Com sua localização privilegiada, a cidade de Curuçá, no nordeste paraense, pode se tornar uma das cidades estratégicas para a exportação paraense, graças à compra, na última semana, pela Vale, da área de 3 mil hectares, onde deve ser construído o Porto de Espadarte.
Tanto interesse tem razão de ser. Primeiro, o porto diminuiria em cerca de 400 quilômetros a distância entre as minas de Carajás e os navios de exportação, que hoje são abastecidos no Maranhão. E depois pelo calado das águas, que pode chegar a 32 metros na cheia e 25 metros em períodos mais secos. A profundidade de calado da água é importante para a navegação de grandes navios.
A Vale comprou o local, formado por quatro ilhas (Ipomonga, Areuá, Marinteua e Romana) e distante 12 quilômetros de Curuçá, por R$ 10 milhões da empresa RDP Empreendimentos. A priori, a mineradora ainda trata a transação como uma “oportunidade estratégica” em estudo. O período de projetos preliminares de engenharia e de viabilidade ambiental deve durar pelo menos um ano. Passada essa fase, segundo um executivo, é pouco provável que a construção seja iniciada antes de 2015.
DESENVOLVIMENTO
O negócio é visto como uma oportunidade gigantesca de desenvolvimento para o município, segundo alguns moradores como Carlos Borges, 62 anos, que há 30 anos trabalha como comerciante na cidade. “Poderia ajudar a crescer a cidade, que está grande, mas pode ficar mais bonita”, entende. “Espero que os empregos e oportunidades cheguem para todos”. Porém, Carlos acha que isso ainda pode demorar um pouco, mas nem assim perde as esperanças. “Acho que talvez não esteja mais nem vivo para ver esse futuro da cidade, mas meus filhos e netos, sim”, completa.
O projeto atrai os olhares da economia exportadora de minério e é visto com expectativa pela população, mas também com alguma desconfiança. Afinal, há bastante tempo que o local é alvo de disputa entre grandes empresas. “Essas coisas que falam vêm de muito tempo. A gente fica só na expectativa de que algo vá acontecer sempre”, afirma o pescador Eugênio Soares, 54 anos, que possui dois barcos em operação nas águas da Praia da Romana, onde deve ficar o porto.
Crescimento deve beneficiar o entorno
Na Ponta da Romana, seu Eugênio aponta os locais onde os pescadores trabalham. Por enquanto, a pesca ainda é o principal meio de trabalho e geradora de renda para a cidade. Pelas ilhas e em direção ao oceano, circulam centenas de pequenos barcos pesqueiros. “Vem barco de Vigia, São Caetano de Odivelas, Salinas, Marudá. Essa orla fica cheia, com mais de 100 barcos. Quando a gente olha, parece que é uma cidade”, lembra.
Segundo a prefeitura, são aproximadamente 3 mil pescadores que trabalham na área do Espadarte. Antônio Maria Souza, 51 anos, lembra que hoje mesmo a circulação de navios ali já é intensa. “Hoje, a gente está pescando e os navios passam no meio da gente”, relata. E Pedro Paulo Santos, 42 anos, também pescador, opina que a categoria também terá uma oportunidade melhor de venda. “Acho que a estrutura vai melhorar, as estradas, os serviços públicos. E também os pescadores terão boas chances de trabalho”, reitera.
Hoje a economia do município é formada basicamente pela cultura da pesca e da agricultura e, em menor escala, pelo turismo. Para o prefeito Fernando Cruz, o projeto será importante para a cidade, mas precisa ser discutido. “É uma área de reserva ambiental, que abriga um rico bioma marinho”, entende.
Fernando diz que o projeto deve pensar em promover o menor impacto ambiental possível. “O município só tem a ganhar, se for tudo da maneira correta. Com certeza, crescerá bastante e ajudará os outros municípios do entorno, também”. Ele considera que um porto de minério como esse atrai empresas para a cidade, o que deve aumentar a arrecadação. “Mas também devemos pensar na mão de obra local e em outras ações que estamos fazendo, como trabalhar a legalização fundiária das áreas no entorno da cidade, atrair o Instituto Federal do Pará e a criação do Distrito Industrial”, completa. (Diário do Pará)
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