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Jovens detentas tentam retomar vidas interrompidas

Foi ao ver a cela se fechando às suas costas que Edilene dos Santos Gonçalves, então com 18 anos, teve a dimensão exata do que havia feito com a própria vida. “Foi quando caiu a ficha”, lembra três anos depois. Edilene cursava a oitava série em uma escola

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Foi ao ver a cela se fechando às suas costas que Edilene dos Santos Gonçalves, então com 18 anos, teve a dimensão exata do que havia feito com a própria vida. “Foi quando caiu a ficha”, lembra três anos depois. Edilene cursava a oitava série em uma escola no bairro de Val-de-Cães. Em 2008, ganhou as manchetes dos jornais ao matar a facadas a também estudante Soraya Barbosa, 15 anos, numa discussão fútil, como vem se tornando comum nas escolas atualmente. Passados três anos, se agarra aos estudos como forma de manter vivo o sonho de poder se tornar enfermeira.

É uma possibilidade concreta. O Centro de Reeducação Feminino (CRF) possui uma escola, resultado de um convênio celebrado com a Secretaria de Estado da Educação (Seduc). É um modelo que dispõe da modalidade de ensino Educação de Jovens e Adultos (EJA). A escola oferece para as detentas vagas no ensino fundamental, que vai da alfabetização a 4ª etapa.

Não só. Há vagas também para o Ensino Médio. “Paralelo a este projeto educacional funciona o Projeto Sala de Cordas, com aulas de musicalização, com o violão sendo o instrumento base e o projeto Dó, Ré, Mi, Faz Melhor, com aulas de flauta doce”, detalha o professor Mário Augusto.
“Vale ressaltar que as alunas terminam o Ensino Fundamental e o Ensino Médio no CRF e são certificadas pela Seduc, por intermédio da escola Helena Guilhon, do Satélite, podendo, então, dar continuidade aos estudos fora do cárcere”, explica a diretora do Centro de Recuperação Feminina, Dorotéa Soares Lima.

É o que planeja Edilene, uma moça que fala baixo e cujos traços não levam o interlocutor a pensar que ela já tem 21 anos. Edilene diz que evita pensar no crime que cometeu. “Foi um momento de raiva, mas eu não queria matar. Me arrependo muito disso”, diz.
Mesmo não querendo pensar ou falar a respeito, de vez em quando vem à mente os momentos que mudaram duas vidas. Uma adolescente foi morta. Outra, desperdiçou os melhores anos da vida. O que emerge na lembrança é uma discussão tola, o incentivo dos colegas para que as duas brigassem, a ida até a casa para pegar um livro e a faca de cortar pão, em cima da mesa. Quinze minutos depois, a volta para a escola com a faca sob a blusa, os olhares trocados com a rival e as duas facadas, uma no pescoço, outro nas costas. Fim. Começo.

No Centro de Recuperação Feminina Edilene descobriu que tem jeito para enfermeira. É na enfermaria que trabalha internamente. E é com essa profissão que pretende reconstruir a vida, depois de cumprir a pena pelo crime cometido. “Sei que ainda sou nova e posso recomeçar”, diz ela.
“O difícil, às vezes é convencer as detentas a frequentar as salas de aula”, diz a diretora do CRF. Outro problema é a rotatividade de quem está na condicional ou em regime semiaberto. Das 536 internas no Centro de Recuperação Feminina, 120 estão matriculadas para estudar em 2011. Além disso, sete internas participam do curso de violão, 22 participam do coral e cinco participam do curso de flauta.

Música ajuda a ressocializar

No Natal do ano passado, foram as vozes de detentas do CRF que apresentaram as peças natalinas na última reunião do ano realizada no Fórum Criminal pela Vara de Execução de Penas e Medidas Alternativas de Belém, em Ananindeua. Eram as internas beneficiadas pelo projeto Dó, Ré, Mi, Faz Melhor, de ressocialização por intermédio da musica. “A ideia sempre é da reinserção da detenta”, diz o professor Mário.

Um exemplo é Alessandra Cristina Mota Rodrigues, 25 anos, que participa do curso de violão. Ela executa competentemente um repertório de MPB que vai de Zeca Baleiro a Ana Carolina. Foi presa há três anos, envolvida num esquema de tráfico internacional de entorpecentes. Conhecida como ‘Nicole’, poderia ser um típico caso de ‘amor bandido’. O namorado estava envolvido até o pescoço no tráfico. Alessandra acompanhou-o ladeira abaixo.

Junto a mais quatro pessoas, Alessandra foi presa quando a Polícia Federal apreendeu, em 2008, sete quilos de pasta de cocaína, dois veículos e mais de 19 mil reais, numa operação feita no bairro da Cremação.
Dois anos antes da prisão, Alessandra havia passado em Biologia no concurso vestibular da Universidade Federal do Pará. O curso ficou interrompido. A vida seguiu rumos diferentes. Como vendedora autônoma, ganhava a vida. Até envolver-se no tráfico. Nas aulas de violão, Alessandra tenta retomar uma linha na própria vida que ligue a mulher de hoje, encarcerada, à adolescente apaixonada por MPB. “As aulas ajudam a colocar a cabeça no lugar. Dão um rumo, uma distração”, diz ela, enquanto sob o olhar de uma reduzida plateia, começa a dedilhar suavemente as cordas do instrumento. (Diário do Pará)

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