O amor de mãe costuma ser descrito como um dos sentimentos mais puros e incondicionais que existem. É abrigo, cuidado, força e presença constante, capaz de atravessar o tempo e permanecer vivo mesmo diante da ausência física. Por isso, aprender a seguir em frente após a partida de uma mãe é um dos processos mais dolorosos que alguém pode enfrentar. Em datas comemorativas, como o Dia das Mães, a saudade ganha ainda mais intensidade e transforma lembranças em emoções difíceis de conter. Ainda assim, muitas pessoas encontram maneiras de ressignificar a dor e manter vivo o vínculo construído ao longo da vida.
A psicóloga Tássila Alves explica que a data costuma reacender sentimentos profundos e delicados, especialmente em quem já perdeu a mãe, mas destaca que é importante acolher esse processo com respeito e compreensão.
“Para muitas pessoas, mãe representa base, acolhimento, amor primordial e origem. Mas o Dia das Mães também pode mobilizar sentimentos ambivalentes, quando a relação com a figura materna foi conflituosa, negligente ou difícil. Acima de tudo, é importante compreender que o luto não é um problema a ser resolvido, mas uma experiência que precisa ser atravessada com consciência, acolhimento e respeito”, disse.

MEMÓRIAS
A jornalista Aline Freire perdeu a mãe, Sônia Freire, em 2009, quando tinha apenas 23 anos. Mesmo diante da dor da despedida, ela encontrou na memória e no amor deixado pela mãe uma forma de manter essa presença viva diariamente.
“Minha mãe era, e continua sendo, na forma como vive em mim, a melhor mãe que eu poderia ter tido. Ter sido criada, educada e moldada por ela foi um verdadeiro presente de Deus. Eu a defino como uma fortaleza. Sabe aquele lugar onde até um herói iria para recarregar as energias? Minha mãe era exatamente assim. Era o ponto de apoio para todos ao redor: amigos e familiares sempre a procuravam em busca de uma palavra de força, de um conselho, de acolhimento. Ela era profundamente amada e querida por todos. E algo que sempre me marcou foi a forma como, mesmo nos momentos mais difíceis, ela continuava sendo luz na vida das pessoas. Quando ficou doente, muitos iam visitá-la dizendo que queriam levar força, mas saíam de lá dizendo que era ela quem os fortalecia, quem renovava a esperança. Minha mãe era isso: força, amor e inspiração, uma presença que transformava e iluminava a vida de todos que tinham o privilégio de estar perto dela”, declarou.
Com o passar dos anos, Aline decidiu transformar o Dia das Mães em um momento de amor e conexão, e não apenas de tristeza.
“Hoje, eu procuro enxergar o Dia das Mães de uma forma leve e feliz. Para mim, minha mãe está presente todos os dias, então essa data acaba sendo apenas mais um dia em que sinto ela comigo. E, se ela está presente em todos os momentos da minha vida, não há motivo para que esse dia seja vivido com tristeza. Essa maneira de encarar o Dia das Mães foi uma estratégia que encontrei para ressignificar a ausência dela. Foi um caminho que construí para transformar a saudade em algo mais acolhedor, mais cheio de sentido. Entendo também que cada pessoa lida com essa data de uma forma diferente, e todas são válidas. No meu caso, escolhi viver esse dia como uma continuidade do amor que ainda nos conecta, e não como um marco de perda”, explicou.
As lembranças simples seguem ocupando um espaço especial em sua rotina, reforçando a sensação de que o amor permanece vivo nos detalhes do cotidiano.
“A nossa relação era construída com base em amizade, cumplicidade e muito amor. Minha mãe não era só mãe, era também minha amiga, minha parceira de vida. Guardo com carinho lembranças simples, mas cheias de significado, como quando, aos 11 anos, ela me ensinou a pintar as unhas. Até hoje, todo final de semana, quando eu mesma faço isso, sinto como se ela estivesse ali comigo, dizendo que ficaram lindas. Mesmo com o tempo que tivemos sendo menos do que eu gostaria, minha mãe foi imensa. Ela me ensinou a viver, desde as coisas mais básicas até as mais complexas. Hoje, sigo a vida com um certo alívio no coração por saber que fui preparada pela maior guerreira que já conheci. O que fica é uma gratidão profunda por tudo o que ela me ensinou, e pelo que ainda me ensina, de alguma forma, todos os dias”, disse.
SUPERAÇÃO
A advogada Amanda Vieira também encontrou na gratidão uma maneira de lidar com a saudade. Adotada aos dois anos por Joana Ferreira dos Santos, ela perdeu a mãe adotiva em 2023. Apesar de manter contato com a mãe biológica ao longo da vida, foi em Joana que encontrou sua maior referência de amor, cuidado e acolhimento.
“O Dia das Mães ainda é muito doloroso. Embora eu tenha minha mãe biológica, minha referência de mãe sempre será a minha mãe adotiva. Mesmo com a saudade, sinto que preciso celebrar essa data em homenagem à mãe incrível que Deus me deu. Não me imagino sem ser filha da minha mãe Joana. Eu passaria por tudo novamente só para ter a graça de ser filha dela. Sou muito feliz por ter sido criada por uma mulher fantástica, que me ensinou valores e princípios inegociáveis. A melhor forma de honrar a minha mãe é sendo um bom ser humano”, afirmou.

Amanda mantém viva a memória da mãe em cada ensinamento deixado por ela e guarda com carinho o sentimento de ter sido escolhida e amada de forma tão especial.
“Minha mãe continua sendo meu grande e eterno amor, minha conselheira e minha protetora, meu colo nos momentos de aflição. Eu sempre tive a ideia de que ela tinha superpoderes, por cuidar de mim de forma tão incondicional. Sou filha adotiva; ela teve 10 filhos biológicos e duas filhas adotivas. Mesmo assim, entre todos, tive a graça de ser escolhida por ela. Uma vez, perguntei por que ela me adotou, e ela respondeu com a música de Zezé Di Camargo & Luciano: ‘É o amor, que veio com um tiro certo no meu coração, que fez eu entender que a vida é nada sem você’. Hoje, sou eu quem canta para ela: minha vida não é nada sem ela”, contou.
COMO RESSIGNIFICAR O DIA DAS MÃES APÓS A PERDA
Segundo a psicóloga Tássila Alves, embora a ausência permaneça dolorosa, é possível transformar a data em um momento mais afetivo e acolhedor.
“Ressignificar pode transformar este dia de comemorações externas em um momento de memória íntima, com o reconhecimento da permanência simbólica do vínculo, honrando os valores herdados, as boas lembranças, as boas memórias, formas de cuidar que podem ser expressas de diferentes maneiras. Quem sabe preparar a receita preferida da mãe, cozinhar com a panela que ela gostava de usar, colocar uma foto dela em um porta-retrato com flores, algo que faça sentido para você neste dia, que ressignifique a dor da saudade e a relação. Dessa forma, o vínculo não se rompe apenas assume outra forma de presença que pode ser internalizada, simbólica e afetuosa”, orientou.
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DICAS PARA LIDAR COM O LUTO E A SAUDADE EM DATAS SENSÍVEIS
A psicóloga também reuniu orientações importantes para enfrentar o luto de maneira mais saudável durante períodos emocionalmente delicados, como o Dia das Mães:
• Acolha os próprios sentimentos: permita-se sentir tristeza, saudade e emoções que surgirem, sem tentar reprimi-las ou lutar contra elas.
• Reconheça e nomeie suas emoções: identificar o que está sentindo ajuda no processo de compreensão e elaboração do luto.
• Busque apoio emocional: conversar com familiares, amigos ou profissionais pode tornar a dor mais leve e ajudar no enfrentamento.
• Planeje como deseja viver a data: criar pequenos rituais afetivos pode transformar o dia em uma homenagem cheia de significado.
• Mantenha vivas as memórias positivas: cozinhar uma receita especial, ouvir músicas marcantes ou rever fotografias podem fortalecer a sensação de conexão.
• Respeite o próprio tempo: cada pessoa vivencia o luto de forma única e não existe prazo para superar a ausência.
• Evite excesso de redes sociais: reduzir o contato com conteúdos emocionalmente carregados pode ajudar a preservar o equilíbrio emocional nesse período.
“Como psicóloga, compreendo o luto como um fenômeno singular, que precisa ser respeitado em seu tempo e expressão”, destacou Tássila Alves.
Em meio à dor da ausência, muitas pessoas descobrem que o amor construído ao longo da vida não desaparece com a partida. Ele permanece nas lembranças, nos ensinamentos, nos hábitos simples e nos gestos cotidianos. Ressignificar o Dia das Mães não significa esquecer quem partiu, mas encontrar uma forma de continuar celebrando um vínculo que segue vivo dentro do coração.
DEPOIMENTO PESSOAL
Eu, Lana Oliveira, perdi minha mãe há pouco mais de um mês. O luto não é um processo fácil; é doloroso, intenso e difícil de compreender, pois exige muita força e sabedoria emocional para ser enfrentado. Aos poucos, a gente começa a se apegar aos pequenos detalhes da vida para tentar suprir a ausência de alguém tão importante que partiu sem aviso prévio. Uma foto, um cheiro, um vídeo, um jeito de falar ou de agir que traz à memória o afeto e o amor daquela pessoa tornam essa caminhada um pouco mais leve. É assim que aprendemos que, mesmo após a partida, o amor permanece eterno e viverá para sempre no coração e nas lembranças.
Neste primeiro Dia das Mães sem ela, confesso que não está sendo fácil. Tudo ainda é muito recente, e a saudade aperta todos os dias. Nossa relação era marcada por amizade, cumplicidade, amor e uma conexão única. Minha mãe sabia exatamente o que eu estava sentindo sem que eu precisasse dizer uma única palavra. Nela, eu encontrava abrigo, refúgio e respostas para todos os momentos da minha vida.

Hoje, busco ressignificar esta data como uma forma de lembrar da força, da coragem e da fé que ela carregava. Dona Sandra, minha mãe, sempre será minha maior referência de mulher forte e guerreira, um exemplo que me inspira a seguir em frente com a certeza de que ela continuará olhando por mim lá do céu. Sim, agora eu sou filha de uma estrelinha.
E tudo o que está em meu coração é gratidão. Gratidão por ter sido filha de uma mãe tão dedicada, uma mulher amorosa e incrível. Toda minha gratidão a Deus por ter me permitido viver momentos inesquecíveis ao lado dela — momentos repletos de alegria, adrenalina (vivemos aventuras juntas rs), superação e afeto. Eu te amarei para sempre, minha Sandrinha.
EMPATIA
Finalizo esta matéria com lágrimas nos olhos do início ao fim, mas também com a certeza de que eu precisava escrevê-la. Como jornalista, encontrei na comunicação uma forma de transformar a minha dor em acolhimento, informação e esperança para outras pessoas que estão vivendo a ausência de suas mães. Mais do que contar histórias, senti a necessidade de dar voz a sentimentos que, muitas vezes, parecem impossíveis de explicar.
Trazer relatos de superação, força e orientações importantes foi também uma maneira de abraçar, por meio das palavras, aqueles que enfrentam esse mesmo vazio todos os dias. Porque, apesar da ausência física, o amor de uma mãe nunca parte por completo. Ele permanece vivo em cada lembrança, em cada ensinamento, em cada gesto e dentro de tudo aquilo que continua vibrando em nossos corações.
Escrever esta matéria foi doloroso, mas também necessário. E, de alguma forma, acredito que minha mãe continua comigo em cada linha escrita, me dando forças para seguir em frente e usar o jornalismo como instrumento de empatia, conexão e amor.
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