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AQUECIMENTO ANÔMALO

El Niño pode prolongar estiagem no Pará e elevar temperaturas a 40°C

Meteorologista do Inmet prevê aumento do risco de incêndios no Sul e Sudeste paraense, baixa umidade do ar e anomalias no regime de chuvas a partir de setembro

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Imagem ilustrativa da notícia El Niño pode prolongar estiagem no Pará e elevar temperaturas a 40°C camera El Niño eleva risco de incêndios florestais no Pará, segundo o meteorologista José Raimundo de Abreu. | Marizilda Gruppe/Greenpeace

O avanço do aquecimento das águas do Oceano Pacífico começa a despertar preocupação entre especialistas em meteorologia. Embora o fenômeno El Niño ainda esteja em fase de desenvolvimento, os primeiros reflexos já são observados nas projeções climáticas para os próximos meses. No Pará, a expectativa é de que a atuação do fenômeno provoque mudanças importantes no comportamento das chuvas e das temperaturas, especialmente nas regiões mais vulneráveis à estiagem.

As previsões internacionais apontam aumento da probabilidade de formação do El Niño ao longo de 2026. Para o meteorologista José Raimundo Abreu, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), os impactos sobre o território paraense podem começar a ser sentidos já no segundo semestre deste ano, exigindo atenção especial da população e dos produtores rurais.

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Apesar das projeções internacionais indicarem possibilidade de El Niño intenso em 2026, José Raimundo Abreu é mais cauteloso e acredita em um fenômeno de intensidade moderada a forte, mas com impactos significativos no clima do Pará.
📷 Apesar das projeções internacionais indicarem possibilidade de El Niño intenso em 2026, José Raimundo Abreu é mais cauteloso e acredita em um fenômeno de intensidade moderada a forte, mas com impactos significativos no clima do Pará. |Reprodução/Arquivo pessoal

Segundo o especialista, o El Niño-Oscilação Sul (ENOS) é um dos sistemas climáticos mais influentes do planeta, capaz de modificar padrões de chuva e temperatura em diversas regiões do mundo. "O El Niño-Oscilação Sul é um dos principais fenômenos que influenciam o clima global. Ele ocorre devido a mudanças na temperatura das águas do Oceano Pacífico e na circulação atmosférica, sendo composto por três fases: El Niño, marcado pelo aquecimento das águas; La Niña, caracterizado pelo resfriamento das águas; e neutralidade, que é quando não há atuação de qualquer dos dois fenômenos", destacou o meteorologista, em entrevista exclusiva ao DOL.

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José Raimundo destaca que os dados mais recentes mostram um aquecimento gradual das águas do Pacífico Equatorial, principalmente na região conhecida como Niño 3.4, um dos principais indicadores utilizados pelos centros meteorológicos internacionais. "Esse aquecimento anômalo das águas do Pacífico Equatorial configura uma sinalização para uma possível transição para El Niño nos próximos meses, e que deve iniciar sua atuação a partir de agosto para setembro", esclarece.

PERÍODO SECO PODE AVANÇAR ATÉ NOVEMBRO

Um dos principais efeitos esperados no Pará será o prolongamento da estação seca, especialmente no Sul e Sudeste do estado. "Os efeitos esperados são o prolongamento do período seco no estado do Pará, notadamente na região Sul e Sudeste. Essas áreas têm por característica apresentar estiagem entre junho e setembro. Entretanto, este ano, esse período deve se intensificar, prolongando-se até o final de outubro e início de novembro", projeta.

De acordo com o meteorologista, municípios como Conceição do Araguaia, Xinguara, Santa Maria das Barreiras, São Félix do Xingu, Tucumã, Marabá e localidades vizinhas estão entre as áreas que exigem maior atenção. "No estado do Pará, principalmente o Sul e Sudeste, a partir de agosto devemos ter atenção especial para o risco de incêndios devido ao período seco que está iniciando nessas regiões", alerta.

PERÍODO CRÍTICO PODE CHEGAR A ATÉ 100 DIAS SEM CHUVA

O comportamento do clima no Pará tende a ganhar contornos ainda mais severos nos próximos meses, caso se confirme a intensificação do cenário de estiagem associado ao El Niño. Segundo o meteorologista, o estado deve enfrentar um período de chuvas significativamente abaixo do normal, com desvios negativos que podem variar entre 30% e 60% em relação à média histórica nos meses analisados, ampliando o prolongamento da estação seca em diferentes regiões.

O especialista chama atenção, sobretudo, para a situação do Sul do Pará, onde o intervalo sem precipitações pode se tornar extremo. "O regime de chuvas vai ficar mais seco no estado, variando de 30% até 60% abaixo da média, prolongando o período de seca e também os dias sem nenhuma chuva na região sul do Pará", afirma. Ele alerta ainda para a possibilidade de municípios atravessarem longos períodos sem qualquer registro de chuva. "É possível que vá passar acima de 60 até 100 dias sem nenhum tipo de chuva em algum município", destaca.

TEMPERATURAS PODEM ALCANÇAR 40°C

Além da redução das chuvas, a população deverá enfrentar calor acima da média. Segundo José Raimundo Abreu, as máximas poderão atingir patamares elevados durante os meses mais críticos da atuação do fenômeno. "As temperaturas vão alcançar valores de até 40 graus, podendo chegar a 41 graus, mas a sensação térmica é muito maior", explica. Segundo ele, a combinação entre calor intenso e baixa umidade deve marcar principalmente os meses de julho e agosto, com grande amplitude térmica diária. “Vai ter uma grande diferença entre as máximas e as mínimas, que ficam em torno de 20 graus à noite e podem chegar a 40 graus durante o dia”, conclui o especialista.

O aumento do calor será acompanhado pela redução da umidade relativa do ar, criando condições desfavoráveis para a saúde e para o meio ambiente. "Deve predominar tempo seco e baixa umidade relativa do ar, que ficará por muitos dias abaixo dos 30%. Isso, além de causar desconforto e problemas respiratórios, pode intensificar os incêndios na região Sul e Sudeste do estado", revela.

RISCO ELEVADO DE QUEIMADAS

O meteorologista destaca que a combinação entre vegetação seca, calor intenso e baixa umidade cria um ambiente altamente propício à propagação do fogo. "Devido principalmente à presença de folhas e capim secos, qualquer descuido pode causar incêndios de grandes proporções", observa José Raimundo.

Segundo ele, o período mais crítico deverá coincidir com o auge da atuação do fenômeno no estado, quando os efeitos sobre temperatura e precipitação se tornarão mais evidentes. "Verifica-se que o fenômeno já acoplou a Oscilação Sul e deve interferir no clima da região a partir do mês de setembro. É nesse período que devemos verificar as condições adversas citadas anteriormente", adianta o especialista.

INTENSIDADE AINDA NÃO ESTÁ DEFINIDA

Apesar das projeções divulgadas por alguns centros climáticos internacionais apontarem a possibilidade de um evento forte, José Raimundo adota uma posição mais cautelosa quanto à intensidade do fenômeno. "Até a presente data, na minha análise, diria que será um El Niño de fraca a moderada intensidade e deve ficar atuando até fevereiro de 2027", prevê o meteorologista do Inmet, ressaltando que ainda é cedo para classificações mais definitivas. "Repito que somente no mês de setembro será possível definir a intensidade do fenômeno El Niño."

Ele também faz ressalvas sobre algumas nomenclaturas utilizadas em projeções climáticas. "A princípio, não concordo com a nomenclatura utilizada e também não concordo com o termo 'super El Niño'."

ESTIAGEM AMEAÇA CALENDÁRIO AGRÍCOLA NO BAIXO AMAZONAS

No Oeste do Pará, especialmente na região do Baixo Amazonas, o meteorologista José Raimundo de Abreu chama atenção para um cenário de transição climática que pode impactar diretamente o planejamento agrícola em municípios como Belterra, Mojuí dos Campos e Santarém. Segundo ele, essas áreas entram em uma "segunda fase" do regime de chuvas sob influência do El Niño, o que reduz a previsibilidade das janelas ideais de plantio e exige maior cautela por parte dos produtores rurais.

O especialista destaca que, mesmo em um cenário de El Niño moderado, o comportamento das chuvas tende a se tornar irregular e mal distribuído ao longo dos meses de novembro e dezembro. Em vez de precipitações contínuas e bem estabelecidas, devem ocorrer pancadas isoladas e intercaladas, muitas vezes insuficientes para garantir o desenvolvimento adequado das lavouras.

"O agricultor não tem uma janela de plantio boa", resume, ao alertar que os volumes necessários para o cultivo - entre 10 e 20 milímetros em dias alternados - podem não se consolidar com frequência. Além disso, ele reforça que o fenômeno tende a elevar as temperaturas e atrasar o início efetivo do período chuvoso em grande parte do estado, atingindo também o Sul do Pará e deslocando o calendário agrícola tradicional.

ORIENTAÇÃO AOS PRODUTORES RURAIS

Diante das incertezas e dos possíveis impactos sobre a agricultura e a pecuária, José Raimundo recomenda prudência aos produtores do estado. "A principal orientação para os produtores rurais é cautela, a fim de evitar perdas, e acompanhar constantemente as informações meteorológicas."

Com a aproximação do período de maior influência do fenômeno, o especialista reforça a necessidade de monitoramento permanente das condições climáticas. De acordo com ele, as próximas atualizações dos centros meteorológicos deverão indicar se o aquecimento observado no Pacífico continuará avançando e qual será a real intensidade do El Niño sobre a Amazônia e o restante do Brasil.

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