Elas estão principalmente nos cruzamentos das avenidas Visconde de Souza Franco, Duque de Caxias, Magalhães Barata e Tamandaré. Nas mãos de crianças e adolescentes estão sacos de pupunha, CDs e DVs piratas e garrafas com sabão para lavar os vidros dos carros que param nos sinais.
“Eu chegou aqui às 8h e volto para casa lá pelas 7h da noite. Moro em Benevides e vendo produtos nas ruas desde os oito anos de idade. Todo dinheiro que consigo levo para minha mãe”, disse o adolescente de 15 anos, vendedor de pupunha, em um dos sinais da Duque de Caxias.
O jovem faz parte de uma estatística de menores em situação de risco na cidade de Belém. Segundo o Instituto de Desenvolvimento Sustentável (Idest), 58,3% das crianças e adolescentes em situação de rua no Brasil dormem em casa com suas famílias e trabalham na rua. “Cada jovem ou criança nessa condição tem um motivo para estar nas ruas trabalhando. Uma delas é a vontade de ter o que a publicidade mostra, como os aparelhos de telefones celular com TV, que é o que eles dizem que querem ter. A rua é uma maneira de conseguir o dinheiro ‘fácil’. A cada quatro segundos, que é o tempo que o sinal dura, eles arrecadam de R$ 0,50 a R$ 1. Nas sextas-feiras, que é um dia de grande movimentação, eles fazem de R$ 70 a R$ 100”, contou a coordenadora de Proteção de Média Complexidade da Funpapa, Andréa Alves.
DROGAS
O dinheiro feito nas ruas serve não só para alimentar o sonho de consumo como também as drogas. “Antes eles cheiravam cola e hoje eles usam pasta de cocaína e crack. Se a sociedade não desse dinheiro, eles não teriam como conseguir tão fácil”.
O ganho é um dos fatores que dificultam o trabalho de retirada das crianças e adolescentes das ruas. “É um trabalho de conquista. Nem sempre eles contam os motivos que os levaram às ruas. Mas quando começam a ter dinheiro fica um pouco difícil. Depois que conseguimos a aproximação, os levamos para os abrigos e então começa o trabalho com as famílias. Geralmente os pais não têm emprego e são muitos filhos. Os conflitos familiares fazem com que esses menores saiam de suas casas para morar nas ruas ou somente para pedir dinheiro e voltar para dormir”.
A pesquisa do Idest foi feita em parceria com a Secretaria de Direitos Humanos (SDH) e apontou que cerca de 70% das crianças e adolescentes que dormem na rua foram violentadas dentro de casa, 30,4% já são usuárias de droga ou álcool, 32,2% delas tiveram brigas com pais ou irmãos. “O abandono começa dentro dos lares. As mães fazem filhos e pensam que somente é responsabilidade do poder público cuidar. Estamos fazendo uma campanha maciça em escolas e postos de saúde com muitas mães e dizendo a elas que ter filho é ter responsabilidade”.
Para a coordenadora da Promotoria de Infância e Juventude do MPE, Leani Barros Fiúza de Mello, uma vez inserido no ambiente de rua, é muito difícil resgatar a criança e o adolescente.
“Ele adquire uma ‘liberdade’, onde aprende a luta pela sobrevivência. Existe a necessidade de uma retaguarda e de políticas públicas nessa área. A violência doméstica e o consumo de drogas são os primeiros a serem combatidos. A promotoria está pleiteando ao Colégio de Procuradores a criação de cargos de promotores para atuar na garantia do direito a convivência familiar de criança e adolescente”. (Diário do Pará)
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