Dois anos depois, o DIÁRIO voltou a visitar as dependências do Pronto-Socorro da 14 de Março em um dia normal de atendimento Em todas as áreas da unidade, constatou que a situação continua muito crítica, apesar das reformas realizadas no espaço.
As ambulâncias não param de chegar com pacientes de vários municípios, mostrando que a capital continua sendo o local a que todas as prefeituras recorrem. Um dado que se confirma na UTI pediátrica. Das 22 crianças internadas ali, apenas uma é de Belém. Há gente de São Miguel do Guamá, Barcarena, São Domingos do Capim, Abaetetuba e Igarapé-Miri.
A realidade é a mesma em outras alas, onde o entra e sai de enfermeiros é constante e as recém-reformadas enfermarias se tornam rapidamente uma sala de internação. São muitos doentes e parentes. Baleados, tuberculosos, feridos. Todas as salas estão com os leitos ocupados. Quase não há espaço para circular.
Lá dentro encontramos Francisco Cabral, policial, que trouxe o pai, Luís Silva Cabral, 79 anos, para Belém, após cinco dias sem atendimento em Vigia. Ele não sabe ainda o diagnóstico, mas o idoso está em coma no PSM. “Alguém tem que fazer alguma coisa. Vou ver meu pai morrer sem poder fazer nada”, diz, nervoso. Ao lado dele, o diretor geral do HPSM da 14, Orlando Brito, justifica. “Ele é um paciente grave, deveria ter vindo pela Central de Leitos, mas infelizmente as prefeituras não informam os pacientes e nós atendemos todos. Não podemos deixar de recebê-los mesmo sem registro”.
O diretor, que acompanhou a reportagem, disse ao DIÁRIO que enfrenta um constante problema: o inchaço no atendimento com pacientes vindos de outros municípios. “Tenho dez leitos de UTI dentro do hospital e mais 200 para atender a população. Mas são 11 mil atendimentos por mês. Onde vou botar essas pessoas?”. O diretor disse que esta realidade já foi pior. “Quando cheguei, não tinha água para os funcionários e agora estamos reformando várias áreas do hospital”, garante.
A ala pediátrica foi inaugurada na semana passada e parte do segundo andar está em obras para receber a nova sala de UTI. Com a implantação da central de acolhimento, que distribui os pacientes de acordo com a gravidade, houve uma redução nas filas.
Mesmo assim, há sujeira espalhada pelo hospital, o calor é grande e o cheiro de remédios também. Há macas pelos corredores, ocupadas por adultos e idosos. Uma idosa respira ofegante. A filha abana. Quatro pacientes estão algemados à maca, vigiados por três policiais militares. O cenário é de tristeza e desolação. Todos, funcionários, doentes e visitantes, parecem impotentes.
Segundo o secretário municipal de Saúde, Sérgio Pimentel, o grande nó é a falta de recursos para dar conta da demanda. “Com falta de recursos, não dá para custear a saúde, não se paga bem os médicos, não se consegue fazer a manutenção do parque”, exemplifica.
Pimentel diz que mesmo o valor pago pela pactuação integrada dos municípios, que a capital recebe para atender a demanda do interior, é insuficiente, já que muitos pacientes não vêm referenciados pela Central de Leitos e que o atendimento é maior que os leitos disponíveis. O secretário calcula em R$ 485 milhões o valor dos recursos gastos por ano na capital. Desses, aproximadamente R$ 300 milhões vêm de repasses federais, enquanto R$ 180 milhões saem dos cofres da própria prefeitura. “Se para cada atendimento, o governo federal passa mil reais, nós gastamos cinco mil. E muito desse dinheiro é investido em projetos do próprio governo”, justifica. Segundo Pimentel, o valor deveria ser de, pelo menos, R$ 700 milhões. (Diário do Pará)
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