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Visitas íntimas homoafetivas para detentas no Pará

Fim de semana no Centro de Recuperação Feminina, bairro do Coqueiro, Ananindeua. Logo cedo, Edilene Borges da Silva, 27 anos, começa a se preparar para receber a visita tão aguardada. No cordão preso ao pescoço, a aliança que simboliza a união de 11 anos.

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Fim de semana no Centro de Recuperação Feminina, bairro do Coqueiro, Ananindeua. Logo cedo, Edilene Borges da Silva, 27 anos, começa a se preparar para receber a visita tão aguardada. No cordão preso ao pescoço, a aliança que simboliza a união de 11 anos. Enquanto maridos e companheiros das colegas de prisão começam a chegar, Edilene espera a própria vez. Só que, no caso dela, o artigo usado é diferente.

Edilene não aguarda a visita do companheiro, e sim da companheira. Homossexual, celebra a cada dia de visita o respeito pela igualdade de direitos de receber quem ama, independente da sexualidade definida.

“As relações homoafetivas são uma realidade no cárcere paraense e em especial no presídio feminino, onde o direito tem sido respeitado. Não podemos discriminar de nenhuma forma as relações homoafetivas. Não podemos fechar os olhos”, diz a diretora do CRF Dorotéa Soares Lima.

É um direito garantido pela própria Constituição Federal, que assegura os princípios da igualdade, da dignidade da pessoa humana e da promoção do bem de todos, sem preconceitos ou formas de discriminação.

Por este motivo, desde novembro de 2009, a Superintendência do Sistema Penitenciário (Susipe) regulamentou, por intermédio de portaria, a liberação das visitas homoafetivas. Isso inclui visita social e íntima.

Para Edilene, presa por assalto em Capanema, a visita da companheira de mais de uma década é o principal refúgio contra a solidão. “Ninguém da minha família vem me visitar há muito tempo”, diz. Edilene porta-se um pouco de forma masculina. Usa bonés virados para trás, cabelo muito curto, bermudão largo e camisa de time de futebol - no caso, o Flamengo. A exceção que abre para uma vaidade mais feminina é o par de brincos que reluz nas orelhas.

“A visita da minha companheira é um suporte emocional que tenho. Me ajuda bastante aqui dentro”, diz Edilene. As duas se conheceram em uma escola onde Edilene estudava e a outra trabalhava. Da paquera de olhares a uma aproximação foi um passo. Estão juntas até hoje e criam um filho adotado pela companheira. O adolescente tem 14 anos.

A liberação das visitas íntimas, mesmo assim, não alterou muito o comportamento da companheira de Edilene. “Ela se sente envergonhada. Tem muito preconceito, principalmente dos homens que vêm visitar as mulheres aqui. A gente nunca foi para a sala íntima. Ficamos por aqui e por ali, conversando, trocando algumas carícias, mas sem fazer sexo”, diz ela.

O trabalho das assistentes sociais é fundamental para dar equilíbrio emocional às detentas. “Aqui se busca a garantia do direito das presas de receber as visitas de suas companheiras no cárcere, a fim de que os vínculos afetivos e familiares anteriores à prisão não se desfaçam”, diz a diretora.

Carência é uma palavra pouco usada, mas bastante sentida no Centro de Recuperação Feminina. Carentes, muitas mulheres criam laços homoafetivos com outras detentas. Segundo a assistente social Jaciléia Alves, há uma carência afetiva muito grande. “As mulheres são mais abandonadas pelos companheiros”, diz.

Não é incomum, então, que relações sejam construídas dentro da prisão e se mantenham por um longo tempo. É o caso de Luana e Guiomar.

Luana foi presa por assalto. Guiomar, por aliciamento de menores. Se conheceram em 2008, quando ambas foram cumprir pena no Centro de Recuperação Feminina. Guiomar tinha um marido. Luana, desde que se ‘entende por gente’, gosta de mulheres. Presas no mesmo pavilhão, foi só um passo para que Luana, conhecida por ser ‘foguenta’, como dizem no CRF, passasse a assediar Guiomar.

“Foi mais de um mês eu dando em cima dela”, conta Luana. Guiomar repelia. “Eu tinha preconceito”, confessa. Aos poucos, foi abrindo a guarda para as cantadas da colega. Mas o que quebrou toda e qualquer resistência foram as inúmeras cartas enviadas por Luana durante o período em que ficou no ‘castigo’. “As palavras dela me conquistaram”, admite Guiomar, sob o olhar envaidecido de Luana. Aceita a corte, faltou avisar ao marido. Inconformado, ele chegou a ameaçar fisicamente Guiomar e Luana antes de ir embora. Para sempre.

O que as duas querem agora é continuar essa relação depois que ambas cumprirem as penas que devem à sociedade. Até o início desta reportagem a relação estava um pouco estremecida por uma ‘pulada’ de cerca de Luana. Um beijo selou a reconciliação. “Eu gosto dela. Se não for ela, volto a ter relações com homens”, diz Guiomar. Ao lado, Luana sorri, vitoriosa. (Diário do Pará)

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