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Eles são a alma do centro da cidade

De longe vem Severino. Como o cego Aderaldo dos autos, cordéis e canções nordestinas, vem sob o peso de uma missão árdua. Salvar a humanidade. É uma tarefa que não lhe permite parar e conversar por mais de cinco minutos. As almas o esperam para ser resgat

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De longe vem Severino. Como o cego Aderaldo dos autos, cordéis e canções nordestinas, vem sob o peso de uma missão árdua. Salvar a humanidade. É uma tarefa que não lhe permite parar e conversar por mais de cinco minutos. As almas o esperam para ser resgatadas das bordas do inferno. Severino é pernambucano. Às segundas, quartas e sextas-feiras ele está sempre ali, na esquina entre o Banco da Amazônia e o Hotel Hilton, quase em frente ao Bar do Parque. Com uma surrada Bíblia de capa preta na mão, anuncia, num tom até agressivo demais, que o fim está próximo e que Jesus é o único caminho para a salvação. Apressadas, as pessoas não se detêm para escutar Severino. Mas ele não se incomoda. Suado, um pouco roufenho, Severino ergue as mãos para os céus e anuncia a palavra do Senhor. Pelas próprias contas, já distribuiu quase um milhão de panfletos bíblicos e bateu perna por mais de sete mil horas pregando pelo centro da cidade.

O pernambucano Severino é um dos mais diversos tipos anônimos que circulam pelo centro comercial de Belém. Pessoas que fazem do centro o próprio local de trabalho. Costumam passar mais tempo ali do que na própria casa. É um escritório ao ar livre. Viram Belém mudar, sentiram o centro comercial passar por diversas transformações e os hábitos das pessoas seguir novas tendências. Não se importam. É no centro que se realizam.

“Se não desse resultado eu já tinha parado”, argumenta com propriedade Raimundo Marcos, 46 anos. Marcos é Marquinhos da Gaita. Há dez anos ele circula por algumas das principais ruas do centro, como a Manoel Barata ou a Santo Antônio, oferecendo gaitas de boca para os atarefados transeuntes. “Tem muita gente que gosta do som, principalmente as crianças”, diz ele, enquanto começa a tocar a conhecida e politicamente incorreta para os padrões atuais ‘atirei o pau no gato’. Depois vem o Hino Nacional.

Marquinhos da Gaita mora em Icoaraci, mas nasceu em São Caetano de Odivelas. Chega ao centro todos os dias às 8h. Só sai às 16h, no mínimo. Em uma década de venda de gaita já chegou a uma conclusão. “A música hipnotiza, mano”.

Com a expansão dos shopping centers, parecia que o centro comercial definharia. Não ocorreu isso, mas as antigas e tradicionais lojas tiveram que ceder espaço cada vez maiores aos camelôs, ambulantes e pirateiros. Herança maior dos tempos de Fernando Henrique Cardoso na economia brasileira. No final da década de 90 e início do novo século, embora com inflação estabilizada, havia um número maior de desempregados. O tempo de procura por uma vaga de trabalho aumentava e a carteira de trabalho estava sendo desvalorizada. Com isso, a informalidade crescia. Belém viveu essa situação de forma dramática. Marquinhos da Gaita faz parte desse contexto.

Não é o caso de Alberto Teixeira da Silva, 54 anos. Ao contrário de Severino e Marquinhos, o silêncio é a maior companhia desse negro, cujo tempo levou a maioria dos dentes, mas lhe preservou o bom humor. Teixeira tem uma barraquinha minúscula na esquina da avenida 15 de Novembro, aquela que já foi chamada de ‘Wall Street” paraense, por conta da quantidade de bancos. Há 35 anos Teixeira trabalha em silêncio, consertando bolsas e sapatos. “Aqui só tinha um banco, o da Amazônia”, diz apontando para a rua com o queixo. “Eu fico sempre aqui nesse pedaço. Se o sol bate aqui eu atravesso a rua. Se chove eu me abrigo. Depois volto”.

Alberto Teixeira criou dois filhos com essa atividade simples. Chega às 7h30, vindo do Jardim Sideral. A mesa de trabalho está guardada num depósito perto dali. O material de trabalho, facas, alicates, preguinhos, martelos, fica numa loja de redes, também perto do ‘escritório’ de Teixeira. Escritório não. Consultório. “Costumo dizer que sou um clínico geral. Eu engraxo, costuro, boto solado, faço sandália de encomenda, o que se imaginar”, garante.

Às 17h30, fecha o ‘consultório’. Olha para a rua e lembra. “Aqui era só armazém de estiva. Foram morrendo tudo. Assim como o pessoal que me ensinou, desde moleque, a trabalhar com calçados. Tudo morre no fim. Não tem jeito”. (Diário do Pará)

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