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ALIMENTAÇÃO

Carne começa a sumir dos pratos feitos e quentinhas

A proteína acumula sucessivos aumentos e dói não apenas no bolso do consumidor, mas de quem trabalha vendendo comida pelas ruas de Belém. O jeito é diminuir a quantidade nos pratos ou investir em outros sabores

domingo, 08/05/2022, 05:18 - Atualizado em 08/05/2022, 05:17 - Autor: Cinthia Magno/Diário do Pará

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"Tem dias que a gente vende bem e outros que não. Assim a gente vai levando”, diz a autônoma Danielle Garcia
"Tem dias que a gente vende bem e outros que não. Assim a gente vai levando”, diz a autônoma Danielle Garcia | Mauro Ângelo - Diário do Pará

Se analisados os preços cobrados pela carne bovina nos últimos doze meses (março de 2021 a março de 2022) em Belém, o que se constata é um reajuste acumulado que chegou a quase 11%. Na prática, o que o percentual apontado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) significa é o que os trabalhadores já perceberam há algum tempo: o preço da carne vermelha disparou. Como consequência, o produto já começa a diminuir de quantidade e a ser substituído em quentinhas e pratos feitos vendidos na capital paraense.

ESTRATÉGIA

 

Sentimos muito esse aumento na carne, mesmo trabalhando dentro do Mercado. A gente vai tentando substituir, mas o peixe também está muito caro, então, a verdade é que a gente vai empurrando com a barriga”

Nazaré Martins, autônoma
Sentimos muito esse aumento na carne, mesmo trabalhando dentro do Mercado. A gente vai tentando substituir, mas o peixe também está muito caro, então, a verdade é que a gente vai empurrando com a barriga” Nazaré Martins, autônoma | Mauro Ângelo - Diário do Pará
  

No quadro fixado na entrada do pequeno restaurante instalado dentro do Mercado de Carne do Ver-o-Peso, a variedade de proteínas listadas é a amostra de uma das estratégias adotadas pela autônoma Nazaré Martins, 60 anos, para driblar o alto preço da carne vermelha. Além da opção da carne assada, que não se pode abrir mão, os clientes ainda podem escolher entre a dourada frita, costela assada, guisado de porco, fígado, frango guisado, calabresa acebolada e charque com ovo. “A gente tem que inventar. A gente tenta dar mais opções para diminuir a quantidade de carne vermelha, mas abrir mão totalmente não tem como. Os clientes cobram a carne”.

Nazaré trabalha com a venda de refeições desde os 22 anos de idade e conta que não se lembra de um período anterior em que a situação esteve tão complicada como a atual. Ainda que o preço da carne tenha subido muito, ela lembra que outras proteínas, como o próprio peixe e até mesmo o charque, também estão com preços muito elevados, o que também ajuda a diminuir a margem de lucro. “Sentimos muito esse aumento na carne, mesmo trabalhando dentro do Mercado. A gente vai tentando substituir, mas o peixe também está muito caro, então, a verdade é que a gente vai empurrando com a barriga”.


Apesar do movimento razoável no restaurante em dia de semana, a autônoma lembra que a demanda de refeições no local diminuiu bastante. O que tem ajudado a segurar as contas, atualmente, são as quentinhas vendidas por delivery. Ainda assim, ela conta que na maioria das vezes acaba gastando mais para produzir as quentinhas, do que lucra com o negócio. “A gente mais paga do que leva para casa. O custo está muito caro mesmo”, considera. “Mas a gente continua vendendo a refeição por R$15. Não tem condições de aumentar porque, se não, o cliente não compra”.

Outra saída encontrada por Nazaré para não perder os clientes foi fazer uma versão reduzida dos PFs e das quentinhas, com uma quantidade menor de comida, para que pudesse vendê-los a R$10 e R$12, dependendo da proteína escolhida. “Tem que diminuir a comida para vender mais barato”.

 

Messias Barros
Messias Barros | Mauro Ângelo - Diário do Pará
 

A necessidade de reduzir a quantidade de proteína que vai para o prato também precisou ser adotada pelo autônomo Messias Barros, 56 anos. Para que conseguisse manter o preço do PF a R$15, ao invés de três pedaços de carne, ele passou a servir apenas dois por refeição. “A gente teve que diminuir a quantidade porque não tinha outra saída. Ao invés de três pedaços, coloca dois de carne. Se o cliente reclama, a gente precisa explicar a situação como está e, se ele quiser que coloque mais carne, a gente oferece a opção de cobrar um pouco a mais”.

A lida com o preço elevado da carne vermelha faz parte da rotina de Messias mesmo antes de ele começar a trabalhar com a venda de refeições. Açougueiro no Mercado de Carne, ele conta que, neste ano, precisou migrar de ramo para conseguir manter a renda, já que o preço cobrado pela carne desde o fornecedor dificultou as vendas no açougue. “O fornecedor que deixa a carne aqui (no Mercado de Carne) vem de manhã deixar o produto e no final da manhã eles já voltam para receber o valor, com isso a gente só tinha como vender para o cliente à vista, não tinha como vender no cartão porque no mesmo dia já tem que pagar o fornecedor”, conta. “Aí ficou muito complicado, ficou difícil mesmo. Tanto é que eu mudei de ramo, pelo menos por enquanto”.

Se o alto custo de produção estivesse relacionado apenas ao preço da carne vermelha, Messias considera que a solução poderia ser até mais fácil. O problema apontado por ele, porém, é que praticamente todos os insumos necessários para a venda de refeições também estão com os preços nas alturas. “Está tudo caro! Até mesmo os legumes que a gente tem que ter no PF estão caros e é o tipo de coisa que a gente não pode abrir mão. Nós trabalhamos sempre com três tipos de saladas cruas e cozidas, para ver se compensa a questão da carne, mas como as verduras também estão caras, o retorno acaba sendo pequeno mesmo”.

No caso da autônoma Danielle da Silva Garcia, 32 anos, a situação também não é muito diferente. Ainda que o preço da carne vermelha esteja pesando nos gastos, ela conta que não tem como abrir mão dessa proteína nas refeições que vende. “A maioria dos clientes preferem a carne mesmo, então, não tem jeito de não ter a carne porque, se não, não vende. Apesar da gente trabalhar bastante com o peixe, o frango e o charque, a carne não pode faltar”, considera. “Está muito caro mesmo, a gente sabe, mas a gente tenta ir apertando de um lado e de outro para não deixar faltar. Tem dias que a gente vende bem e outros que não. Assim a gente vai levando”.

 

| Divulgação
  

ALTA

INFLAÇÃO

O último balanço divulgado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) aponta que, no 1º trimestre deste ano (Jan-Mar/2022), a alta acumulada no preço do quilo da carne bovina chegou a 4,81%, contra uma inflação calculada em 3,42% (INPC/IBGE) para o período.

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