Há mais de 300 dias, o colombiano Wilber Honório Muñoz, de 45 anos, vive entre a água, as correntezas e as comunidades ribeirinhas em uma jornada que começou no Peru e tem Belém como destino final. Conhecido como “Homem-Peixe”, ele já percorreu aproximadamente 6,6 mil quilômetros a nado pela expedição “Amazonas Pulmão”, criada para chamar atenção para a poluição dos rios e a preservação da Amazônia. A previsão é que passe pela Baía do Guajará em 27 de agosto e chegue à capital paraense no dia 30 de agosto.
A aventura começou em 13 de outubro de 2025, na região de Cusco, no Peru. De lá, Wilber atravessou diferentes regiões peruanas, passou pela Colômbia e entrou no Brasil pela região de Tabatinga, no Amazonas. Manaus, Parintins, Juruti, Óbidos, Santarém e Curralinho no Marajó estão entre as cidades que fizeram parte do percurso.
Agora, já no Pará, a reta final também é marcada pelo desgaste. Depois de tantos meses dentro do rio, o corpo cobra a conta. “O corpo está muito ressentido”, contou.
Durante entrevista exclusiva ao DOL, Wilber relatou cansaço intenso e problemas de saúde, incluindo uma infecção na pele. Quando chega às comunidades, aproveita para descansar, se alimentar e recuperar as forças antes de voltar para a água.
Uma vida dedicada à natação
A relação com a natação começou ainda na infância, por influência do pai, que o colocou em aulas gratuitas oferecidas pelo município onde vivia. O que começou como atividade esportiva acabou se transformando em profissão.
Formado em Educação Física, Wilber competiu pela universidade e, ao longo dos anos, passou a buscar desafios cada vez maiores. Antes do Amazonas, já havia experimentado provas de longa distância em corrida, ciclismo e natação.
Foi justamente na água que encontrou uma maneira de unir esporte e conscientização ambiental. “Eu sou atleta e sou apaixonado pela natação porque sou nadador desde muito criança, pequeno, graças ao meu pai”, contou.
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A ligação com a Amazônia também é pessoal. Embora seja colombiano, ele se define como amazônico e diz ser apaixonado pela natureza. “Sou apaixonado pela natureza. Sou amazônico também, mas da Colômbia.”
Wilber é separado da esposa e pai de duas filhas. Segundo ele, a família acompanha a aventura e apoia a decisão, apesar dos riscos envolvidos.
De 100 quilômetros por dia a uma velocidade bem menor
O ritmo da expedição mudou ao longo dos meses. No início, houve dias em que Wilber chegou a nadar 100 quilômetros. Hoje, permanece cerca de seis horas por dia dentro da água, em média.
A velocidade também diminuiu conforme o rio ficou mais desafiador. Na região paraense, a correnteza e as condições da água fizeram o percurso ficar mais lento. Para a chegada a Belém, ele estima uma média de aproximadamente 4 quilômetros por hora.
A rotina é adaptada ao próprio corpo. “Se eu estou muito cansado, eu descanso”, explicou.
A alimentação é outra parte essencial. Para manter a energia, ele consome proteínas como peixe, carne, frango e ovos. Nas comunidades, também experimenta pratos típicos oferecidos pelos moradores, incluindo jacaré e tartaruga.
E há um alimento paraense que ganhou espaço na rotina: “Agora gosto mais do açaí do Pará. Estou gostando muito mais porque também me dá força.”
Comunidades viram parte da equipe
A expedição não conta com uma grande estrutura contratada. O apoio é construído ao longo do caminho, principalmente com voluntários, moradores e prefeituras. “Eu não contrato ninguém. Toda a equipe tem que ser voluntária”, explicou.
Em alguns municípios, recebe combustível, alimentação, hospedagem e auxílio para a logística. Nas comunidades menores, muitas vezes dorme em rede ou barraca. “Não precisa ser uma habitação luxuosa, nada disso. Não tem luxo. Estou tranquilo, até melhor na natureza”, afirmou.
A embarcação que acompanha o percurso também passou por dificuldades. Em Manaus, sofreu danos e precisou de reparos, fazendo com que Wilber permanecesse cerca de duas semanas na cidade.
Quando não está nadando, ele também participa de palestras em escolas e universidades para apresentar a expedição e conversar sobre a preservação dos rios.
O temporal que fez Wilber pensar na morte
Entre os episódios mais difíceis da jornada está um temporal enfrentado ainda no Peru. Durante a tempestade, Wilber perdeu o contato com a equipe e ficou sozinho no rio por cerca de três horas. “O temporal durou três horas. Eu estava sozinho”, relatou.
Os raios caíam próximos da água e o medo tomou conta. “Só pensava que ia morrer.”
O episódio marcou o ativista. Curiosamente, os animais que vivem no rio não são o que mais o assusta. Jacarés e piranhas fazem parte do ambiente em que nada, mas são os temporais e as mudanças nas condições do rio que representam os maiores riscos.
O rio também deixou marcas na saúde
Nadar durante horas todos os dias significa também lidar com a água constantemente. Wilber conta que, mesmo tomando cuidado, acaba ingerindo pequenas quantidades durante o percurso.
No Peru, chegou a adoecer três vezes depois de ingerir água do rio. Em uma delas, o quadro foi mais grave e colocou em dúvida a continuidade da expedição.
O descanso e o atendimento recebido ao longo do caminho permitiram que ele retomasse a jornada. A experiência, somada à exposição prolongada ao rio, reforçou o propósito ambiental da expedição.
A poluição vista de dentro do rio
Ao percorrer milhares de quilômetros dentro do Amazonas, Wilber não observa o rio apenas da margem. Ele está literalmente dentro dele. A experiência permite perceber de perto as condições da água e a realidade das comunidades que dependem do rio.
É justamente essa vivência que ele pretende transformar em alerta: a poluição dos rios não é apenas um problema ambiental distante, mas algo que afeta diretamente quem vive e se alimenta deles.
A repercussão da expedição também cresceu durante o percurso. Momentos registrados em vídeo e transmitidos pelas redes sociais ajudaram a ampliar o alcance do projeto, especialmente depois de uma das etapas consideradas mais perigosas da viagem.
Últimas braçadas até Belém
Depois de mais de 300 dias, a expedição “Amazonas Pulmão” se aproxima do fim. O próximo grande marco está previsto para 27 de agosto, quando Wilber deverá passar pela Baía do Guajará. Três dias depois, em 30 de agosto, está prevista a chegada a Belém.
Será o fim de uma jornada iniciada no Peru e construída ao longo de aproximadamente 6,6 mil quilômetros, entre correntezas, temporais, comunidades e desafios físicos.
Mesmo com o cansaço acumulado, Wilber não pensa em desistir. “O projeto nunca parou, nunca desisti. Sempre um passo à frente, um passo à frente”, afirmou.
As últimas braçadas serão também as mais simbólicas: depois de transformar o próprio corpo em instrumento de conscientização, o “Homem-Peixe” chega a Belém levando uma mensagem sobre a necessidade de olhar para os rios antes que seja tarde demais.
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