O pequeno Gabriel, oito anos, chega cedo e vai logo experimentando a fantasia. Coreografa os passos típicos. Gabriel é o mais jovem integrante do grupo folclórico Boi Faceiro, que faz o arrastão mais famoso e tradicional do carnaval de São Caetano de Odivelas. “Desde os três anos que ele brinca no Faceiro”, diz a mãe, Núbia Pinheiro, orgulhosa dos passos miúdos do menino com a fantasia de ‘cabeçudo’. Gabriel e mais cinco cabeçudos, além dos onze participantes mascarados do Boi Faceiro, ajudaram a animar a folia mais voltada a uma tradição popular do carnaval paraense. Boi Bumbá e Carnaval dialogam sem cerimônia em São Caetano.
É uma tradição que corre risco de se desvirtuar, assim como em Curuçá os Pretinhos do Mangue e o carimbó também passam por tentativas de influências externas. Esse ano a prefeitura de São Caetano decidiu levar para o município uma grande aparelhagem de Belém, que, como não poderia deixar de ser, privilegiou o tecnobrega na seleção sonora. Opiniões se dividiram a respeito.
“É uma coisa que não tem a ver com o diferencial do nosso carnaval, que é mais voltado à tradição. Não tem a ver com o espírito local”, disse o vereador Rondi Palha, coordenador do Boi Faceiro. “É legal porque a gente gosta de dançar”, disse a universitária Jussara Mendes, 19 anos, junto ao namorado.
BAILES E TRADIÇÃO
São Caetano vive essa contradição. Não é um carnaval de arrastar multidões, como o município vizinho de Vigia. Mas carrega uma festa que remete a antigos bailes momescos. Nas ruas estreitas da cidade a festa é compartilhada por crianças e por velhos. Famílias inteiras que criam os próprios blocos, como o Cantinão, sem competição, sem compromisso que não seja o da própria diversão.
Assim também como a Associação da Melhor Idade de São Caetano. Um bloco formado por gente que já perdeu a conta de quantos carnavais já brincou, mas que não deixa de se divertir. De mãos dadas, Manoel Marcílio, 78 anos e Irene Monteiro, dez anos mais nova, casados há 52 anos, iam se reunir aos amigos para sair às ruas no bloco Borboleta, formado por pessoas que já passaram dos 60. “A gente brinca de forma sadia”, diz Marcílio, mais animado que a própria mulher.
Oito blocos apresentaram-se na orla do município numa festa que se estendeu noite adentro. Mas o ponto alto é mesmo o arrastão do Boi Faceiro. A concentração começou às 16 horas na sede do ponto de cultura Mestre Bené. Uma chuva miúda, mas insistente, preocupava os brincantes do boi. Entre eles, Leide Lourinho, 36 anos, a única mulher que faz parte dos mascarados do Boi Faceiro.
”Fui convidada e gostei”, resume ela. Isso foi há quatro anos. Leide gostou tanto que atualmente é vice-presidente do Faceiro. Sai animada com os primeiros acordes de marchinhas executadas por músicos que integram as centenárias bandas de São Caetano, a dos Milicianos e a Rodrigues dos Santos.
Às 16h30, os primeiros rojões são disparados. Prenúncio da proximidade de saída do arrastão. Meia hora depois, ao som de conhecidas marchinhas carnavalescas, os foliões ganham as ruas. Homens vestidos de mulher, mulheres fantasiadas de tigresas, mascarados, super-heróis. Não chegam a ser milhares, mas as centenas de brincantes que desfilam pelo centro de São Caetano, parecem saltar de outra época. Mais ingênua até. É o que mostram os confetes e as serpentinas jogadas por quem passa. A chuva dá uma trégua.
Cabeçudos e mascarados comandam o arrastão. Atrás, vem a banda, formada por alunos da escola de música do município. Entre eles, foliões das mais diversas idades. E entre o menino Gabriel, com seus oito anos de pura alegria e o entusiasmo outonal de Manoel Marcílio, de tantos carnavais, São Caetano mantém a tradição. É um Carnaval família, com certeza. (Diário do Pará)
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