Estrategicamente posicionada dentro do espaço urbano da cidade de Belém, a avenida Presidente Vargas guarda, em vários elementos presentes ainda hoje, as diferentes etapas do desenvolvimento da cidade ao longo do tempo.
Doutor em história e professor da Universidade do Estado do Pará (Uepa), Amilson Pinheiro aponta que a avenida Presidente Vargas tem um lugar estratégico para a cidade e uma história de muita importância para a geopolítica para a cidade. “É preciso lembrar que, na época, os dois primeiros núcleos urbanos de Belém eram o bairro da Cidade, que depois ficou conhecido como bairro da Cidade Velha, e o bairro de Campina, e a partir da Campina começaram a surgir algumas travessas que adentravam na mata mesmo e uma dessas travessas era chamada Travessa dos Mirandas”.
O historiador lembra que, à época, muitas dessas travessas mais isoladas eram denominadas por nomes de moradores importantes do lugar, como é o caso da Travessa dos Mirandas, que vai dar origem à avenida Presidente Vargas. “A gente já encontra em alguns mapas de Belém a partir do século XVIII essa denominação Travessa dos Mirandas, que eram moradores desse lugar que vai dar origem à avenida, depois”, considera. “A gente percebe que esse caminho, essa travessa que chegava aonde hoje é a Presidente Vargas, levava a um primeiro lugar em que ficavam armazenados materiais inflamáveis. Por isso, aquela região era conhecida como Largo da Pólvora, que posteriormente seria a Praça da República. Esses são os primeiros aparecimentos desse espaço a partir do século XVIII em diante”.A partir do século XIX, ocorre uma definição maior da avenida, sobretudo a partir de um processo de reordenamento urbano que a cidade vai passar a partir da segunda metade do século XIX. Com isso, Amilson Pinheiro aponta que a avenida passa a ser um espaço de ligação entre os primeiros dois núcleos que havia na cidade, que era o núcleo dos bairros da Cidade e da Campina e um novo que surgia com o processo de crescimento e reformas urbanas que iniciou a partir da segunda metade do século XIX. “No século XIX ela passa por um processo de ampliação e se muda o nome. Já na segunda metade do século XIX há um decreto da Câmara Municipal de Belém que institui, a partir de 1877, o nome como Avenida 15 de Agosto”. A mudança foi para homenagear a data da adesão do Pará à independência do Brasil.
O historiador reforça que, já no final do século XIX, Belém está passando por um processo de intensas reformas e melhorias urbanas, que é o processo da Belle Époque, da economia da borracha. Não à toa, logo após a oficialização do decreto que muda o nome e amplia a avenida, se tem a conclusão da primeira etapa da obra de construção do Theatro da Paz, que é um importante marco para aquele espaço. “Nesse final do século XIX e início do século XX, a avenida 15 de Agosto vai ser um lugar que vai ser muito utilizado dentro dessa política da Intendência Municipal de Belém como um espaço, de fato, elitizado, de uma elite abastada economicamente. Então, se amplia a avenida que vai se tornar muito larga, é instituído, com o Antônio Lemos, esse corredor das mangueiras que a gente vê hoje e a avenida é bastante incorporada nesse processo de modernização e urbanização”, aponta o historiador.
SÉCULO XX
Além da construção do Theatro da Paz, a Praça da República passa por uma reforma muito grande e por um processo de embelezamento. Há, ainda, a inauguração do Cinema Olympia em 1912 e a construção de um importante hotel, que é o Grande Hotel, inaugurado em 1913. “Ao longo do século XX se levou uma série de serviços para a avenida, com os cafés, os teatros, hotéis, então, ela passou a ser um centro e uma avenida muito bonita”, considera Amilson Pinheiro. “Existem vários tipos de relatos nesse sentido, como, por exemplo, o do Mário de Andrade falando que aquela era uma rua fantástica”.
O professor Amilson aponta que, a partir da década de 40, a avenida 15 de Agosto emerge novamente neste cenário de um importante espaço econômico e político para a cidade, o que pode ser explicado por dois importantes fatores. “Primeiro, pela questão da mudança política do país, sobretudo com a ascensão do Getúlio Vargas, que tem um projeto de modernização, urbanização e de desenvolvimento industrial para o país. Esse projeto urbanístico do Vargas vai impactar também Belém”, contextualiza. “Segundo, porque a partir da década de 40 também há um segundo esforço em relação à borracha. O Pará volta a se inserir nesse cenário de importância da exploração do látex para a Segunda Guerra Mundial e, aí, novamente, a 15 de Agosto passa a estar no centro dessa questão e centraliza os principais projetos de modernização da cidade”.
Já nas décadas de 50 e 60 se vivencia um importante processo de expansão na avenida. Um apontamento importante é que é na década de 50 que o nome da avenida muda para o atual. “Com o suicídio de Getúlio Vargas em 1954, ele que teve um papel importante dentro desse projeto de urbanização, industrialização e modernização do país, ocorre a homenagem. Tira-se o nome 15 de Agosto e resolve-se mudar o nome da avenida para Avenida Presidente Vargas”.
Já sob essa nova perspectiva tem continuidade da construção de vários prédios que ainda hoje são emblemáticos da avenida, como o Edifício do Rádio e, em 1951, o Edifício Manuel Pinto da Silva. Outra característica importante que surge com esse processo de verticalização é que grande parte desses prédios instalados na Presidente Vargas tem uma função dupla de moradia e também comercial. “Já na década de 60 em diante há uma nova perspectiva de mudança no que seria o sentido de morar. Nas décadas de 60 e 70, essa elite, a classe mais abastada de Belém, acaba construindo novas maneiras e novas formas de morar que não mais no centro comercial, por exemplo”, aponta o historiador. “A avenida passa a assumir esse papel muito mais comercial e de serviços, com mais prédios de bancos, prédios públicos e menos moradias, e segue até hoje”.
O sapateiro José Augusto Braga, 46 anos, foi apresentado à movimentação da Presidente Vargas pelo pai, com quem aprendeu o ofício. “Eu trabalhei com o meu pai por 22 anos, sempre aqui na Presidente Vargas. Foi com ele que eu aprendi a profissão”, lembra. “Depois que ele morreu, há oito anos, eu só mudei de quarteirão, mas continuo trabalhando aqui na Presidente Vargas”.

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