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A saúde mental no estado do Pará

A primeira coisa que chama atenção é a ausência de dentes na arcada superior. Quase todos os perderam. Ou melhor, eles foram arrancados. Herança de um tempo antigo, em que tratamentos medievais eram considerados necessários. Grande parte dos que ali e

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A primeira coisa que chama atenção é a ausência de dentes na arcada superior. Quase todos os perderam. Ou melhor, eles foram arrancados. Herança de um tempo antigo, em que tratamentos medievais eram considerados necessários. Grande parte dos que ali estão passaram por lugares como o Juliano Moreira, o mais famoso manicômio da história paraense. É no Centro Integrado de Assistência Social (Ciaspa) que muitos deles estão vivendo. Quando o último for reintegrado ao convívio social- ou morrer- o Ciaspa fecha as portas. E encerra uma página ainda pouco contada dos pacientes portadores de transtornos mentais no Pará.

Fica no final de uma rua sem asfalto, o Ciaspa, num endereço que quase ninguém quer saber em Ananindeua. Não há nada na fachada do prédio que indique do que se trata o lugar. Mas ali vivem 33 pacientes em regime de internação. Pessoas com idades que variam de 30 a mais de 80 anos. Quase todos sem vínculo algum com o que um dia foi chamado de família. Desamparados, vivem sob a proteção do Estado. E se tornaram uma espécie de segunda família para os 170 funcionários do Ciaspa.

Ana Nete está lá há 20 anos. É uma das funcionárias mais antigas. “Quando cheguei aqui eram 103 pacientes”, lembra. Na parede, logo na entrada do manicômio, já que não há eufemismos para dizer que o Ciaspa não é um, há 46 fotos de pacientes. Muitos já morreram. Outros ainda perambulam pelos espaços do prédio. Outros já não estão em condições de levantar da cama da enfermaria.

Arlete anda de um lado a outro. Fala alto, mas se entende pouco o que ela diz. Veio do hospital psiquiátrico Juliano Moreira. “Eu pulava o muro, dotô”, diz, com a língua enrolada, sem dentes. “Quando eles tinham crises, mordiam as pessoas. Por isso arrancavam os dentes deles”, conta a terapeuta ocupacional Elecilda Carvalho Rayol, 37 anos, diretora do Ciaspa e ardorosa defensora de um modelo humanizado de atendimento a portadores de transtorno mental.

“Desde que houve a reforma psiquiátrica, que é uma política nacional, deixou de haver incentivo para esse tipo de manicômio. A intenção é que haja uma desinstitucionalização do atendimento, ou seja, reduzir o número de leitos em hospitais específicos e incluir nos hospitais normais e instituir a residência terapêutica”, diz ela.

Uma dessas novas formas terapêuticas atende pelo nome do programa “Volta pra casa”. Para quem esteve internado por mais de dois anos há um incentivo de R$ 300 e a possibilidade de, dependendo da situação, poder ter uma vida quase autônoma em uma casa alugada. No bairro da Marambaia há uma residência nesses moldes, abrigando oito pessoas, egressas do Ciaspa.

É uma realidade distante de Fidélis, o sobrenome pelo qual ela é chamada. Nascida em 1938 em Bragança, Fidélis, no início, foi diagnosticada como portadora de esquizofrenia simples. Nos anos 70 foi internada no Juliano Moreira. Era casada e mãe de dois filhos. Foi submetida ao arcaico método da lobotomia. Até 1988 ainda era ‘tratada’ com eletrochoques. Nas sessões ocupacionais de pintura e recortes, Fidélis mostra-se uma exímia artesã. É uma das mais eficientes nos recortes dos enfeites de Natal que começam a ser confeccionados entre os internos. Quem coordena esse trabalho pela manhã é a terapeuta ocupacional Cláudia Andréa Capela Pires, 39 anos. “É uma forma de terapia que funciona muito bem. Eles gostam”, diz ela.

SEM HISTÓRIAS

No quase silêncio que habita as paredes do Ciaspa, há histórias cujos protagonistas não poderão contar. Eles perderam lugar na sociedade, perderam identidades, perderam quase tudo. Talvez até as próprias memórias. O que se sabe deles está em prontuários médicos, arquivados. Pouca gente quer saber o que eles contêm. A enfermeira Gleice Portugal é exceção. Há três anos no Ciaspa, leu quase tudo sobre os pacientes. Quis saber o que estava por trás de cada olhar perdido, de cada voz que se calou.

Histórias como a de Pantoja, outro sobrenome cuja historia se confunde com a do Juliano Moreira. De 1963 a 1969, ela esteve internada no manicômio. Teve retorno em 1974, em 1980 e em 1981. Passou pelo temido ‘quarto de segurança’, uma espécie de cela solitária, porta de entrada para os mais profundos abismos do inferno. Entre 1964 e 1966, Pantoja passou por seguidas sessões de eletrochoque. Durante todos os loucos anos 60 e 70, Pantoja soube literalmente o que era estar à margem do que era considerado normal na sociedade. No prontuário dela há definições como apática, desorientada, com perda de memória e apresentando agressividade em algumas ocasiões. Atualmente, os cabelos brancos de Pantoja pouco revelam do que ela, de pai e mãe ignorados, viveu, conhecendo de perto o inferno de seu próprio eu. Aos 85 anos, Pantoja vive prostrada na cama da enfermaria do Ciaspa. “Quando ainda se comunicava melhor, ela dizia que era do interior de Abaeté”, diz Gleice. E só.

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