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Cobertura falha pode ter levado a caso de sarampo

Depois de 10 anos o Pará volta a ter um caso de sarampo, acendendo a luz vermelha das autoridades de saúde do Estado. A vítima é um rapaz de 19 anos, morador do bairro do Guamá, que teve o caso confirmado pelo Hospital Universitário João de Barros Barr

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Depois de 10 anos o Pará volta a ter um caso de sarampo, acendendo a luz vermelha das autoridades de saúde do Estado. A vítima é um rapaz de 19 anos, morador do bairro do Guamá, que teve o caso confirmado pelo Hospital Universitário João de Barros Barreto (HUJBB). O último caso autóctone (para residentes no país) ocorreu no Estado do Mato Grosso do Sul em novembro de 2000. Com a confirmação do caso, o Brasil deve perder o certificado de erradicação da doença que seria dado esse mês.

Os sintomas da doença começaram a atingir o jovem no dia 6 de julho, mas apenas no dia 28 do mês passado a coordenação de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Estado de Saúde (Sespa) foi notificada da ocorrência do caso suspeito da doença.

Os irmãos do doente, de 24 e 26 anos, também são suspeitos de terem contraído sarampo. Nenhum dos três foi vacinado e hoje passam bem. A luta agora é para identificar a “cepa” da doença e descobrir qual o tipo de vírus circulante. Para prevenir um surto, a Sespa fez o bloqueio vacinal de toda a vizinhança da casa do rapaz que contraiu a doença. Helena Brígido, infectologista e diretora adjunta do HUJBB, diz que a causa maior do aparecimento da doença tanto tempo depois é a falta de cobertura vacinal. “A população precisa entender que o poder público faz a sua parte, mas a mãe precisa levar seu filho para vacinar”, ressalta. Ontem a Sespa realizou campanha de vacinação contra o sarampo para a faixa etária de 1 a 39 anos. Helena Brígido falou ao DIÁRIO sobre os riscos e perigos da doença:

P: Como está o quadro do sarampo no Estado hoje?

R:
O quadro de sarampo no Pará é apenas de alerta. O único caso confirmado e três casos suspeitos, da mesma casa, e irmão do caso confirmado, estão sob controle. Todos moram na mesma casa. Todos estão bem e fora do período de transmissibilidade da doença, sem risco de transmiti-la para alguém ou para a comunidade próxima, já que a Sespa vacinou todos ao redor. O que temos que fazer agora é vacinar quem não foi vacinado e os profissionais de saúde devem ficar em alerta a todos os pacientes que forem atendidos com febres e manchas no corpo, acompanhado ou não de tosse, coriza e conjuntivite. Nesse caso, a ficha de notificação deve ser preenchida e a Secretaria de Saúde deve ser acionada. Nesse caso, uma pessoa irá à casa do paciente suspeito ou na unidade que ele estiver sendo atendido para coletar o material para confirmar ou não o sarampo, já que muitas vezes os sintomas podem ser confundidos com rubéola e até mesmo dengue. É fundamental o diagnóstico laboratorial para que, confirmado o caso, a Sespa possa entrar com o bloqueio vacinal.

P: Como esse caso surgiu no Pará, depois de 10 anos sem casos notificados da doença?

R:
Não sabemos e dificilmente saberemos. Como passou o período de transmissão e como o jovem desconhecia que estava com o sarampo, essa tarefa se torna impossível. Os sintomas do sarampo passam de três a quatro dias para se manifestarem ou o paciente pode não manifestar sintomas. É nesse período que ele transmite a doença com mais facilidade, através de gotículas de saliva e se outras pessoas que adquiriram a doença, sem a manifestação clínica, não procuram atendimento e podem estar transmitindo. Por conta disso não há como saber quem transmitiu a doença para o rapaz que tem 19 anos e mora no Guamá, e não temos como saber se há na cidade pessoas com sarampo e não sabem que estão. Por isso é muito importante perceber as manifestações clínicas para que possam ser feitos os exames.

P: Qual o Estado clínico do caso confirmado hoje?

R:
Ele está bem. O caso foi descoberto depois que o jovem procurou atendimento médico. O exame foi feito num laboratório particular e depois, refeito no Laboratório Central do Estado, foi confirmado. Agora a Sespa está investigando a cepa para identificar qual o vírus circulante.

P: Existe a possibilidade do sarampo se espalhar pelo Estado?

R:
Depende da cepa. Se for uma cepa antiga que estava circulando e parou, vai parar nesse caso do jovem mesmo. Médicos que foram graduados de 10 anos para cá nunca viram sarampo por aqui, mas sabem dar diagnóstico. Estou formada há 25 anos e na minha época pós faculdade vi vários casos de sarampo, mas a doença sumiu e agora ela aparece de surpresa. É o momento de ver o que está acontecendo.

P: Como explicar o aparecimento da doença assim, de maneira repentina?

R:
Certamente problemas de cobertura vacinal, já que a vacina tem uma ação eficiente, com eficácia de 95%. Nesse caso agora, tanto a vítima como os dois irmãos não eram vacinados e esse é um grande problema. Não se sabe que contatos essas pessoas tiveram e o vírus pode estar circulando na cidade, que possui muitas pessoas de fora do Estado e até do país. Por isso é difícil saber de onde esse vírus veio. A primeira dose da vacina deve ser dada aos nove meses de idade e a outra aos 12 anos. A vacina pode dar alguns efeitos colaterais, mas nada que a contra-indique. Quem não tem comprovação que tomou a vacina precisa tomá-la. A idade limite é 39 anos. Qualquer unidade básica de saúde possui a vacina, que será reforçada com a campanha iniciada sábado (ontem).

P: O sarampo pode matar?

R:
As complicações existem. Pode haver infecção no ouvido e pneumonia e evoluir para um quadro neurológico, aí com risco de morte. Mas esses casos são mais raros e tudo depende da imunidade da pessoa, da carga viral que adquire... No caso desse rapaz, ele teve todo um quadro de sintomas assim como seus irmãos: tiveram cansaço fácil, fadiga e os demais sintomas, mas todos ficaram bem.

P: Quem apresentar os sintomas da doença pode procurar direto o Barros Barreto?

R:
O Barros Barreto não atende demanda espontânea, mas apenas referenciada. Os casos suspeitos de sarampo devem ser atendidos nos consultórios particulares ou nas unidades básicas de saúde. Após a suspeita, se houver necessidade de internação, fazemos a Autorização de Internação Hospitalar (AIH) e encaminhamos ao Barros Barreto para internação. Caso contrário é feito o isolamento domiciliar acompanhado de perto pela Sespa, que tem feito um trabalho de campanha vacinal muito bom. A população precisa entender que o poder público faz a sua parte, mas a mãe precisa levar seu filho para vacinar.

P: Como é referência, o Barros Barreto pretende fazer alguma ação para alertar a comunidade acadêmica ou a sociedade dos perigos do surgimento da doença?

R:
A doutora Tereza Bordalo, coordenadora do Tele-Saúde, está organizando uma vídeo-conferência que estaremos realizando aqui no auditório do Barros Barreto no próximo dia 25. Aqui no hospital existe a Rede Universitária de Tele-Saúde e de Tele-Medicina, que é uma iniciativa do Ministério da Saúde e do Ministério de Ciência e Tecnologia. O Barros Barreto foi um dos primeiros hospitais a ter essa rede no país. No caso da conferência sobre o sarampo, reuniremos professores da UFPA e profissionais do hospitais que falarão para os nove campi da universidade pelo interior, que possuem perfil econômico e epidemiológico bastante diverso. Serão beneficiados principalmente agentes de saúde da família, que podem fazer perguntas e se capacitar. O mais importante é que nesta conferência, do sarampo, de maneira excepcional, também estarão presentes representantes de universidades federais do Brasil todo. Queremos lotar o auditório do hospital de profissionais de saúde porque são eles que atendem na ponta. (Diário do Pará)

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