Uma aparente calmaria invade o Ver-o-Peso à noite. O mercado de peixe e as barracas da feira fecham. O movimento fica por conta das vendas de bebidas e comida na beira da Baía do Guajará, onde até turistas se arriscam em perigosas incursões noturnas. A maioria dos feirantes volta para o descanso das suas casas. A jornada pesada de trabalho começou às 3h da manhã e se estendeu até à noite.
Muitos dormem por ali mesmo, nas próprias barracas. Fazem do mercado um lar. Carregadores se ajeitam nos próprios carros de mão que usam para trabalhar. Marítimos jogam conversa fora e tomam cachaça. Passam o tempo enquanto aguardam a hora de desembarcar o peixe.
A conversa com dona Selma Oliveira, 52, cinco filhos e 16 netos, é entrecortada por discussões com ameaças de morte entre feirantes que passam embriagados. Ali Selma cresceu, casou, enviuvou e há sete anos encontrou um novo amor. “Aqui é a minha primeira casa. Moro em Outeiro. Venho na terça e só volto no domingo”, diz preparando os legumes e temperos que vende na feira. A Ceasa ainda não existia e as mercadorias eram desembarcadas na praia. A Feira do Açaí era o Curral das Éguas, lembra.
Kátia Pureza, 41, dois filhos, começou a trabalhar na feira aos 16 anos, vendendo mingau. Ela também passa as noites no Ver-o-Peso, agora vendendo churrasquinho na Pedra do Peixe. “Rola muita coisa por aqui. O pessoal bebe e tira sangue um do outro”, diz. Novato na área, o cabo Sá só tem um ano de feira, mas já descobriu: “Aqui tudo se resolve na faca. Tem muito ladrão, droga e briga”.
O marítimo Adamor Azevedo Costa, 34, vive há dez anos “embarcado”. Ajudante do encarregado, vigia o barco enquanto espera a hora do desembarque do peixe com medo dos piratas. “Eles levam até o peixe do almoço”, diz ele, que nunca foi assaltado.
À 3h da madrugada a agitação está de volta. Mais um dia começa. A vida se renova na maior feira livre do país. (Diário do Pará)
Seja sempre o primeiro a ficar bem informado, entre no nosso canal de notícias no WhatsApp e Telegram. Para mais informações sobre os canais do WhatsApp e seguir outros canais do DOL. Acesse: dol.com.br/n/828815.
Comentar