O desabamento do edifício Real Class, que matou três pessoas no dia 29 de janeiro passado, ainda produz teorias diametralmente opostas sobre as reais causas do acidente, enquanto os laudos técnicos - do Centro de Perícias Científicas Renato Chaves, a quem é conferido valor legal para eventuais ações na Justiça, e de um grupo de engenheiros ligados à Faculdade de Engenharia da Universidade Federal do Pará (UFPA) - não chegam ao conhecimento público. O diretor da faculdade, Manoel Diniz, promete que antes do próximo dia 15 o laudo elaborado por sete engenheiros será entregue ao Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea-PA) para divulgação.
Até lá, segundo Diniz, qualquer versão publicada na imprensa não passará de “leviandade e mera especulação para vender jornal”. O diretor se refere a uma notícia publicada na semana passada por um jornal de Belém, para quem o prédio caiu por erro de cálculo. Para uma fonte ouvida ontem pelo DIÁRIO, a queda do edifício ocorreu por erro na fundação em razão de as estacas de sustentação do prédio terem ficado contaminadas por lama. A solução por estacas poderia ser abandonada, ainda segundo a fonte, mas isso implicaria em despesas muito elevadas.
A solução encontrada para resolver o problema, conhecida por radier - uma grande laje de concreto onde apoiam-se os pilares e paredes da edificação - não teria dado certo porque houve erro no cálculo do cimento. Resultado: o peso do prédio seria maior do que a base poderia suportar e ele veio abaixo. O radier é aplicável sobre solo instável ou sujeito a recalque.
O diretor, rindo ao telefone, disse ter ouvido muita especulação sobre a queda e que a nova versão a ele relatada pelo DIÁRIO era apenas mais uma, embora na opinião dele o engenheiro que elaborou a tese deveria vir a público para defendê-la. Diniz informou que a Fundação de Desenvolvimento e Amparo à Pesquisa (Fadesp) é quem vai gerenciar o trabalho feito pelos engenheiros. A contratação da UFPA foi descartada em razão da demora que poderia haver até a conclusão do trabalho. O contrato com o Grupo de Análise Experimental de Estruturas e Materiais (Gaema/UFPA) seria no valor de R$ 100 mil. Diniz não confirmou o valor. Mas foi irônico ao declarar que o preço “é inferior a um terço do custo de um apartamento do Real Class”.
LAUDO NÃO É DA UFPA
Para o reitor da UFPA, Carlos Maneschy, a instituição não tem nenhum envolvimento com a elaboração do laudo. “Não é um laudo da UFPA, porque eu não o assinaria. Um documento que não é assinado pelo reitor não é um documento da instituição”, explicou. Maneschy disse ter o maior respeito pelos engenheiros da Faculdade, acrescentando que eles têm total autonomia, assim como outros setores da UFPA, para fazer trabalhos de suas áreas específicas.
O presidente do Crea, José Viana, enfatizou que especulações como a do engenheiro civil que apontou um problema de cálculo no Real Class são “levianas e irresponsáveis”. Ele lembrou que o prazo para entrega do laudo era de 60 dias, mas dá quase como certo que ele estará de posse da comissão e será avaliado por esta até o dia 15. “Quando isso acontecer, convocaremos uma coletiva de imprensa para divulgar o resultado”, frisou.
O QUE DIZ A REAL
A assessoria da Real Engenharia disse por meio de nota que não recebeu nenhum comunicado oficial, cópia do laudo ou manifestação, mesmo informal, das entidades que encomendaram o estudo dos engenheiros da UFPA. Em vista disso, a empresa abstém-se de qualquer manifestação, avaliação ou comunicado formal, por meio da imprensa ou diretamente aos seus clientes e moradores da travessa Três de Maio e da Vila Sônia.
A Real informou ainda que qualquer manifestação seria precipitação, induziria especulações e não contribuiria para dirimir dúvidas, eliminar apreensão e avançar nas soluções dos problemas causados pelo acidente. Contratado pela Real Engenharia para realizar um laudo pericial, o engenheiro Nagib Charone explicou que o seu trabalho será entregue à contratante na próxima terça-feira, 16: “Aí cabe à construtora divulgar ou não o resultado, que a princípio será utilizado para controle”.
Segundo o engenheiro - que esteve no local analisando e também se baseou no material que a Real Engenharia disponibilizou para ele realizar o serviço -, a laje do subsolo está inteira, o que descarta a possibilidade de problema na fundação, restando o cálculo estrutural, a dimensão das peças e quantidade utilizada, cargas aplicadas, análise da qualidade do concreto e controle de todo o material empregado na obra, este último tendo sido entregue pela construtora ao perito engenheiro.
OS LAUDOS
A comissão que solicitou a perícia coordenada pela Faculdade de Engenharia da UFPA é coordenada pelo Crea-PA e conta com representantes do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Pará (Sinduscon), Associação dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi), Associação dos Construtores de Obras Públicas (Acoop), Faculdade Ideal (Faci), Universidade da Amazônia (Unama), Instituto de Avaliação e Perícias de Engenharia do Pará (Iapep). Deve ser divulgado até o dia 15 de março. (Diário do Pará)
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