O Super El Niño pode deixar o Pará mais seco e quente nos próximos meses, com redução das chuvas, queda no nível de rios e dificuldades para atividades agrícolas em diferentes regiões do Estado. A NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) aponta mais de 90% de probabilidade de o fenômeno alcançar intensidade muito forte entre a primavera e o verão de 2026/2027 e estima em 75% a chance de que o período entre outubro e dezembro seja histórico. A região do Niño 3.4 já apresenta anomalia de 1,8°C.
Na Amazônia, o cenário preocupa ainda mais porque o Cemaden identificou recentemente condições de seca moderada em rios como Negro e Xingu e apontou que a atuação do El Niño pode contribuir para a redução das chuvas. No Pará, porém, o meteorologista José Raimundo Abreu, do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), faz uma ressalva importante sobre a intensidade prevista pelos modelos internacionais.
"Esse fenômeno de 2026 provavelmente não acontecerá com a intensidade divulgada e que está na mídia decorrente dos modelos. A Organização Meteorológica Mundial também está divulgando que será um super El Niño”, afirma.
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PRINCIPAL CARACTERÍSCA DO EL NIÑO É REDUZIR AS CHUVAS:

Para Abreu, o principal efeito do El Niño sobre o Pará será justamente a diminuição das precipitações. "A principal característica do fenômeno El Niño no estado do Pará é reduzir as chuvas, porque o ar que sobe na região do Oceano Pacífico Equatorial desce seco e não favorece a formação de nuvens", explica.
Mesmo discordando da possibilidade de um episódio excepcionalmente forte, o meteorologista prevê um período mais seco no Estado. "Esse ano no Pará vai ficar mais seco em todo o Estado, redução de 30% a 50% abaixo da média", afirma.
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Abreu destaca ainda a experiência acumulada ao longo de décadas de acompanhamento meteorológico. "Eu trabalho na previsão do tempo no Inmet desde 1982 e, na previsão do tempo, tenho feito monitoramento dos fenômenos desde 1951", diz.
NORTE, OESTE E NORDESTE DO PARÁ DEVEM SENTIR MAIS
Segundo o meteorologista, a redução das chuvas não ocorrerá de maneira uniforme em todo o Pará. "As regiões que vão apresentar maior redução de chuvas são aqui a Região Metropolitana de Belém, a parte norte do Estado e o oeste", explica.
O período é especialmente delicado porque coincide com os meses tradicionalmente mais secos. "Isso porque começa o período seco, agosto, setembro, outubro e novembro", afirma.
Entre as áreas que podem registrar redução de aproximadamente 35% estão a região litorânea de Bragança, Salinópolis e Marudá, além de Paragominas, Capitão Poço, nordeste paraense e Ilha do Marajó. "Considerando que o índice pluviométrico dessas regiões já é baixo, porque está no trimestre, aos quatro meses mais secos, quando reduz 30%, a população vai sentir essa redução de chuvas", explica.
BELÉM AINDA PODE TER PANCADAS DE CHUVA
Mesmo com a previsão de redução das precipitações, a capital paraense não deve ficar completamente sem chuva. "Mas aqui em Belém, devido aos rios, à Baía do Guajará e aos canais, sempre acontece pancada de chuva no período da tarde devido aos efeitos convectivos", afirma Abreu.
Segundo ele, o aquecimento das águas também pode ajudar a manter esse mecanismo de formação de nuvens. "Eu estou vendo que as águas, a temperatura das águas do Oceano Atlântico e do Oceano Pacífico estão mais quentes, porém o Atlântico está também um pouco mais aquecido", explica.
"Isso daí favorece as brisas devido à evaporação. E a evaporação dos oceanos e dos rios causa efeitos convectivos, conforme essas nuvens que precipitam aqui em Belém, Região Metropolitana", completa.
Por isso, o especialista afirma que os efeitos do El Niño serão sentidos, mas não necessariamente da maneira mais extrema indicada pelos modelos. "Vai ser sentido, sim, mas até o momento, o mês de setembro, Belém não apresenta ainda redução das chuvas acentuada", diz.
CALOR PODE CHEGAR AOS 36°C
A menor ocorrência de chuva deve vir acompanhada de temperaturas elevadas, especialmente na Grande Belém. "A Região Metropolitana de Belém deve apresentar temperaturas máximas de 34 e alguns dias chegando até 36 graus", prevê o meteorologista.
Abreu afirma que a elevação das temperaturas já pode ser percebida. "Já teve um aumento de um grau do mês de julho a agosto para o mês de setembro. Saiu de 33, 34, está para 35 com muita frequência", relata.
A combinação de calor e menor volume de chuva pode exigir atenção especial da população, principalmente nos períodos mais quentes do dia.
XINGU E TAPAJÓS PODEM SER AFETADOS
A estiagem também pode atingir os níveis dos rios paraenses. "Os rios que devem secar, provavelmente o Xingu deve ser afetado, e parte do Tapajós, aqui no Pará", afirma Abreu.
O Tocantins também pode apresentar redução. "Os níveis do Tocantins devem baixar um pouco, e o Xingu principalmente no Tapajós", diz.
O cenário pode trazer consequências para comunidades que dependem diretamente dos rios para abastecimento, transporte, pesca e outras atividades.
RIBEIRINHOS E PRODUTORES PODEM SENTIR OS EFEITOS
A possibilidade de uma estiagem prolongada preocupa especialmente as comunidades ribeirinhas. "Vai ter impacto, sim, nas comunidades ribeirinhas, porque quando tem uma estiagem prolongada, às vezes até os poços artesianos baixam o nível", explica.
No Marajó, a redução das chuvas pode atingir diretamente a criação de animais. "A redução das chuvas para o pecuarista, onde tem o gado no Marajó, por exemplo, a redução das chuvas seca os rios e lagos que atravessam algumas fazendas, e o gado às vezes morre quando vai tomar água", alerta.
OS PEQUENOS PRODUTORES TAMBÉM PODEM ENFRENTAR DIFICULDADES
"Os produtores aqui que têm ciclos de culturas curtos, eles também não têm água, a atmosfera não vai proporcionar chuvas, embora de pouca quantidade, que favoreça esses produtores", afirma.
Para a população da Região Metropolitana, o especialista reforça a necessidade de atenção com a hidratação. "O paraense, a Região Metropolitana, deve, sim, se hidratar cada vez mais", orienta.
SUL DO PARÁ TERÁ COMPORTAMENTO DIFERENTE
O sul do Estado apresenta um regime de chuvas diferente do observado no norte e nordeste paraenses. "O sul do Pará tem um regime pluviométrico diferenciado. Ele começa a seca no sul do Pará no mês de junho, julho e agosto e, a partir de setembro, ele começa a aumentar as chuvas gradualmente", explica.
Mesmo assim, o El Niño pode atrasar essa recuperação. "Porém, com o período seco, ele vai reduzir um pouco as chuvas e prolongar-se o período seco", afirma.
Segundo Abreu, municípios como Marabá, Conceição do Araguaia, São Félix do Xingu, Xinguara, Santa Maria das Barreiras e Redenção, além de Novo Progresso, no sudoeste do Estado, ainda podem sentir os efeitos da redução das chuvas.
"Vai ocorrer ainda redução de chuvas, mas o impacto é menor, porque vai começar o período seco, se vai organizar pela Zona de Convergência do Atlântico Sul", explica.
CHUVA PODE AJUDAR A REDUZIR RISCO DE INCÊDIOS
Apesar da estiagem, a expectativa de retorno gradual das chuvas no sul do Pará pode contribuir para diminuir as condições favoráveis aos incêndios florestais.
"Assim começará, não vai ter os famosos incêndios florestais aí naquela região do sul do Pará, porque no mês de outubro, já sempre tendo as pancadas de chuva, o solo torna-se mais úmido e as plantas, ao receber as primeiras chuvas, começam a ficar verdes, diminuindo os incêndios que, porventura, poderiam acontecer", afirma.
O meteorologista, entretanto, reforça que o Estado ainda deverá atravessar um período seco. "Vai estar seco em todo o Estado, o sul do Pará também, mas o regime pluviométrico começa a ocorrer, começam a ocorrer as chuvas, mesmo de pouca frequência e intensidade", diz.
PLANTIO DEVE CONTINUAR LIMITADO
A situação preocupa também os produtores rurais, especialmente aqueles que pretendem iniciar o plantio em outubro. "Os produtores rurais também devem ser afetados, porque é um período de outubro que eles começam a querer plantar”, afirma Abreu. "Não é possível fazer plantio nesse período", acrescenta.
No sul do Pará, entretanto, a situação deve melhorar posteriormente. "Somente no sul do Pará, a partir de final de novembro, é favorável ao plantio, que os índices pluviométricos já devem superar 100 milímetros", explica.
METEOROLOGISTA CONTESTA PREVISÃO DE "SUPER EL NIÑO"
Apesar dos alertas da NOAA e de outros centros internacionais, José Raimundo Abreu reforça que ainda acompanha a evolução do fenômeno antes de considerar que o Pará enfrentará um evento excepcional.
"Nós estamos fazendo monitoramento dessas condições do fenômeno El Niño. Mas volto a dizer, não vai ser o maior ou o El Niño mais forte ou super El Niño conforme está sendo divulgado pela NOAA, pelo Centro Meteorológico dos Estados Unidos, também pelo modelo europeu", afirma.
Para o especialista, o comportamento simultâneo das temperaturas do Pacífico e do Atlântico é um dos fatores que precisa ser observado nos próximos meses. "Isso daí, por isso mesmo, não vai ser. Vai ser sentido, sim", resume.
A tendência apontada para o Pará, portanto, é de redução das chuvas, calor mais intenso e possível diminuição dos níveis de rios, mas com diferenças importantes entre as regiões. O monitoramento dos próximos meses será fundamental para determinar a intensidade real dos impactos do fenômeno no Estado.
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