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Para eles, aumento vai para a geladeira

Assim que soube que seu salário ia aumentar, a doméstica Rosana Câmara dos Santos planejou fazer um curso de informática, porém, o plano durou pouco tempo. Ela teve que mudar de ideia assim após saber qual seria o valor do reajuste. “Um curso de inform

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Assim que soube que seu salário ia aumentar, a doméstica Rosana Câmara dos Santos planejou fazer um curso de informática, porém, o plano durou pouco tempo. Ela teve que mudar de ideia assim após saber qual seria o valor do reajuste. “Um curso de informática custa em média R$ 50 por mês, não dá”, conclui. Ela ainda pensou em comprar material escolar para os filhos, mas chegou à mesma conclusão. “Tenho três filhos, só um caderno deve tá custando R$ 15. Não ia dar pra comprar pros três”.
Os R$ 35 a mais no salário mínimo, aprovados na última quarta-feira (23) em votação no Senado Federal - o reajuste já havia sido aprovado pela Câmara dos Deputados na semana anterior e foi sancionado sexta pela presidente Dilma Rousseff, devendo entrar em vigor a partir de 1º de março. Assim que isso acontecer, Rosana e mais 41% dos trabalhadores no Pará passarão a receber R$ 545 no final do mês, aponta o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese/PA), com base na PNAD/IBGE/2009.
Enquanto isso, Rosana calcula o que vai poder comprar a mais no próximo mês. “O que pesa mais é a alimentação, então pra me ajudar, eu vou gastar com a cesta básica”, define. Uma das maiores preocupações dela quando se trata de alimentação é com o preço da carne. “Com esses R$ 35 dá pra comprar uns cinco pratos de carne. Isso na minha casa dura em média três dias”, calcula.
Com isso definido, ela verifica os preços no supermercado em que costuma fazer compras para saber o que vai poder comprar a mais. No carrinho só as coisas básicas: feijão, arroz, açúcar, leite e óleo. De acordo com as suas contas, é isso que ela vai levar. “Assim a gente sabe mais ou menos o que vai poder levar pra casa. Isso aqui deve durar uma semana”, diz, acomodando os produtos no carrinho do supermercado.
Mesmo achando não vai sentir esses R$ 35 no bolso, o porteiro Carlos Alberto Nunes da Silva também já pensou no que gastar. Assim como Rosana, ele não vai poder fazer a primeira coisa em que pensou. “Bom, em um curso não dava pra investir. Se fosse pra lazer, não dava também, a não ser que fosse só uma vez por mês”, planeja. Ele e mais três pessoas da sua família dependem do salário mínimo que ele ganha, mas fazendo as contas, acha mais vantagem gastar com a alimentação. “Se dividíssemos por quatro pessoas, daria uns R$ 8,70 pra cada por mês. É quase nada, então vai ser na cesta básica mesmo”, conclui.
Analisando o que lhe traz mais despesas durante todo o mês, ele decide que essa é realmente a melhor opção. “A cesta básica aumentou muito, a carne já tá lá em cima”. Mas Carlos já se preocupa com as despesas que ainda podem surgir durante o decorrer do ano. “Daqui a pouco aumenta a passagem de ônibus e aí, já era... vai ficar tudo na mesma”.
A doméstica Lúcia Monteiro também não pensa duas vezes quando o assunto é em que gastar o aumento que vai ter no salário. “É a alimentação do dia-a-dia que pesa. Se o salário aumenta, a cesta básica aumenta mais ainda”. Ela também acredita que a carne é a maior ‘vilã’ da cesta. “É mesmo o mais caro. O que dá pra comprar com R$ 35 só dura um dia lá em casa. E isso se for carne de segunda. Somos cinco pessoas pra comer”.
O palpite de Lúcia tem fundamento. Segundo estimativas do Dieese, somente no ano passado a carne bovina vendida no Estado do Pará sofreu aumento de 31,24%, impactando em 13,46% o salário mínimo pago no mesmo período, de R$ 510. Ela foi o terceiro produto mais caro da cesta básica em 2010, perdendo apenas para o feijão e para a farinha de mandioca, que tiveram reajustes de 90% e 33,96%, respectivamente.
Enquanto grande parte do seu salário é consumido pela alimentação, Lúcia tem que adiar o plano de comprar móveis novos. “Quando a gente recebe um aumento, a primeira coisa que pensamos é em comprar coisas pra nossa casa, móveis novos”. Entretanto, ela não acredita que vai ser com esse aumento que vai conseguir comprar o que queria. “Não dá pra guardar dinheiro, porque se você gosta de se alimentar bem, ver seus filhos bem, não dá pra guardar”.
Apesar de constatarem que o valor do aumento não será suficiente para suprir suas necessidades básicas, Rosana, Carlos e Lúcia já têm destino certo para o dinheiro e encaram a situação com bom humor. “Todo dinheiro é bem vindo, né?”, diz Carlos em meio a risos. (Diário do Pará)

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