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"UM HOMEM COM ASA NOS PÉS"

Recordista em viagens pelo mundo esteve em Belém; conheça!

Mesmo tendo problemas de locomoção, o Luiz Thadeu conhece 143 países nos 5 continentes do mundo. No Brasil, dá palestras e é uma voz ativa da inclusão social de pessoas com deficiência.

terça-feira, 29/03/2022, 08:43 - Atualizado em 29/03/2022, 09:01 - Autor: Lucas Contente

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O viajante na Estação das Docas, Belém
O viajante na Estação das Docas, Belém | Foto: Arquivo pessoal

Viajar muito está entre os grandes sonhos dos seres humanos. O descobrimento do novo é uma das principais características da sociedade, indo desde curiosidades simples por outros lugares até a chegada do homem na lua.

Para o maranhense de 63 anos Luiz Thadeu, essa necessidade de viajar e sempre realizar novas descobertas, vêm sendo seu mantra de vida desde 2009. Vítima de um grave acidente de carro, em que colidiu com um caminhão em 2003, as salas de cirurgia e os leitos hospitalares eram os únicos lugares que o engenheiro-agrônomo visitava.

 

Luiz Thadeu no taj mahal, índia
Luiz Thadeu no taj mahal, índia | Foto: Arquivo pessoal
 

Recuperado e precisando andar permanentemente de muletas, Luiz começou suas viagens de forma despretensiosa, indo visitar um de seus dois filhos na Irlanda, onde fazia intercâmbio. De lá para cá, foram passagens por 143 países em todos os continentes, tornando-se o homem com mobilidade reduzida que mais viajou ao redor do planeta, conforme o livro dos recordes.

“Sempre gostei muito de viajar, e antes do meu acidente, eu já conhecia um pouco do mundo. Conhecia os Estados Unidos, a Europa e a Argentina, o que todo brasileiro iniciante (em viagens) conhece, Nova York, Miami, Buenos Aires e Portugal. Isso é o que todo mundo que começa a viajar para fora conhece, depois, começa a conhecer outros roteiros”, revelou.

 

Brasileiro com a Torre Eiffel no fundo, França
Brasileiro com a Torre Eiffel no fundo, França | Foto: Arquivo pessoal
  

TRABALHO, VIAGENS  E  PROMOÇÃO DA INCLUSÃO SOCIAL 

Em 2006, foi instituído o projeto de lei para a criação do Estatuto da Pessoa com Deficiência no Brasil, até que nove anos depois em janeiro de 2016, entrou em vigor a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência nº 13.146/2015, também conhecida como Estatuto da Pessoa com Deficiência, que trata da acessibilidade e da inclusão em diferentes aspectos da sociedade, sendo um importante amparo para a efetivação de uma sociedade mais inclusiva. 

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Viajando o país inteiro divulgando suas proezas e dando palestras e promovendo a inclusão social de pessoas com deficiência, o maranhense passou por Belém nesta semana. Aqui, ele nos explicou que hoje tem um projeto de virar um case jornalístico, indo de lugar em lugar contando suas histórias de superação, dando palestras e sendo motivo de inspiração para muitas pessoas. Além disso, Luiz Thadeu lançará um livro contando um pouco da sua trajetória.

 

Maranhense no Forte do Castelo, Belém
Maranhense no Forte do Castelo, Belém | Foto: Arquivo pessoal
  

“Vai ser lançado um livro agora em maio, o livro se chama: 'Um homem com asa nos pés'. Por que esse título? Há uma limitação que era para eu estar em casa amargurado, falando mal da vida, falando ‘porque o Lucas tem a perna boa e eu não tenho?’ ‘porque o vizinho faz isso e eu não faço’. Então eu procurei conhecer e mostrar o mundo porque eu passei tanto tempo preso a leitos hospitalares, e foi uma maneira que eu encontrei de me reinventar. Outra coisa, eu tenho um 'slogan' de vida que se chama ‘terra, aproveite enquanto está em cima dela’, pois o tempo vai passar”, disse.

No Brasil, de acordo com dados do último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), há aproximadamente 45 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, porém, poucos estão inseridos no mercado de trabalho. 

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Segundo os dados mais recentes da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) divulgado pelo Ministério da Economia, dos 46 milhões de vínculos de emprego formal, somente 486 mil estavam direcionados às pessoas com deficiência, ou seja, menos de 1%.

PLANEJAMENTO: SER UM VIAJANTE!

 

Luiz Thadeu no Egito
Luiz Thadeu no Egito | Foto: Arquivo pessoal
  

Uma das perguntas que mais são feitas ao nordestino, é como ele fez e faz para conhecer tantos lugares em pouco tempo. De acordo com ele, o principal é uma mudança de mentalidade: mesmo nas viagens, ter em mente que é sempre preciso poupar para as próximas viagens.  

“Para quem gosta de viajar tem dois tipos de pessoas, tem o turista e o viajante, eu sou o viajante. O turista é o cara que trabalha 11 meses, ele vai lá, poupa durante esse período, tira as férias, e vai gastar tudo que poupou durante o ano, já o viajante é aquele que vive com o olho no calendário, porque em três dias, dá para ele ir em Buenos Aires e voltar”, revelou.

"SONHOS GRANDES, BOLSO RASO"

 

Luiz Thadeu em uma de suas viagens para Dubai.
Luiz Thadeu em uma de suas viagens para Dubai. | Foto: Arquivo pessoal
  

Sobre a questão financeira, Luiz avisa que não é o mais importante. Engenheiro-agrônomo aposentado, o maranhense foi adquirindo imóveis durante a vida e começou alugá-los, utilizando a renda para custear suas viagens.

“Uma das perguntas que as pessoas fazem quando eu faço palestra é: ‘você é rico?’. Não, eu não sou rico, não sei nem o que é ser rico, eu vejo as pessoas falarem umas coisas aí tão fora da minha realidade, se eu tivesse 30% do que esses caras estão falando eu seria milionário. O que eu fiz, com essa volta ao mundo em 143 países, a maioria das pessoas fariam 3, 4 vezes mais caro que eu”, disse.

O VIAJANTE CONVERSOU COM O REPÓRTER LUCAS CONTENTE E FALOU SOBRE ALGUMAS EXPERIÊNCIAS EM SUAS VÁRIAS VIAGENS. CONFIRA:

P: QUAL A SITUAÇÃO CONSIDERADA MAIS PERIGOSA QUE VOCÊ JÁ PASSOU ENQUANTO ESTAVA VIAJANDO? 

R: Meu filho de 33 anos andou comigo por 80 países, nós descemos nas Ilhas Maurício, no norte da áfrica, descemos no aeroporto, já estava escurecendo, e escolhemos o carro para alugar. Nesses lugares, você não anda se não for com um carro, porque é tudo isolado, e lá é um local de receber turistas só para resorts. Meu filho disse ‘pai, nós vamos alugar o GPS?’, eu perguntei quanto era o GPS, ele disse serem 30 dólares, falei não, vamos economizar os 30 dólares. Nós não alugamos o GPS, não existia nisso aqui (celular), isso foi há 8 anos.

Aí nós saímos do aeroporto, fechou o tempo e escureceu, porém, nós tínhamos um desenho de como chegar no resort. Andamos, andamos, andamos e nos perdemos em um canavial, e assim, no canavial você não tem um norte, para onde você anda, só vê cana, mas Deus existe, nós olhamos uma luz longe, e, nessa altura eu disse ‘frederico, vamos parar ali, meu filho, que deve ter algo, e era uma merceariazinha, o cara, o cortador de cana, tinha acabado de cortar e estava tomando uma cachacinha lá no local, aí falamos com ele, ele perguntou para o meu filho em inglês se poderíamos dar uma carona para ele, aceitamos.

Quando ele entra, chama outra pessoa, todos os dois com um facão na mão, estavam cortando cana né, aí eu disse ‘Frederico, não vão achar o corpo, meu filho’, aí ele ‘pai, calma’, e eu disse, ‘mermão, acabou’. Depois eu fui ler, e descobri que nas Ilhas Maurício, o nível de violência é próximo de zero, como no Butão, espiritualidade, é buda, lá eles são zenbudistas. Os caras nos levaram quase no resort, e foi uma das maiores perrengues que já passei.

P: MESMO TENDO VIAJADO POR VÁRIOS PAÍSES, VOCÊ CONSIDERA O BRASIL UM BOM DESTINO PARA OS VIAJANTES? 

R: O Brasil é o lugar mais fantástico da terra. O melhor do Brasil é o brasileiro e o pior do Brasil é o brasileiro. Nós somos fantásticos, muito criativos, mas nos deixamos levar pela ganância, temos muita corrupção, nós mesmos tornamos o nosso país feio. Eu sou louco e apaixonado por esse país, ando o mundo todo, mas minha casa é o Brasil. Eu tenho um apartamento nos Estados Unidos, mas pergunta se eu vou morar lá? Não, só para passear. Porque viver aqui é bom. A comida é boa, mulher inigualável no mundo é a brasileira. Seu convívio é aqui, quando você sai, perde a noção das coisas, você vai ser só mais um lá fora, então o que nós temos que fazer, é incentivar o turismo interno, segundo, mostrar a nossa viabilidade como país. O Brasil é tão pobre, que recebe 6 milhões de visitantes por ano, Paris recebe 60 milhões. Como uma cidade recebe dez vezes mais pessoas do que um país deste tamanho?

P: SOBRE BELÉM, QUAL LUGAR VOCÊ MAIS TEM INTERESSE EM CONHECER NA CIDADE?

R: Me falaram que para atravessar ali (ilha do Combu), custa 10 reais, eu vou atravessar, conhecer pessoas lá que vão me apresentar o mundo de uma forma muito diferente. 

P: O FATO DE VOCÊ NÃO FALAR INGLÊS JÁ TE PREJUDICOU EM ALGUMA VIAGEM?

R: Na minha vida eu tenho 3 limitações, uma adquirida, por conta da perna, a segunda é que eu não falo inglês e ando o mundo todo. Porém, pelo fato de não saber falar inglês, eu nunca comi o que eu não quis, eu nunca me perdi em viagem, mas já tive perrengues. 

P: ALÉM DE VIAJAR, QUAL É O OUTRO PROPÓSITO DA SUA VIDA?

Além de ser estudante de Jornalismo e escrever para mais de 20 jornais brasileiros e um de Angola, eu dou palestras, principalmente em hospitais, porque você sabe que antes da pandemia do coronavírus nós já estávamos vivendo uma pandemia mundial  que é a de depressão e ansiedade, já estava antes e agora piorou com o coronavírus. E hoje mostro para as pessoas que eu, com minhas limitações, eu consigo fazer o que eu faço então qualquer um pode fazer.

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