O alerta climático no Pará, decretado pelo Governo do Estado diante dos possíveis impactos do El Niño em 2026 e 2027, é considerado uma medida importante para preparar o poder público para um cenário de seca, calor intenso, queimadas e redução do nível dos rios. A avaliação é do professor titular do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Pará (UFPA), Everaldo Barreiros de Souza, que acompanha a evolução do fenômeno desde o início.
O decreto, publicado na última segunda-feira (24/08), coloca todo o território paraense em situação de alerta climático e ambiental por 180 dias. A medida considera a possibilidade de redução das chuvas, estiagem, seca, menor disponibilidade de água, incêndios florestais, ondas de calor e piora da qualidade do ar.
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O QUE É O EL NIÑO?

Para o professor, embora o El Niño seja um fenômeno natural, sua influência pode alcançar grandes proporções. "Esse fenômeno El Niño é natural, é uma variabilidade natural do Oceano Pacífico", explica Everaldo Barreiros.
Segundo o especialista, o Pacífico passa por períodos de aquecimento e resfriamento, provocando alterações que podem repercutir em diferentes regiões do planeta. "O Oceano Pacífico ocupa um terço de todo o globo, todo o nosso planeta, um terço é o Oceano Pacífico. Então, o que acontece lá tem repercussão no planeta inteiro", afirma.
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É justamente essa dimensão que ajuda a explicar por que uma alteração registrada no oceano pode produzir consequências climáticas na Amazônia e em outras partes do mundo.
POR QUE O FENÔMENO PREOCUPA O PARÁ?
De acordo com Everaldo, uma das consequências do El Niño é a redução da formação de nuvens em determinadas regiões. "Essa alteração induz, inibe a formação de nuvens. Não tem nuvens, não tem como formar nuvens", explica.
O resultado pode ser um período mais prolongado de déficit hídrico. "E aí tem déficit hídrico, longos períodos sem chuva, e aí tem um risco alto de incêndios, de queimadas, tem um risco alto de ondas de calor", alerta.
O professor também chama atenção para o calor que pode atingir as áreas urbanas. "Vários dias com temperatura à tarde passando, aqui em Belém, passando de 35, 36 graus", afirma.
RIOS BAIXOS PODEM ISOLAR COMUNIDADES
Para o especialista, um dos maiores problemas para o Pará está relacionado à redução do nível dos rios. "No Pará, a questão da falta de chuva, o rio não sobe, ao contrário, o rio desce, comunidades ficam isoladas, porque não tem como sair de barco", explica.
A consequência vai além da dificuldade de transporte. A diminuição do nível dos rios pode comprometer o acesso à água e à alimentação. "Até existe a preocupação de segurança alimentar. Por quê? Porque o rio fica tão baixo que não tem nem como beber água, porque a água, num rio muito baixo, fica contaminada", afirma.
A pesca também pode ser prejudicada. "Se o rio está baixo, cadê? Não tem como pescar", acrescenta.
ÁGUA E ALIMENTAÇÃO DEVEM SER PRIORIDADE
Diante desse cenário, Everaldo defende que o poder público se antecipe para atender comunidades que possam ficar isoladas.
"A primeira medida é essa, de proteger as comunidades com risco alto de ficar isolada, de já deixar equipes de prontidão para abastecer água potável e alimentação. Então, esse talvez seja o primeiro ponto”, afirma.
A avaliação reforça a importância do caráter preventivo do decreto estadual. A ideia é preparar equipes e estruturas antes que uma eventual redução dos rios provoque dificuldades de abastecimento.
VEGETAÇÃO SECA AUMENTA PERIGO DE QUEIMADAS
Outro risco apontado pelo professor é a combinação entre estiagem e vegetação seca. "Então imagina uma condição de sem chuva, rio baixo, vegetação seca. Então qualquer ação de fogo pode se alastrar", alerta.
Nesse cenário, as queimadas podem alcançar grandes proporções rapidamente. "Queimadas de grandes proporções são muito preocupantes nesse período", destaca.
Por isso, a preparação de equipes de combate ao fogo e o monitoramento das áreas mais vulneráveis são considerados fundamentais.
FUMAÇA AMEAÇA PRINCIPALMENTE CRIANÇAS E IDOSOS
O problema das queimadas não termina com o fogo. A fumaça produzida pelos incêndios pode percorrer diferentes regiões e comprometer a qualidade do ar.
"Nas queimadas tem muita fumaça, então, essa fumaça percorre as regiões, a atmosfera poluída, o ar poluído pode induzir doenças respiratórias", explica Everaldo.
Segundo ele, a atenção deve ser redobrada com os grupos mais vulneráveis. "Especialmente em idosos, especialmente em crianças. Então, crianças e idosos são prioritários nessas ações de proteção, mesmo da vida, do bem-estar das comunidades", afirma.
ESPECIALISTA DEFENDE SALAS DE SITUAÇÃO
Para enfrentar um cenário com diferentes tipos de risco, Everaldo defende a integração de profissionais de várias áreas.
"Um ponto importante é montar as salas de situação em que tem profissionais de meteorologia, tem os engenheiros, tem o pessoal de saúde, tem a Defesa Civil, tem o Corpo de Bombeiros", explica.
A proposta é permitir que as informações sejam reunidas e transformadas rapidamente em ações. "Então, organizar antecipadamente para que sejam tomadas as ações", resume.
Para ele, a antecipação é ainda mais importante diante da intensidade do fenômeno que vem sendo observada.
EL NIÑO ATUAL EXIGE ATENÇÃO

"Não há dúvida que esse fenômeno está numa intensidade realmente muito maior do que todos os eventos passados", afirma o professor, que utiliza o episódio mais recente como referência para explicar o tamanho da preocupação.
O último El Niño ocorreu em 2023 e 2024 e provocou impactos significativos em diferentes regiões do Pará. "Teve grandes secas, região do Tapajós, de Altamira, do Marajó, sofreram muito com este El Niño, com seca prolongada, com queimadas, com calor", lembra.
Para o especialista, a experiência recente mostra que o estado precisa entrar no novo período de influência do fenômeno com planejamento. "Os impactos são inevitáveis", afirma.
PROTEÇÃO ÀS COMUNIDADES DEVE SER PRIORIDADE
Diante dos possíveis efeitos, Everaldo reforça que a principal preocupação precisa ser a proteção da população. "Um ponto muito importante desse decreto é de que sejam tomadas ações para proteger a vida humana, proteger as comunidades vulneráveis, proteger a população indígena", destaca.
A atenção, segundo ele, também precisa chegar aos municípios do interior. "Mesmo nas cidades do interior, tem muitos idosos, tem muitas crianças, também são pessoas prioritárias para serem atendidas pelas ações programadas, pelas ações coordenadas do governo do Estado", afirma.
O professor também defende uma atuação conjunta entre as diferentes esferas de governo. "O governo do Estado também deveria chamar as prefeituras", completa.
O QUE O DECRETO MUDA NA PRÁTICA?
O Decreto Estadual nº 5.606/2026 tem caráter preventivo e validade inicial de 180 dias. A medida não significa que o Pará esteja em estado de emergência ou calamidade pública.
Na prática, o alerta busca permitir que órgãos públicos acompanhem os cenários climáticos, identifiquem áreas vulneráveis e organizem ações para situações como seca, redução da disponibilidade de água, incêndios florestais, ondas de calor e piora da qualidade do ar.
A avaliação do professor Everaldo Barreiros reforça justamente esse caráter de antecipação: o objetivo não é esperar que os impactos aconteçam para então agir, mas preparar estruturas, equipes e comunidades para reduzir os danos quando os efeitos do El Niño se intensificarem.
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