Quem ainda não viu de perto o local onde o edifício Real Class desabou, deve ficar imaginando como está o clima naquela área. Como estão as cerca de 250 pessoas que trabalham há cinco dias sem parar desde o dia 29 de janeiro de 2011? E o sofrimento dos parentes das vítimas que esperam ansiosamente por alguma informação?
Ontem, uma equipe do DIÁRIO chegou ao local por volta das 7h, momento em que as equipes de resgate trocam de turno. Nesse horário, apenas uma das quatro máquinas trabalhava em cima dos entulhos. As outras três estavam à espera de novos operários, pois os que haviam trabalhado na madrugada já estavam exaustos. Joel Silva, 67 anos, era um dos operadores que estavam deixando o turno. Foi ele que estava manobrando a máquina escavadeira quando recebeu a seguinte orientação do Corpo de Bombeiros: “Para, para”.
Ele contou que imediatamente diminuiu a velocidade da máquina e parou o movimento. “Logo em seguida vi o corpo da vítima. Graças a Deus ele foi retirado intacto”. Perguntado sobre o que sentiu no momento em que viu o corpo, ele ficou emocionado. “Já estávamos trabalhando há muitas horas sem parar e nada de encontrar ninguém. Senti uma angústia porque pensei que o corpo fosse estar esmagado. Pelo menos assim, a família terá uma lembrança boa dele”.
Joel afirmou que nunca imaginava ter que passar por essa situação novamente. O homem, de 60 anos, trabalhou também na retirada dos entulhos do edifício Raimundo Farias, que desabou em agosto de 1987. “Aquele dia foi muito pior. Tiramos muitos corpos de lá”. Enquanto Joel já havia presenciado uma cena de catástrofe semelhante à queda do Real Class, o bombeiro Roberto Carvalho, de 27 anos, contou que essa foi a primeira tragédia onde teve que atuar. “Nunca esperava que um dia ia trabalhar em uma situação dessa. Ficou muito marcado na minha cabeça. Quando saio daqui para trocar de turno, não consigo pensar em outra coisa. Tenho sonhado todos os dias com isso”.
Os peritos do Centro de Perícias Científicas (CPC) Renato Chaves, que também estão dia e noite no local do acidente, contaram que esperam que o serviço termine rápido. “A cada dia que passa aumenta nossa expectativa em torno de encontrar logo as respostas para tantas perguntas que foram levantadas. Estamos aqui há cinco dias, mas parece uma eternidade”, disse o perito criminal e engenheiro civil do CPC, Benedito Cardoso. Quando não está na área da tragédia, ele não consegue pensar em outra coisa. “Fico olhando para todo prédio que vejo. Fico querendo analisar, ver se tem algum problema, algum defeito”.
Quem também não arredou o pé da travessa 3 de Maio foi a cachorra Naila que, por sinal, teve uma participação fundamental na busca dos corpos. O treinador dela, Denilson Montenegro, explicou como é a interação dos bombeiros com a cadela. “Eles demarcam a área onde possivelmente o corpo possa estar. A partir daí ela entra em ação. Se ela deitar é porque encontrou sangue, se sentar é porque está sentindo um odor muito forte, se girar e latir é porque encontrou cadáver”. E foi exatamente o que ela fez quando encontrou os três corpos.
Antes do último corpo ser achado, a ansiedade tomava conta. As máquinas escavadeiras pararam por quatro momentos. No primeiro, o corpo de um cachorro foi encontrado em meio aos escombros. Da segunda vez foi alarme falso. A terceira vez foi por precaução: uma das máquinas corria o risco de cair de cima dos entulhos. Na quarta vez em que a máquina parou, às 11h50, o último corpo foi encontrado. (Diário do Pará)
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