Ele é a favor das construções de hidrelétricas na região - desde que as devidas compensações ambientais e sociais sejam respeitadas -e tem dois grandes desafios desde que assumiu a Secretaria de Estado de Desenvolvimento, Ciência e Tecnologia (Sedect), no atual governo de Simão Jatene: aproximar a academia e os setores produtivos do Estado e favorecer o surgimento de um novo modelo econômico para o Pará, amparado pela biodiversidade e pelo bionegócio - e tudo isso com o orçamento público reduzido dedicado ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia.
Professor e ex-reitor da Universidade Federal do Pará (de 2001 a 2009), Alex Bolonha Fiúza de Mello, 55 anos, graduou-se em Ciências Sociais pela UFPA em 1977. Especialista em Teoria Sociológica, mestre em Ciência Política, doutor em Ciências Sociais, Fiúza fez-se pós-doutor pela Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales de Paris e pela Cátedra Unesco de Gestão e Política Universitária, da Universidade Politécnica de Madri. Como pesquisador, se debruçou sobre questões ligadas à modernização e aos conflitos sociais na Amazônia e ao desenvolvimento regional, entre outros temas. Ex-integrante do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República e do Conselho Superior da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), Fiúza conversou com os repórteres do DIÁRIO, Ismael Machado, Carlos Mendes e Thaís Corrêa.
P: Secretário, a Sedect surgiu a partir do desmembramento
da Sectam...
R: Os governos definem suas estruturas em função de contextos. A Sectam foi criada para se dedicar à ciência, tecnologia e meio ambiente. Mas a agenda ambiental cresceu muito, sufocando a pauta de ciência e tecnologia. A separação teve por objetivo dar uma dedicação às questões ambientais sem prejudicar a ciência e tecnologia. Hoje, voltamos a ter o mesmo problema anterior. A ciência e tecnologia exige um tipo de lógica de tratamento em função das tecnologias e da inovação, que não compreende necessariamente da rotina da operacionalização de indústria e comércio, que tem que ter um tratamento de fluxo contínuo e permanente. A tendência do governo Jatene é fazer uma pequena reforma, que não sei dizer a extensão, mas já estamos trabalhando no sentido de distinguir indústria e comércio, que comporá uma outra secretaria, da Secretaria de Ciência e Tecnologia, que trabalhará mais com os setores de produção de conhecimento, educação superior,
pesquisa, inovação e com empreendimentos que visam incrementar a diversificação da economia paraense.
P: O senhor acredita que o perfil assumido durante seu período enquanto reitor da UFPA, quando buscava teconologia de ponta e inovação, foi o que incitou o governador a lhe convidar?
R: Quando me chamou, o governador frisou que minha indicação não foi político-partidária, o que me surpreendeu e honrou. Ele disse que minha indicação era de natureza técnica e tinha por objetivo dar uma contribuição ao setor de ciência e tecnologia do Estado. É um desafio grande, necessário e prioritário, que exige um trabalho de longo prazo. No Brasil, a produção científica repercute ainda muito pouco na transformação do sistema econômico. Na Amazônia, menos ainda. O desafio da Sedect é preparar uma base para inovação que envolve produção de conhecimento e aproximação com o setor produtivo. É criar um ambiente de inovação, uma articulação dos municípios com instituições de produção de conhecimento e empreendimentos de base tecnológica. Isso para que nas próximas décadas o Pará evolua de uma economia puramente extrativista, que produz matéria-prima e commodities sem valor agregado, para arranjos de empreendimentos de base tecnológica que sejam capazes de aproveitar a nossa maior riqueza, que é a biodiversidade. O Pará não tem expressão da industrialização da biodiversidade e do bionegócio. A industrialização do minério hoje começa a verticalização e sua diversificação no sudeste e oeste do Pará. Já o investimento na produção de energia limpa, com a hidrelétrica de Belo Monte, é apenas um símbolo do que está por trás de um projeto, já que em breve o Pará vai se tornar o maior produtor de energia elétrica do Brasil. O futuro do Estado não pode depender do minério, porque é uma produção finita. O que devemos fazer é ter inteligência e visão de Estado para coordenar um diálogo com as empresas do minério que sejam socialmente responsáveis para utilizar os recursos minerais para criar as bases de uma outra economia, a dos recursos renováveis, com o aproveitamento da floresta, dos rios. Implementar este tipo de economia exige muito mais aplicação de conhecimento do que derrubar a floresta pra criar gado. Então nós devemos preparar o Estado e suas instituições e desenvolver políticas públicas que favoreçam a criação de uma inteligência voltada à inovação, que aproxime os elementos da universidade, que utilize a biodiversisdade com responsabilidade ambiental. É uma mudança de modelo. É o grande desafio da secretaria.
P: Como mudar mentalidades e agir com orçamento restrito, já que ciência e tecnologia não é prioridade na gestão atual?
R: A secretaria tem que encontrar uma engenharia de funcionamento que não dependa apenas do Estado. Temos que fazer parcerias com o governo federal, com atores que tenham interesse em ciência e tecnologia. O grande desafio é mudar mentalidades, e os desafios que envolvem mudança de valores acontecem a longo prazo. Para resolver isso criamos ações concretas. Grande parte do empresariado não só não conhece como desconfia da academia. E parte da academia tem preconceito, está de costas ao empresariado, e se volta para dentro. Essa realidade tem que ser quebrada, esse distanciamento, de duas culturas que correm em paralelo. E esse não é um problema apenas do Pará, mas do Brasil todo.
P: Como a secretaria pretende integrar esses vários atores no Pará?
R: Nós estamos no início de agenda, mas já prevemos para até o final da primeira quinzena de abril, um workshop com empresas da base econômica do Estado e institutos de pesquisa, para debater questões e definir diretrizes que serão a base do trabalho da secretaria nos próximos quatro anos. A partir daí, é estabelecer metas a seguir.
P: A utilização de teconologia aliada aos recursos naturais tem sido foco de muitos projetos. Não existe o risco do Estado manter uma economia refém da esfera ambiental?
R: A questão ambiental é um modelo de perspectiva, de atividade econômica. O próprio capitalismo busca alternativas para a crise ambiental, que é discutida no mundo todo. Nós temos uma chance imensa dentro do Brasil e da Amazônia. É essencial que consigamos aliar preservação ambiental e desenvolvimento. Eu sou contra o ambientalismo preservacionista. A preservação da floresta se faz pela sua utilização racional. Você tem que saber o ciclo da renovação: até onde e que medidas a gente pode utilizar.
P: Quando se fala em setor produtivo nesse governo, a quem estamos nos referindo?
R: A todos. Mas a questão é que quando nos estendemos a todos os representantes, todo mundo que produz, não chegamos a lugar nenhum. Quando reitor, priorizei muito a agricultura familiar, a ponto de o Pará ter sido o Estado que mais investiu nessa área entre universidades. Neste momento, temos que chamar as grandes empresas âncora, porque elas têm uma responsabilidade social e capacidade de investimento diferenciada. A nossa interlocução vai nesse sentido. E o grande desafio é criar um ajuste de cooperação entre instituições que seja permanente no tempo. Não podem ser coisas pontuais. Se eu quero trabalhar 30 anos, tenho que fazer bem os quatro primeiros.
P: Uma vez o senhor disse que os cientistas, os pesquisadores, ainda eram pouco ouvidos nas decisões públicas. O senhor ainda mantém esse pensamento?
R: Hoje no mundo em que vivemos, em que a ciência tem contribuição a dar sobre a compreensão da sociedade, não temos que tomar decisão em cima de preconceitos, mas de um conhecimento embasado cientificamente. A academia não pode definir as coisas pelo Estado, mas tem que ser ouvida, para que tenhamos boas leis, por exemplo. Hoje se discute o novo código florestal. Precisamos de base científica. A ciência tem que ser ouvida.
P: Qual seria então o papel da Sedect?
R: Há gargalos. A economia está em andamento, os setores produtivos já existem. Cabe à secretaria analisar os setores que serão beneficiados com determinadas ações, chamar a academia. Induzirmos por meio de pesquisas a solução de gargalos de falta de conhecimento e inovação. Incentivar, através de incubadoras de empresas, novos investimentos e tentar vender essa ideia para o setor produtivo. Temos que criar uma cultura de interlocução cada vez maior entre ambos, para que isso flua junto. Quando isso ocorrer, a secretaria terá cumprido seu papel.
P: E projetos sociais, de acessibilidade tecnológica, como o NavegaPará. Haverá continuidade e ampliação dos infocentros?
R: O NavegaPará é um programa de Estado que terá continuidade. Se foi o PT que começou, tudo bem. Fez um bom trabalho. Nós temos que pegar agora o bastão para expandir o NavegaPará e aperfeiçoá-lo. Nós vamos transformar o projeto em espaços de aplicação de conteúdo de políticas públicas. É preciso ressaltar também que o NavegaPará não é de graça para o Estado. Pagamos cerca de um milhão de reais por ano. É um custo baixo, mas se pensarmos que temos 175 infocentros e queremos chegar aos 400 até o final do ano, esse valor aumenta bastante. O NavegaPará não pode ser um órgão de propaganda de Estado. Ele tem que ser de serviços, em benefício da população, em busca de democratização de acesso. E com a situação atual do Estado, não podemos endividá-lo ainda mais. Fora os recursos externos, o orçamento da Sedect soma em torno de 30 milhões de reais por ano. Sobra pouco para fazer uma política mais ampla de ciência e tecnologia.
P: Sobre Belo Monte, o país ainda precisa investir em hidrelétricas, mesmo com os impactos ambientais que isso possa causar?
R: Claro. Não é possível construir hidrelétricas sem impacto ambiental. O problema sempre é minimizar esses impactos e cumprir o que está definido na legislação. Existe muito disse-me-disse. Eu sou favorável [à construção de hidrelétricas]. Os recursos naturais estão aqui e devem ser explorados, mas nós temos que ter compensações sociais, senão vamos entregar a riqueza a custo de nada. Não vamos mover indústrias com energia eólica. Sou contra quem é contra hidrelétrica de qualquer maneira. Isso é romantismo, se não for obscurantismo. Sou favorável a quem defende que qualquer investimento que vá prejudicar a princípio algumas populações, que lhe ofereça compensações sérias, e que se cumpra.
(Diário do Pará)
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