Durante dois dias na semana passada Belém discutiu a ‘humanização’ e a ‘ética’ na produção de saúde. A ideia do Encontro Paraense de Humanização, Formação e Práticas em Saúde foi, segundo a própria coordenação, contribuir para o intercâmbio de conhecimentos e experiências sobre a humanização como um movimento em defesa do SUS, para o enfrentamento dos problemas na atenção e gestão em saúde. As palestras e debates ocorreram sempre depois das 8h30, em auditórios refrigerados na Universidade do Estado do Pará. Nesse mesmo horário, muitos usuários do SUS que chegaram cedo às unidades de Saúde já haviam voltado para casa, sem atendimento ou recebendo um serviço precário.
Foi assim com a doméstica Raimunda Santos, 57 anos, no Bengui. “Não consegui marcar o exame de otorrino de minha tia”, reclamava.
“É um cisto no ouvido, acho que tem de operar. Mas do jeito que está aqui não tem combate”. Raimunda saiu cedo de casa, mas percebeu logo que isso não seria de muita valia. Havia gente que dormiu em frente à Unidade. “Tem gente que paga para que outras fiquem na fila desde a noite”, acusa. “Logo cedo saiu uma mulher desmaiada porque não foi atendida. Só tem médico na segunda-feira aqui”, completa.
No Tapanã, o desempregado Cipriano Alves de Souza, 56 anos, tinha os mesmos motivos para reclamar. Ele havia chegado às 6h. Não tinha remédio e não havia médico especialista. “Tem que chegar aqui dez horas da noite”, diz ele. Seis horas foi também o horário em que a doméstica Luzamira Holanda dos Santos, 56 anos, chegou a referida unidade de saúde. “É complicado. É difícil vir aqui porque nada é rápido. Tudo é demorado”, afirma.
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