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Inhotim: natureza viva, arte desafiadora 

O jornalista Gerson Nogueira conta as impressões e experiências no parque museu Inhotim, durante abertura do 15º e-mundi – Encontro Mundial da Imprensa/Edição Nacional

quarta-feira, 11/05/2022, 16:22 - Atualizado em 11/05/2022, 16:20 - Autor: Gerson Nogueira

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Imagem ilustrativa da notícia: Inhotim: natureza viva, arte desafiadora 
| Gerson Nogueira

Era mais um dia de ruidoso alvoroço em Inhotim, com sua floresta exuberante entremeada de galerias, obras vivas e instalações artísticas de diferentes escalas e estilos. Em meio ao círio de visitantes, que peregrina pelos 140 hectares de labirintos de plantas e flores, chega-se à constatação de que as reportagens sobre o maior museu a céu aberto do mundo não fazem justiça à realidade exposta aos olhos de todos. 

A manhã de sábado, 30 de abril, marcou o início da visitação promovida 15º e-mundi – Encontro Mundial da Imprensa/Edição Nacional ao parque-museu, sob a orientação fundamental do guia Junio Cesar da Silva, turismólogo que se tornou uma atração do lugar pelo conhecimento amplo dos caminhos e escaninhos de Inhotim. 

Um legítimo nativo de Brumadinho (MG), território montanhoso que abriga o museu e também as barragens da Vale no Córrego do Feijão, que soterraram 260 vidas há três anos. Por três dias, jornalistas convidados de todo o país puderam conhecer parte dos encantos de Inhotim.

Desde o arrefecimento da pandemia, o parque reabriu os portões e agora respira dias de efervescência, com a retomada das caminhadas e visitações que tornam seus jardins, lagos e pavilhões ainda mais vibrantes. 

Tunga, Matthew Barney, Hélio Oiticica, Robert Irwin, Rommulo Vieira Conceição, Adriana Varejão, Lucia Koch, Aleksandra Mir, Cildo Meireles, Yayoi Kusama. Nomes icônicos da arte contemporânea são atrações – algumas permanentes, outras temporárias – nas galerias do espaço idealizado criado pelo empresário Bernardo Paz em 2006. 

 

| Gerson Nogueira
 

O museu tem potencial para se autossustentar, mas por enquanto depende de aportes bancados por Bernardo, acima de R$ 35 milhões/ano, para se manter plenamente, combinado com recursos provenientes de patrocínios, doações de patronos e fundos internacionais. 

Reaberto desde 7 de maio do ano passado, Inhotim recebe 1.000 visitantes/dia, representando 20% de sua capacidade. O museu fica a apenas 25 minutos (de carro) do centro de Brumadinho. 

As máscaras continuam nos rostos, mas os olhos estão postos na exuberância riqueza visual do lugar. Em consequência da pandemia, Inhotim ampliou a disponibilidade de elementos virtuais nas galerias e mostras on-line, mas sem abrir mão da experiência presencial. 

TERRITORIALIZAÇÃO 

Do jardim das orquídeas à arte sempre transgressora de Tunga e distância é de menos de 200 metros. Pelo caminho é possível ver instalações e obras interativas, como a intrigante “O espaço físico pode ser um lugar abstrato, complexo e em construção”, de Rommulo Vieira Conceição. 

Segundo ele, tudo pode ser um espaço, “mas um lugar é criado à medida em que nos apropriamos dele”, resume Rommulo, citando de passagem o conceito de “territorialização”, do filósofo francês Gilles Deleuze.

As cores brilhantes da tubulação entrelaçada remetem a um brinquedo infantil, mas, na verdade, é uma junção de símbolos cristãos, judaicos, muçulmanos e afros. As crianças podem transitar e contemplar a obra, mas não podem tocá-la, pois as peças são frágeis. 

 

| Gerson Nogueira
 

Organização da sociedade civil de interesse público (Oscip), Inhotim foi certificado em 2010 também como Jardim Botânico, além de museu, reunindo mais de 4,3 mil espécies nativas brasileiras, em boa parte exóticas. 

Nas palavras dos visitantes, a admiração pela ousadia arrebatadora do projeto pessoal de Bernardo Paz. Os nacionais, que se misturam turistas do mundo todo, não conseguem deixar de escapar comentários como “nem parece que é coisa feita por brasileiros”, “capricho e organização que a gente não vê sempre por aí”. Não é exagero. É fato. 

Cildo e a monocromia de “Desvio para o Vermelho” 

“Desvio para o Vermelho I, II e III (1967 – 1984), do artista Cildo Meireles, está de volta a Inhotim encantando e inquietando os visitantes. “Fechada desde o início da pandemia, a obra passou por um processo de conservação e restauro feito por uma equipe de cerca de 20 profissionais, entre conservadores e restauradores, técnicos de produção e assistentes de produção artística e montagem, pedreiros, produtores artísticos e eletricistas”, explica Bruna Oliveira, coordenadora técnica do museu.  

O título remete ao fenômeno físico “desvio para o vermelho”, particularidade do Efeito Doppler, que indica a cor vermelha como frequência de ondas de luz percebida pelo observador quando corpos celestes se afastam.

A obra de Cildo está montada em três ambientes articulados. O primeiro deles, nomeado (Impregnação), reúne uma coleção de móveis, objetos e obras de arte em tons de vermelho, organizados em uma sala. A força monocromática do primeiro espaço contrasta com a penumbra do segundo, (Entorno), no qual uma garrafa caída no chão, cujo líquido vermelho derramado produz uma mancha no espaço. Este caminho do líquido

conduz o público a uma outra sala, totalmente escura, (Desvio), onde o passeio é guiado pelo som de água corrente. 

 

| Gerson Nogueira
 

Obras espelham reflexões e referências

No trevo que marca a entrada de Brumadinho começa uma série de outdoors, misturando anúncios de supermercado e imagens fortes. Há a reprodução de uma construção de madeira e uma caixa de papel ampliada. Os dois painéis integram a obra “Propaganda”, da gaúcha Lucia Koch, que vai da cidade até o Instituto Inhotim. 

A artista desembarcou em Brumadinho há três anos, logo depois do rompimento da barragem. Flagrou o começo do fenômeno do enriquecimento das pessoas e seu grande símbolo: outdoors de três fases, formados por persianas verticais. 

O painel gigante chama atenção pela imagem de um saco de carvão amassado e avermelhado, lembrando a entrada de uma caverna. A obra, intitulada “Arco-íris cor de sangue”, tributa uma marca de carvão popular na cidade e remete à “Magrelinha”, canção composta por Luiz Melodia. 

O terceiro outdoor artístico de Lucia está instalado na península dos lagos de Inhotim, revelando o interior da caixa de papelão já vista nos painéis da cidade. 

Explosão de riqueza derivada da tragédia e do luto

Berço de Inhotim, Brumadinho, com seus 40 mil habitantes, fica na região metropolitana de Belo Horizonte e experimenta um crescimento inesperado. As indenizações pagas pela Vale às famílias impactadas pelo rompimento da barragem do Córrego do Feijão embalam um boom econômico inflado por novos milionários.

Sob um clima ameno e agradável, com frequentes baixas de temperatura (média de 17 graus), Brumadinho é cenário de carrões importados e condomínios de luxo se multiplicam pela cidade, cujas ruas íngremes são ponto de passagem para a principal atração da região: Inhotim. 

 

| Gerson Nogueira
 

Há um sentimento de que as famílias endinheiradas e ainda em luto pela tragédia de Brumadinho ainda não sabem exatamente como gastar o dinheiro que chegou de repente. Por enquanto, a maioria investe em terrenos e construções na própria região.

Inovação se estende também às chapas e fogões 

O festival “Fartura Gastronomia 2022”, realizado no Instituto Inhotim, em Brumadinho, de 29 de abril a 1º de maio, marcou a retomada dos eventos presenciais da plataforma Fartura. Cinco embaixadores gastronômicos do Itamaraty, cada um representando uma região brasileira, foram as atrações principais do festival. Morena Leite, Janaina Rueda, Manu Buffara, Saulo Jennings e Paulo Machado fizeram palestras e oficinas abertas ao público.

Com mediação do chef Claude Troisgros, eles se reuniram para discutir a internacionalização da gastronomia brasileira. A parte mais gostosa, obviamente, foi a demonstração prática do que sabem fazer melhor: cozinhar iguarias da gastronomia brasileira. 

“Assim como o Fartura, o Inhotim tem a inovação como forte pilar. É uma referência de vanguarda no mundo. Enquanto o Itamaraty é um parceiro importantíssimo para dar visibilidade à gastronomia brasileira fora do país”, diz Rodrigo Ferraz, diretor da plataforma.

O Fartura Gastronomia teve ainda a presença de chefs de Belo Horizonte e Brumadinho em performances ao vivo, almoços, jantares, além de mercearia de produtores e apresentações artísticas. Destaque, nesse sentido, para as criações de chef Dailde Marinho, verdadeiro ícone de Inhotim. 

Na Mercearia Fartura, 16 pequenos expuseram ao público a cultura e riqueza gastronômica da região: oito da cidade de Brumadinho e oito de Minas Gerais. Licores, quitandas, queijo de cabra, temperos, embutidos, pães de fermentação natural, doces e granolas, laticínios, mel, charcutaria, cogumelos, cafés, geleias e chutneys foram alguns dos produtos disponibilizados.

Gerson Nogueira viajou ao evento a convite da organização do 15º e-mundi – Encontro Mundial da Imprensa/Edição Nacional

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