Enquanto bombeiros avaliavam a situação da casa ainda desabitada, Raimundo Nazareno Moura, 56 anos, lavava os aposentos, retirando a poeira acumulada de quase uma semana. Com a vassoura na mão, balde cheio de água, limpava com cuidado a sujeira que representava a lembrança de um momento em que a rotina dos moradores da rua Três de Maio virou do avesso. Retomar o fluxo normal da existência, tentando esquecer a tragédia do último dia 29 de janeiro, é o principal desafio de quem vive e trabalha na vizinhança do prédio Real Class, que veio abaixo uma semana atrás.
“Agora é fé em Deus que o resto a gente tira de letra”, diz Moura, que ainda tenta convencer a própria mulher a voltar para casa. Moura espera que a Defesa Civil libere a casa. Todo o lixo acumulado foi amontoado no quintal. “Já lavei tudo. Por mim voltava já para casa, mas a mulher ainda não quer”.
Moura guarda lembranças um pouco mais intensas do desabamento. Esteve no interior do edifício pouco antes dele ruir. “Eu tinha acabado de sair de lá. Tinha ido atrás do Ceará (José Paulo Barros, uma das vítimas fatais do desabamento) pedir para ele colocar uma cabeça num martelo meu. Ele me disse pra voltar na segunda-feira e pegar porque eles já iriam embora. Dei cinco reais a ele e saí”. A notícia do desabamento chegou logo depois, quando Moura se dirigia a casa da sogra para uma festa de aniversário. “O Ceará era muito legal, uma pessoa realmente bacana”.
Ceará e Moura eram dois dos frequentadores de um pequeno comércio localizado praticamente em frente ao prédio desabado. Às sextas ou aos sábados, um pequeno grupo se reunia na ‘venda’ de Armandinho Abreu. Jogar cartas era um dos passatempos do grupo. Operários da obra tinham conta na pequena mercearia. Desde o acidente, a poeira é quem ocupa os mesmos espaços. Uma televisão está coberta por fuligem. O jornal DIÁRIO à venda ainda é do mesmo dia do acidente.
O pequeno comércio fica na frente da casa habitada pela família Abreu, que sempre morou no mesmo endereço. E era a primeira vez que Ana Abreu, a matriarca da família, voltava ao local. “Essa casa foi construída com muito, sacrifício, muito custo”, dizia, ainda entre lágrimas, Ana Abreu, enquanto ouvia dos bombeiros que a lavanderia e o quarto construído logo acima, teriam de ser desocupados por apresentarem rachaduras.
Em todo o quarteirão, o cenário comum ainda era de casas fechadas e empoeiradas. Bombeiros e voluntários da Defesa Civil continuavam inspecionando residências. Poucas máquinas permaneciam no local. A descoberta dos corpos soterrados diminuiu o fluxo do trabalho. Para alguns moradores, no entanto, o recomeço ainda não é de todo fácil.
“A gente está tentando voltar ao normal”, diz a consultora organizacional Rainilda Peloso, que há 33 anos mora no mesmo endereço da Três de Maio. “A poeira me fez adoecer da garganta”, diz ela. Rainilda não quis ir para o hotel. Lembra que no dia do acidente, o tumulto fez com que parecesse ‘um Círio de Nazaré’. “Até acho que passei por cima de alguém que caiu”. Na casa dela, foram detectadas três rachaduras, embora, segundo a vistoria, nada que ameace a construção. Ao lado um salão de beleza contabilizava as perdas. “O faturamento aqui é em torno de R$ 3.200 por mês, mas isso já foi perdido”, diz a dona do salão, que funciona no mesmo endereço há oito anos.
“Depois que acharam os corpos ficou completamente sem planejamento isso aqui”, reclama Elizabete Grunvald, administradora de uma clínica neurológica particular. “Tenho pacientes graves que ficaram sem atendimento. Estou uma semana sem abrir”, diz ela, com a máscara no rosto para proteger da poeira. Isso significa, em cálculos aproximados, uma perda de R$ 2.500 por dia, segundo ela. “A vida da rua tem que voltar ao normal”.
PREJUÍZOS
A empresa de Robinson Bahia, uma agência que faz intercâmbio de estudantes para o exterior, também ficou em compasso de espera. “Já perdi uns 30% da minha meta de clientes mensais”. Próximo, uma clínica de ouvidos também abria pela primeira vez em uma semana. “Estamos tentando retomar hoje”, explicava a fonoaudióloga Leila Castro.
Voltar à atividade comercial é um desafio, mas retomar à normalidade de vida para quem testemunhou o acidente na íntegra, é mais complicado. A estudante Ana Paula Duarte, 28 anos, vive esse dilema. Ela havia acabado de almoçar. Foi ler os e-mails em um gabinete cuja janela possibilita a visão completa dos prédios à esquerda. “Senti o estrondo, o prédio tremeu. Gritei: gente vocês ouviram isso? Quando virei vi o edifício caindo, camada por camada”.
Ana desceu as escadas correndo e rezando, temendo que o próprio apartamento desabasse. A mãe, Valdize Melo, estava no Rio de Janeiro. A avó de Paula, de 89 anos, morava numa das casas ao lado do prédio em construção. A casa foi condenada. Ana tem sofrido de insônia. Quando ouve um raio, grita. No meio da noite ainda acorda assustada. “Nunca tive olheiras, nunca tive problema desse tipo, agora vivo nervosa”.
No meio da sala, a mesa ainda está posta. O almoço naquele sábado era um peixe. Os pratos foram jogados na pia uns dias depois. A família de Ana Paula não sabe se vai ou se quer voltar para o apartamento no edifício Londrina. Da sacada, mãe e filha olham para os escombros 15 andares abaixo. Há muitas perguntas ainda a serem feitas. Sobram incertezas. “Não sabemos como vai ser ainda”, diz Valdize. Na casa ao lado do edifício, Moura lembra a amiga perdida. Era na casa de Raimunda Fonseca, que morreu soterrada, que os moradores da Três de Maio fariam um churrasco no domingo para planejar como seria o desfile do bloco de sujos da rua. “Resta a saudade”, diz Moura, antes de continuar a limpeza da sujeira que ainda toma conta da casa. (Diário do Pará)
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