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Mergulho num mar de lixo e dejetos

A forma encontrada pelo estudante David Pereira para se divertir é incomum. Ele e cerca de 30 meninos esmirrados que garantiram ter entre 13 e 15 anos aproveitaram a chuva de ontem (22) para tomar banho no Canal do Tucunduba. Acostumados, se jogavam um de

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A forma encontrada pelo estudante David Pereira para se divertir é incomum. Ele e cerca de 30 meninos esmirrados que garantiram ter entre 13 e 15 anos aproveitaram a chuva de ontem (22) para tomar banho no Canal do Tucunduba. Acostumados, se jogavam um de cada vez de uma ponte no bairro do Guamá. “Não tem perigo não. Quando a maré tá alta, a gente vem. É tranquilo”, dizia David.

O que ele desconhece são os malefícios que a água contaminada pelo lixo despejado no local pode causar.
Entre “mortais” e “peixinhos”, os meninos afundavam na água barrenta por segundos até voltarem à superfície nadando contra a correnteza. “Não tem piscina por perto, né, meu. Então a gente vem pra cá”, explica Eduardo de Souza.

Enquanto pulavam na água, sacolas e garrafas plásticas, caixas de papelão e pedaços de madeira eram arrastados pela correnteza em direção a eles. De vez em quando um gritava “Égua, olha só de lixo vindo”. Mas não era motivo para acabar a brincadeira.

A cena, comum nos arredores de canais, traz um alerta. Pessoas que entram em contato com a água suja dos canais da cidade estão expostas a diversos tipos de bactérias e vírus. “O contato com a água contaminada causa principalmente diarreia e doenças de origem bacteriana”, explica a médica infectologista Bibiane Monteiro da Silva.

Nesse caso, a maioria dos problemas é consequência do esgoto despejado nos canais. “Todos os dejetos da cidade são despejados nesses canais”. Dentre as doenças mais comuns que esse contato pode causar, estão a febre tifoide, a hepatite A, transmitida pela urina de pessoas contaminadas com a doença, e a leptospirose, transmitida pela urina de ratos, além de coceiras e feridas na pele. “Por mais que sejam tratados, serão sempre dejetos humanos”, afirma a médica.

LIXO

Mas é o lixo acumulado nos canais o grande responsável pela proliferação das doenças. Quando o canal entope, a água da chuva não pode ser escoada, causando os corriqueiros alagamentos na cidade. Em período de chuvas intensas e de maré alta, como o que Belém vive agora, o problema pode ser agravado.

Assim como os meninos que tomam banho no canal, a dona de casa Cleide Araújo também está em constante contato com essa água contaminada, mas não por opção. Ela mora em frente ao canal da 14 de Março com a Rua dos Caripunas e, sempre que chove, tem que conviver com os alagamentos. O canal, nesse perímetro, está coberto por garrafas plásticas e lixo doméstico. “Sempre que chove a água invade a minha casa”.

Cleide diz que a própria população despeja lixo no local. “Muita gente vem com carrinho de mão e joga tudo aqui”.

A cena se repete em muitos canais da cidade. No canal da Visconde, no bairro do Marco, a concentração de lixo é grande. Alguns moradores até penduram sacos na beirada do canal à espera da coleta pela prefeitura. “As pessoas não querem ficar com o lixo dentro de casa. O problema é que quando chove, vira um caos”, diz a moradora Cilene Farias.

O problema é enfrentado também no canal da avenida Bernardo Sayão. “Jogam entulho o tempo todo aí. Tem quinze dias que limparam e já tá assim de novo. Eles deixam aí na beira e a chuva traz tudo pra dentro”, conta um aposentado que pediu para não ser identificado.

No canal da rua Antônio Baena, no bairro da Pedreira, o que chama a atenção é a quantidade de roupas, toalhas e tapetes estendidos ao longo do canal. “Estamos acostumados a estender roupa aqui. Não tem nenhum problema, todo mundo faz isso”, disse Nilde Andrade, funcionária de uma casa de recepção que estendia toalhas de mesa.

Porém, a prática também pode oferecer riscos. Segundo Bibiane da Silva, mesmo que o contato com a água não seja imediato. “As pessoas não têm muito cuidado com a higienização da mão e ao levá-la à boca, podem causar uma diarreia”, explica. (Diário do Pará)

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