Uma pesquisa inédita realizada pela Universidade Federal do Pará (UFPA) revelou que resíduos de equipamentos de pesca abandonados, perdidos ou descartados estão servindo de abrigo para centenas de organismos marinhos na Ilha de Algodoal, em Maracanã, no nordeste do Pará. O estudo registrou 1.543 organismos associados aos petrechos de pesca, evidenciando que esses materiais, além de poluírem o ambiente, já fazem parte da dinâmica ecológica da região.
A pesquisa integra a dissertação de mestrado "Petrechos de pesca como resíduo praial em uma Área de Proteção Ambiental na costa paraense", da pesquisadora Elaine Simone da Cruz, desenvolvida no Programa de Pós-Graduação em Oceanografia da UFPA. O trabalho representa o primeiro levantamento desse tipo realizado em praias da região Norte do Brasil.
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Durante o monitoramento, realizado nas praias da Caixa d'Água, Farol, Princesa e Cação, os pesquisadores encontraram organismos como cracas, bivalves, caranguejos, paguros, isópodes, gastrópodes, poliquetas, anêmonas e pulgas-do-mar vivendo sobre cordas, boias de poliestireno, redes e outros materiais abandonados pela atividade pesqueira. A maior parte dos organismos estava associada às cordas e às boias de poliestireno.
Segundo os pesquisadores, embora esses organismos utilizem os resíduos como substrato, esse processo não representa um benefício ambiental. Pelo contrário, demonstra que o lixo oriundo da pesca já está alterando habitats naturais e pode favorecer mudanças na distribuição de espécies, além de contribuir para a degradação dos ecossistemas costeiros.
Mais de 450 resíduos foram encontrados
O levantamento foi realizado durante os períodos chuvoso e seco de 2022. Ao todo, foram recolhidos 459 petrechos de pesca abandonados, perdidos ou descartados, que somaram 13,14 quilos de resíduos espalhados pelas quatro praias estudadas.
Os materiais mais encontrados foram fragmentos de equipamentos de pesca, cabos elétricos utilizados em currais, cordas e redes de pesca. A maioria era produzida em nylon, material conhecido pela elevada resistência e pela lenta degradação no ambiente marinho.
Os pesquisadores destacam que esses resíduos permanecem por anos na natureza e podem causar diversos impactos, como emaranhamento da fauna, pesca fantasma, quando redes continuam capturando animais mesmo após serem abandonadas, formação de microplásticos e transporte de substâncias químicas.
Praia da Caixa d'Água concentrou maior quantidade de resíduos
Entre as quatro praias avaliadas, a Praia da Caixa d'Água apresentou a situação mais preocupante.
Foram registrados 274 resíduos, totalizando 6,35 quilos, além da maior densidade de materiais e o maior índice de impacto ambiental calculado pela pesquisa.
De acordo com o estudo, o local reúne características que favorecem o acúmulo dos petrechos, como a proximidade do porto de embarcações pesqueiras, a presença de manguezal juvenil e de afloramentos rochosos, que funcionam como barreiras naturais capazes de prender redes, cordas e cabos transportados pelas marés.
Método inédito mede impacto ambiental
Outro destaque da pesquisa foi a criação de um Fator de Impacto Ambiental (FIA) para avaliar os riscos provocados pelos petrechos abandonados.
O índice considera o tipo de equipamento encontrado, sua massa e o ambiente onde estava localizado. Embora a média geral das praias tenha indicado baixo impacto ambiental, alguns pontos alcançaram os níveis máximos da escala, especialmente em áreas com manguezais e afloramentos rochosos, considerados habitats mais sensíveis.
Segundo os autores, essa metodologia poderá auxiliar órgãos ambientais na identificação de áreas prioritárias para limpeza, monitoramento e conservação.
Pesquisa preenche lacuna na Amazônia
Além dos resultados inéditos, a dissertação destaca que, até então, praticamente não existiam levantamentos sobre petrechos de pesca abandonados na costa amazônica, apesar de o Pará concentrar uma das maiores produções pesqueiras do país.
A pesquisa também reforça a necessidade de ampliar políticas públicas voltadas ao recolhimento e descarte adequado desses equipamentos, estimular programas de educação ambiental junto às comunidades pesqueiras e manter o monitoramento contínuo das praias da Área de Proteção Ambiental de Algodoal.
Os pesquisadores ressaltam que compreender como esses resíduos interagem com o ambiente é fundamental para subsidiar ações de conservação e para reduzir os impactos da atividade pesqueira sobre um dos ecossistemas costeiros mais importantes da Amazônia.
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