que recebam o que sempre quiseram e que vivam em paz com isso. Mas, acho muito difícil de acontecer, porque essa crise ‘ressuscitou’ Benjamin Netanyahu (primeiro-ministro) que torna as coisas bem mais difíceis. A extrema-direita e direita é contrária a negociar as terras. Pelo contrário, sempre querem adentrar um pouco mais na Cisjordânia (território palestino) e tentar a colonização. A gente não tem o que fazer ali”, afirma.

Contudo, o pernambucano critica o Hamas. “A forma com que eles atacam Israel é definida como terrorismo, porque eles têm um único objetivo de atingir o povo judeu”, acusa. “Um único tiro sequer foi dado contra as forças armadas que estão na fronteira com a Faixa de Gaza. Todos os alvos deles são as cidades. Se não fosse o Domo de Ferro, mais de 3,5 mil mísseis teriam caído nas cabeças dos civis”.

Mario Roberto considera que Israel visa como alvos somente os militantes do Hamas ou Jihad Islâmica. “Quando estão com os aviões prontos para disparar e os agentes de informação que se encontram na Faixa de Gaza observam que existem pessoas inocentes daquela área, informam ao piloto para parar a operação”, assegura. “Sempre há perdas dos dois lados, principalmente porque o Hamas dispara de prédios com crianças dentro. Aí as forças armadas identificam de onde saiu e revidam e morrem crianças. Fazem como se fosse de propósito para ter apoio da mídia internacional”, avalia.

Sirene de emergência toca no meio da entrevista pelo whatsapp

Em Ashkelon, no Sul de Israel e distante 43 quilômetros da Faixa de Gaza, outro pernambucano, o economista Celio Gandelsman, morador da cidade há quase dois anos, afirma que os mísseis enviados em direção a Israel são para atingir civis. A entrevista, também via WhatsApp, precisou ser interrompida pelo toque da sirene e a necessidade do brasileiro correr para se proteger em um bunker com a família, local onde permaneceu por mais tempo nos últimos dias, até o cessar-fogo. “Isso é uma pena que esteja acontecendo com o nosso povo. Não sei se vocês estão ouvindo a sirene, mas é isso, o tempo todo na sua cabeça. Imagina isso nas cabeças das crianças?”, questiona ele, que precisou deixar uma das filhas, de 16 anos, na escola, nos dias de conflito, por segurança, em uma cidade mais tranquila do país. “Quando se tem um quarto de segurança blindado no seu apartamento, você fica mais tranquilo e com mais segurança, por conta da agilidade que se tem de, em 30 segundos, quando toca a sirene, correr para esse quarto. É um problema para os prédios mais antigos, que não tem esse quarto dentro dos apartamentos”, explica. “Aí você tem que ir para a escada, que serve como bunker, caso caia uma bomba ou míssil”.

 

| Reprodução
 


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