As grades que protegem a família de Célia Pereira, 52 anos, da violência das ruas, não impedem que o medo, sem bater na porta, entre. O Medo, com ‘m’ maiúsculo, passou a ser companhia diária desde que a vizinha dela, a estudante Fabiane Melo, 20 anos, morreu, com um diagnóstico quase certeiro de dengue hemorrágica. Célia Pereira mora na passagem Vida, mas teme que a morte entre pelas frestas das janelas, pelas divisórias de banheiros. Em frente à casa dela, do outro lado da rua estreita, uma imensa poça de água parada, esverdeada, tem sido criadouro de larvas de mosquitos. A dengue assusta e vem modificando hábitos naquela viela encravada entre o Jurunas e a Cidade Velha.
“Todo mundo ficou preocupado por aqui. A gente não sabe de onde veio o mosquito. Pode ter sido do esgoto dela. Ele pode se reproduzir e voar pra qualquer lado. Nós vamos ter que dar um jeito por nossa conta. Fazer coleta, botar óleo queimado nessas poças de água, vamos ter de fazer alguma coisa”, diz ela.
Ontem, dois técnicos da Secretaria Municipal de Saúde (Sesma) estiveram na passagem. Conversaram com Leonir Malato, a mãe de Fabiane, e perceberam que nos arredores o risco de novos contágios não pode ser descartado. “Tem larva aí nessa poça”, aponta o morador Manoel Pantoja. O técnico da Sesma não confirma em voz alta, mas admite que sim, pode haver. “A gente tem medo do que pode acontecer. Quando chove, a água bate na canela”, diz Pantoja.
O Departamento de Vigilância à Saúde da Sesma se mobiliza. Os dois técnicos que foram ao local onde morava Fabiane fazem parte de um trabalho que visa investigar o que ocorreu e como ocorreu a contaminação. “Se é dengue hemorrágica, só o exame laboratorial pode dizer”, diz a técnica.
“Vamos fazer uma ação de bloqueio na área e ao redor, num raio que nos permita ter um panorama da situação”, diz a diretora da Vigilância à Saúde, Carlene Castro. A ideia é fazer uma especie de reconstituição de todos os passos de Fabiane desde o adoecimento dela. “Vamos fazer um levantamento nos imóveis, identificar o foco, descobrir de onde saiu esse mosquito. A borrifação é a última opção”, diz a diretora.
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