O financiamento da construção de casas próprias em benefício das famílias assentadas e de reservas extrativistas feito pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) não atingiu de forma igual a todas as famílias beneficiadas na localidade de Santa Teresa, no município de Tracuateua, nordeste paraense. Enquanto algumas famílias receberam as casas completas, como prevê o projeto do Governo Federal, outras precisam se contentar com o ‘esqueleto’ das casas, ou construções incompletas. Moradores da reserva suspeitam de desvio de verbas por parte da diretoria da associação que coordena os cadastros de beneficiados.
“Tem diretor da associação que não tinha uma bicicleta e agora já comprou duas motos e um carro”, estranha um morador que teve o nome subtraído da lista de beneficiados. O financiamento é uma das linhas de investimento dos chamados “créditos instalação”, que visam o suporte inicial aos clientes do Programa Nacional de Reforma Agrária nos projetos de assentamento ou nas reservas extrativistas reconhecidos pelo Incra.
A ideia, juntamente com os créditos concedidos para a garantia da segurança alimentar e para a aquisição de bens de produção - como bicicletas, geladeiras e freezers -, é oferecer meios para que a família tenha condição de viver com dignidade, produzir o próprio alimento e gerar renda. De início o projeto oferecia R$ 5 mil para as famílias. Atualmente o crédito equivale a R$ 15 mil para cada família assentada.
“A minha foi a pior casa de todas”, reclama Graciete Gomes, 26 anos, apontando para uma casa sem reboco, com portas defeituosas, sem banheiro adequado e com vazamentos. “Todo mundo falou que as casas eram completas”, diz ela.
É o que prevê o programa, independente dos valores que foram disponibilizados. O projeto do Incra preconiza que as casas deveriam ser rebocadas por dentro e por fora, possuindo 42 metros quadrados e contando com dois quartos, sala, cozinha, piso lajotado, banheiro com fossa séptica e instalação elétrica completa.
O problema é que o controle das obras fica por conta de associações. Em Tracuateua, é a Associação dos Usuários da Reserva Extrativista Marinha de Tracuateua, a Auremat. O presidente, até pouco tempo atrás, era Arnaldo Pinto de Araújo, o Feca. Sobre ele recaem as maiores desconfianças dos moradores da reserva. Isso porque Feca, tão logo assumiu a presidência da associação, começou a adquirir veículos.
“Não tem nada a ver isso. Quem trabalha com associação não pode comprar uma camisa nova que já dizem que é com dinheiro dos outros. O que eu comprei foi com meu trabalho”, diz ele. E nada mais explica.
O atual presidente da Auremat, João Carlos Gomes da Silva, diz que a diferença na qualidade das casas vem dos valores de crédito diferentes. “Com R$ 15 mil se constrói uma casa melhor. Mas o importante é ver que antes as casas eram todas de palha. Hoje isso mudou”, diz ele.
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar