O Dia Mundial da Saúde seria uma data a comemorar. Isso se a saúde pública não fosse encarada com descaso pelo poder público. O que se vê nos postos e unidades de saúde espalhados por Belém são centenas de pessoas dormindo nas filas em busca de uma consulta, um exame, um tratamento. Ontem (6), em uma ronda por esses lugares, o que o DIÁRIO encontrou não foi nada animador.
Ainda estava escuro, mas cerca de trinta pessoas aguardavam, desde o começo da madrugada, por senhas para atendimento do lado de fora da Unidade Municipal de Saúde da Providência. Pessoas como Auriberto Rubens Cordeiro de Castro, 67 anos, o primeiro da fila. “Vim buscar senha para minha neta de oito anos. Ela está fazendo limpeza aqui e vai ganhar aparelho”, disse o aposentado, a postos desde as 4h30 para conseguir consulta com o dentista, que começa às 7h.
“Dá uma canseira vir aqui tão cedo, mas é o jeito, eu preciso”, lamentou a dona de casa Rosângela Dias, acompanhada da sobrinha Priscila. Rosângela tinha uma demanda bem simples: exames de fezes e urina para a filha de 10 anos.
A mesma idade que tem Carolina Silva Sales, que estava na fila com a avó à espera de senha para ginecologista. “É para minha mãe. Ela trabalha agora e só pode vir na hora da consulta, que deve ser lá pelas 10 horas”.
São 5 horas e o guarda municipal que vigia o posto anuncia: “Entram os idosos, crianças e gestantes. Vocês aguardam aí fora, vamos ver se tem médico hoje para atender”. As pessoas na fila se agitam, algumas ficam desanimadas, outras começam a torcer para que o médico não falte. “Ontem (terça-feira) cheguei 5h30 e duas horas depois fui descobrir que não tinha mais senha para clínica médica. Fora que vez ou outra eles não têm remédios. É muito difícil assim”, denuncia Evaldo Modesto, 51 anos.
ESPERA DURA MESES
Na Unidade Municipal da Marambaia, um emaranhado caótico de pessoas busca pelas senhas, que são escassas. “Se hoje (ontem) forem dar só cinco fichas, não vou conseguir ser atendida de novo, estou desde janeiro atrás de consulta com dentista para mim e o meu pai”, desabafou Laís Rocha, 37 anos.
Os ponteiros do relógio de parede se aproximam das 7h e as portas do posto estão fechadas. As filas desorganizadas, com crianças pequenas e idosos vivendo um martírio atrás de atendimento. Caso de Vanessa Palheta, 22 anos, que amamentava a filha de dois meses e segurava a mão da outra de dois anos, ambas precisando de consulta com o pediatra. “Eu já passei muitas vezes por isso, do médico faltar aqui e eu ter que voltar para casa. Trago meu irmão para me ajudar, mas mesmo assim não consegui chegar muito cedo com elas. Venho de longe, do Tenoné”.
SEM MÉDICO
A auxiliar administrativa Maria Vanda Ribeiro, 59 anos, estava indignada na Unidade de Saúde da Terra Firme: “Cheguei aqui 5h30, mas a médica só chega às 9h. Eu passo uma manhã aqui, chego em casa depois do meio dia e mesmo assim o médico diz que a Sesma (Secretaria Municipal de Saúde) proibiu de fornecer atestado e eu pego uma falta no trabalho”.
Como a unidade fica em um local um tanto perigoso, segundo os moradores, pessoas como Shirley Monteiro, 32 anos, têm que esperar o dia clarear e, com isso, perdem direito à senha. “Minha filha de cinco anos está em casa, com febre, esperando atendimento. Já levei no pronto-socorro, mas lá só receitam dipirona. Eu estou contando com desistência de algum paciente para trazê-la com a pediatra. O pior é que as chances diminuem porque a outra pediatra faltou”.
Grávida de 5 meses, Nayla Kelly, 20 anos, contou que quando faltavam duas pessoas para a vez dela de consultar o médico na Unidade Municipal do Guamá, o computador pifou e o atendente pediu que ela retornasse outro dia. “Eu quero me matricular para fazer pré-natal e não consigo, não vou na unidade da Cremação porque lá só distribuem cinco senhas”.
A autônoma Jane Pereira, 36 anos, acrescentou que só consegue agendar consulta com o clínico médico quem chega às duas ou três horas da manhã. Ela diz que precisa consultar um neurologista, mas não vê nenhum especialista por lá há seis meses. “Antes, meu filho dormia na fila, mas conseguia ser atendido no dia. Agora eles marcam para dois dias depois. É triste, entra governo e sai governo e a situação da saúde não melhora. Quem pode pagar R$ 50 atravessa a rua e vai se consultar no particular”, constatou. (Diário do Pará)
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